Cocal avança na transição energética com mais de 170 veículos a biometano e testa caminhão JAC no transporte de cana

Pioneira na adoção de soluções sustentáveis no setor sucroenergético, a Cocal consolida uma das frotas mais limpas do agronegócio brasileiro. Em entrevista exclusiva à Frota News, Murilo Sulinski Madeira, gerente de Logística da Cocal, detalhou a expansão da frota a gás da empresa — que já supera a marca de 170 veículos —, revelou os motivos da escolha técnica pela conversão 100% a gás em vez do sistema dual-fuel e comentou sobre os testes em operações severas de campo com caminhões pesados da JAC.

Confira os principais trechos da conversa:
Frota News: Murilo, em matérias anteriores, registramos o início desse processo com o retrofit dos primeiros 20 caminhões. Hoje, qual é a dimensão atual da frota a gás e biometano da Cocal?

Murilo Sulinski Madeira: Hoje nós já ultrapassamos a marca de 170 veículos envolvidos diretamente no processo de conversão e operação a gás. É uma frota bastante diversificada: engloba desde caminhões pesados e tratores até motorbombas, além de veículos leves e utilitários.

Frota News: Como esses mais de 170 veículos estão divididos entre unidades 0 km adquiridas de fábrica e projetos de retrofit?

Murilo Sulinski Madeira: Não tenho o detalhamento exato em mãos agora, mas estimo que esteja na casa de 70% de veículos novos (0 km) e cerca de 30% de retrofit. A maior parte da nossa frota a gás é composta por caminhões novos de fábrica, complementados pelo processo de conversão.

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Frota News: No mercado de retrofit, existem opções dual-fuel (diesel + gás) e conversões para 100% a gás (como a solução desenvolvida com a MWM). Por que a Cocal escolheu o caminho do 100% a gás?

Murilo Sulinski Madeira: Nós adotamos o retrofit 100% a gás como nossa principal diretriz de substituição. Avaliamos e questionamos a tecnologia dual-fuel no passado, mas não encontramos nela uma solução que atendesse com eficiência à nossa severidade operacional. Entendemos que a queima mista de gás com diesel gera ineficiências de ambos os lados. Respeitamos outros operadores do setor que utilizam o dual-fuel, mas para a nossa operação o uso do gás em 100% — seja em veículos originais de fábrica, como os Scania, ou nos retrofits MWM — provou ser a alternativa mais adequada e sustentável.

Frota News: Vocês também iniciaram testes com marcas emergentes no segmento pesado a gás, como a JAC. Como está essa operação?

Murilo Sulinski Madeira: Estamos rodando atualmente com 1 caminhão pesado da JAC em teste. Inicialmente, fizemos uma operação no modal rodoviário em parceria com a Copersucar, no transporte de etanol. Agora, colocamos o veículo na operação agrícola interna (“para dentro da cerca”), que é o trabalho de fato mais pesado: transporte de cana-de-açúcar e vinhaça. Inclusive, o mesmo motor a gás que equipa este modelo da JAC acabou de ser homologado na China para operar com hidrogênio, o que demonstra a versatilidade da plataforma e sinaliza um avanço próximo nessa frente.

Frota News: Qual é o ritmo de renovação anual da frota da Cocal e qual percentual desse volume já entra movido a biometano?

Murilo Sulinski Madeira: Em números de escala de grandeza, renovamos e substituímos por volta de 40 a 50 veículos todos os anos. E cerca de 90% dessas novas aquisições ou substituições já entram configuradas para operar a biometano.

Frota News: Todo o biometano utilizado pela frota é de produção própria? Qual é a proporção entre o uso interno e o volume comercializado?

Murilo Sulinski Madeira: Sim, 100% do biometano que consome nossa frota é produzido internamente pela Cocal. Do nosso volume total de produção, destinamos aproximadamente 40% para consumo interno da frota e operações, enquanto 60% da produção é direcionada para venda ao mercado.

Frota News: Olhando para trás, desde o lançamento dos primeiros caminhões pesados a gás em 2019, como você avalia o amadurecimento do mercado de biometano no transporte?

Murilo Sulinski Madeira: O crescimento foi vertiginoso e excepcional. Isso se deve tanto ao avanço de políticas públicas e linhas de incentivo financeiro quanto ao entendimento dos parceiros do setor sucroenergético e de transportes de que o uso do biometano é uma realidade viável. Hoje, o ecossistema oferece opções consolidadas: a MWM tem motorização disponível, a Scania possui linha madura, a Iveco atua forte no setor, a JAC está chegando e novas parcerias tecnológicas surgem a todo momento. Opções no mercado definitivamente não faltam.

