Copersucar tira o biometano do discurso e quer 500 caminhões no projeto BioRota

Ao expandir o BioRota, a Copersucar inaugura um novo padrão energético no transporte pesado, usando biometano em escala real e reduzindo emissões com eficiência operacional comprovada

A Copersucar não apresentou uma ideia, apresentou uma operação. A BioRota estreia com mais de 70 caminhões movidos a biometano de fornecedores de transporte, 13 mil viagens já realizadas e 600 mil toneladas transportadas. No processo, retirou 5 milhões de litros de diesel da conta e evitou mais de 8 mil toneladas de CO₂. É a descarbonização saindo do discurso e entrando na estrada.

A companhia está ampliando o uso de caminhões movidos a biometano no transporte rodoviário de açúcar e etanol, que hoje representa 40% de suas exportações. Dos cerca de 500 caminhões usados na operação, 14% já são abastecidos com biometano, e a meta, segundo o CEO Tomás Manzano, é chegar a 100% da frota rodoviária.

O projeto BioRota, iniciado em abril de 2024 em parceria com a ReiterLog — responsável por 65 dos 70 veículos atualmente em operação — também envolve outras transportadoras, como Transvale, Rodomacro, JR e Aguetoni, sendo que esta última está adquirindo mais cinco caminhões movidos ao combustível renovável para expandir a iniciativa.

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Na prática, o projeto substitui o diesel por gás renovável produzido a partir de resíduos da cana-de-açúcar. Não se trata de projeto piloto ou teste controlado. A operação já roda em rotas regulares, transportando açúcar das usinas até o Porto de Santos.

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Escala, não promessa

O diferencial da BioRota está justamente no que falta à maioria das iniciativas de transição energética no transporte: escala operacional comprovada.

O biometano utilizado vem das unidades da Cocal, no interior de São Paulo, com produção a partir de resíduos orgânicos da própria cadeia sucroenergética. É um exemplo de economia circular aplicada à logística, o resíduo vira combustível que movimenta o próprio produto.

Além do ganho ambiental, há um ponto que costuma travar a adoção de alternativas ao diesel: custo e desafios geopolíticos. Segundo a própria operação, o biometano já se mostra competitivo economicamente.

 

Não é mais uma escolha entre sustentabilidade e eficiência, passa a ser uma decisão racional de operação.

Um setor difícil de descarbonizar

O transporte pesado é, historicamente, um dos segmentos mais complexos quando o assunto é redução de emissões. Diferente da mobilidade leve, onde a eletrificação avança mais rapidamente, caminhões de longa distância ainda dependem de soluções com viabilidade energética, logística, econômica e previsibilidade.

Copersucar
Fonte: Copersucar

A própria Copersucar projeta que a produção nacional do biocombustível deve mais que triplicar até 2027, saindo dos atuais 656 mil m³/dia para cerca de 2,3 milhões de m³/dia.

O dado mais importante, porém, está no potencial de impacto macroeconômico: o Brasil consome cerca de 62 bilhões de litros de diesel por ano, sendo mais de 20% importados. Se apenas 20% do potencial de produção de biometano for desenvolvido e direcionado ao transporte, o país pode reduzir pela metade essa dependência externa na próxima década.

Do projeto interno ao modelo de mercado

A BioRota começou como uma solução interna, mas já se transforma em um modelo replicável. A operação envolve múltiplas transportadoras e tende a crescer conforme novas usinas passem a produzir biometano.

Mais do que isso, a Copersucar já começa a posicionar o biometano como produto e serviço, incluindo fornecimento e assessoria para aplicação em frotas.

Esse movimento muda o papel da companhia na cadeia: de usuária da solução para indutora de um novo padrão energético no transporte.

O que a BioRota realmente representa

A BioRota colabora com as discussões sobre combustíveis alternativos no Brasil — que muitas vezes ficam apenas na teoria — ao demonstrar, na prática, que já é possível descarbonizar o transporte pesado em operações bem planejadas e com rotas fixas.

Ela combina três elementos raros no setor: tecnologia já disponível, operação em escala real e viabilidade econômica, mostrando que a redução de emissões não depende mais de soluções futuras. O processo já está acontecendo nas estradas, estabelecendo um precedente concreto para a transição energética no transporte rodoviário.

Se, no discurso, a descarbonização do transporte pesado ainda parece distante, na prática ela começa a ganhar escala com iniciativas como a BioRota. Pela dimensão da operação, pelo volume movimentado e pela integração entre produção de energia e logística, o projeto ultrapassa o status de maior do Brasil e se posiciona como uma das referências globais no uso de biometano em transporte rodoviário. Não é apenas uma solução local — é um modelo exportável.

O impacto vai além da redução de emissões. Ao transformar resíduos da própria cadeia produtiva em combustível e aplicá-lo em larga escala na logística, a operação consolida um ciclo completo de eficiência energética, com ganhos ambientais, operacionais e estratégicos. Em um setor onde alternativas ainda buscam viabilidade, a BioRota antecipa um caminho concreto — e, ao fazer isso, reposiciona o papel do Brasil na transição energética do transporte pesado.

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  • Chave para o Futuro
    O presidente da Copersucar, Tomás Manzano, defendeu no evento “CNN Talks: COP30 – A Chave para o Futuro” que o biometano já é uma alternativa imediata, viável e econômica ao diesel no transporte de cargas, destacando o potencial brasileiro de produzir o combustível a partir de resíduos da cana. Paralelamente, o Paraná se consolida como polo de energias renováveis, impulsionado por isenção de ICMS, programas de incentivo e uso de dejetos animais para geração de biogás. Já na Bahia, a Bahiagás apresentou um micro-ônibus movido a gás, demonstrando avanços na mobilidade sustentável e reforçando o papel das tecnologias limpas na transição energética nacional.
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Filipi Cândido
Filipi Cândidohttps://www.frotanews.com.br
Jornalista e diretor de inteligência de mercado na Frota News, com mais de 10 anos de atuação na construção e posicionamento de marcas em diferentes setores da economia. Ao longo da trajetória, esteve à frente de operações e estratégias nos segmentos de hotelaria e mercado de luxo, com passagens por grupos como LVMH — atuando em marcas como Dior e Guerlain — além do grupo Percassi e de uma experiência internacional como consultor de tendências para grandes marcas de wellness da China. Essa vivência consolidou uma visão integrada sobre comportamento, experiência e geração de valor. Atualmente, atua no setor automotivo e de veículos pesados, com foco em frotas, mobilidade e logística, liderando a produção de conteúdo e estratégias que conectam inteligência de mercado a oportunidades reais de crescimento. Nos últimos anos, aprofundou sua atuação em sustentabilidade e ESG, acompanhando de perto as transformações da indústria e traduzindo esses movimentos em análises que impactam diretamente o posicionamento e a competitividade das marcas.
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