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Cocal consolida hub multienergético: segunda planta de biometano entra em operação e projetos de SAF avançam

A companhia sucroenergética Cocal, uma das principais sócias da Copersucar, consolida sua transição de produtora tradicional de açúcar e etanol para um hub multienergético renovável. Com investimentos expressivos na diversificação de matrizes, a empresa colocou em operação suas novas frentes de energia solar e biometano, fortalecendo sua posição no mercado de transição energética.

Expansão da infraestrutura e nova planta de Paraguaçu Paulista

A Cocal atingiu um novo patamar operacional com a entrega de sua segunda usina de biometano, localizada em Paraguaçu Paulista (SP). Fruto de um investimento viabilizado por um financiamento de R$ 216 milhões concedido pelo Fundo Clima, via BNDES, a nova unidade tem capacidade de produção estimada em até 60 mil m³ diários de biometano. A matriz produtiva utiliza como matéria-prima resíduos agroindustriais do setor sucroenergético, como vinhaça, torta de filtro e outras biomassas regionais.

Como destaque do projeto, uma parte significativa da capacidade inicial de produção da planta de Paraguaçu Paulista já opera com volume contratado no mercado. Para acompanhar o ritmo de crescimento da oferta e ampliar o escoamento regional, a companhia projeta a construção de um gasoduto com cerca de 80 quilômetros de extensão.

Essa expansão da capacidade produtiva conecta-se diretamente à consolidação da Lei do Combustível do Futuro, que estabeleceu um marco regulatório nacional acompanhado de metas progressivas para a inserção de gases renováveis na matriz energética brasileira. Nesse cenário, a Cocal reforça sua atuação ao participar ativamente de grandes chamadas públicas do setor.

A empresa esteve presente no processo de seleção promovido pela Petrobras para o fornecimento de biometano, ofertando tanto a molécula física do gás renovável quanto os seus atributos verdes, representados por créditos ambientais desatrelados da entrega física. Além disso, em um marco recente para o segmento, a Cocal obteve posição de destaque ao vencer com biometano no Leilão de Reserva de Capacidade (LRCAP) do setor elétrico, reafirmando a competitividade e a relevância do gás renovável no mercado livre de energia.

Descarbonização da frota: Retrofit MWM

No âmbito interno, o combustível renovável segue consolidando sua presença ao substituir diretamente o diesel na frota agrícola e de transporte pesado da empresa. Por meio de uma parceria com a MWM (Grupo Tupy), o programa de conversão inclui projetos de retrofit com a instalação de novos motores dedicados 100% a gás — com faixas de potência variando entre 220 e 330 cv — em caminhões e motobombas da operação.

Essa iniciativa gera expressivos impactos ambientais e econômicos. Somando os projetos de conversão aos caminhões Scania R 410 a gás operados em parceria com a Lots Group, o programa visa economizar milhões de litros de diesel por safra. A mudança proporciona reduções de custos operacionais na ordem de 30%, além de evitar a emissão de milhares de toneladas de CO₂ na atmosfera.

Paralelamente ao transporte terrestre, a visão de longo prazo da Cocal e de seus parceiros avança em direção ao futuro da aviação sustentável. Utilizando o biometano como matéria-prima de alto valor agregado, a empresa estrutura os primeiros passos para a produção de Combustível Sustentável de Aviação (SAF).

Por meio de uma joint venture constituída entre a Copersucar e a Geo Biogas & Tech, iniciou-se o desenvolvimento de unidades em escala demo-industrial para a fabricação de querosene parafínico sintético (SPK) via processo Fischer-Tropsch (FT). Esse composto intermediário é posteriormente refinado para dar origem ao bioquerosene de aviação, posicionando o setor sucroenergético brasileiro na vanguarda do fornecimento de combustíveis de baixíssima pegada de carbono para o mercado de aviação global.

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Marcos Villela Hochreiter
Marcos Villela Hochreiterhttps://www.frotanews.com.br
Atuo como jornalista no setor da mobilidade desde 1989 em diversas redações. Também nas áreas de comunicação da Fiat e da TV Globo, e depois como editor da revista Transporte Mundial por 22 anos, e diretor de redação de núcleo da Motor Press Brasil. Desde 2018, represento o Brasil no grupo do International Truck of the Year (IToY), associação de jornalistas de transporte rodoviário de 34 países. Desde 2021, também atuo como colaborador na Fabet (Fundação Adolpho Bósio de Educação no Transporte, entidade educacional sem fins lucrativos). Em 2023, fundei a plataforma de notícias de transporte e logística Frota News, com objetivo de focar nos temas que desafiam as soluções para gestão de frotas.
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