Nova pesquisa da IRU: Escassez global de motoristas se agrava e Brasil entra pela primeira vez na pesquisa

Setor de transporte vive pressão com 2,9 milhões de vagas não preenchidas e operadores relatando dificuldades crescentes para recrutar motoristas profissionais

O Brasil aparece pela primeira vez no relatório global da IRU, organização mundial de transporte rodoviário, sobre escassez de motoristas, divulgado em 30 de junho de 2026, em Genebra. A inclusão do país ocorre em um momento crítico para o transporte rodoviário mundial, que enfrenta um agravamento na falta de profissionais. Segundo a IRU, 2,9 milhões de vagas de motorista de caminhão permanecem abertas em 18 mercados analisados, o equivalente a 11% de toda a força de trabalho global.

O estudo revela que a escassez deixou de ser um problema cíclico e passou a refletir desafios profundos: envelhecimento da mão de obra, barreiras de entrada, infraestrutura insuficiente e mudanças nas expectativas dos trabalhadores. Na Europa e na Austrália, a pressão vem principalmente da demografia.

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Já no México e no Brasil, a combinação de restrições estruturais do mercado de trabalho e sistemas de treinamento pouco desenvolvidos mantém a escassez em níveis elevados, pois são mercados nos quais motoristas experientes estão aposentando e os jovens sem experiências não têm oportunidades.

 

escassez
Fonte: IRU

Com base nos dados apresentados no gráfico para o Brasil, as principais preocupações do setor de transporte e logística estão distribuídas da seguinte forma:

  • Escassez de motoristas: É o principal desafio identificado, sendo a preocupação número um para 35% dos respondentes.
  • Cenário econômico: Aparece como o segundo maior ponto de atenção, com 22% de participação.
  • Custos operacionais: Representam um desafio significativo para 20% do setor.
  • Descarbonização: É citada como a preocupação primordial por 6%.
  • Digitalização: Diferente de outras regiões como China ou México, o gráfico não atribui um percentual específico para esta categoria no Brasil.

Em comparação com a média global ou outras regiões, o Brasil apresenta um equilíbrio maior entre as preocupações com o cenário econômico e os custos operacionais, embora a falta de motoristas continue sendo o fator dominante.

A Europa registra uma das maiores taxas de vagas abertas, com 13% — cerca de 502.000 postos não preenchidos. Em quase todos os mercados, a taxa de escassez de 2025 superou a de 2021, reforçando que o problema se tornou estrutural. No Uzbequistão e na China, a demanda por transporte cresce mais rápido do que a oferta de motoristas disponíveis.

nclusive, agências de recrutamento de motoristas dos Estados Unidos e da Europa têm feito processos de seleção no Brasil, competindo a mão de obra escassa com as transportadoras brasileiras. 

O impacto já afeta diretamente a operação das empresas, logicamente, com exceções de transportadoras com processos mais avançados de recrutamento e treinamento que tem investindo na contratação de motoristas jovens e mulheres sem experiência.

Dois terços dos operadores europeus afirmam recusar novos contratos por falta de motoristas, e 65% apontam a escassez como sua preocupação mais urgente — índice quatro vezes maior que qualquer outro desafio. A pressão é ainda mais intensa entre transportadoras de longa distância e empresas de menor porte.

Operadores com menos de 50 funcionários registram taxas de escassez 6 pontos percentuais acima das grandes companhias. Pequenos negócios com menos de dez funcionários — que representam 98% das empresas de transporte rodoviário da UE e 79% da força de trabalho — têm menos recursos para investir em recrutamento, treinamento e contratações internacionais.

A participação de mulheres e jovens segue baixa. Na Europa, apenas 4% dos motoristas de caminhão são mulheres, apesar de evidências de que elas ingressam na profissão mais cedo que os homens. A IRU aponta que eliminar barreiras ao treinamento, melhorar instalações e modernizar a imagem da profissão pode ampliar significativamente o contingente de novos profissionais.

O envelhecimento da categoria torna o cenário ainda mais urgente: estima-se que 660.500 motoristas europeus se aposentarão até 2030. Ao mesmo tempo, cresce a percepção de que salários mais altos já não bastam para atrair ou reter profissionais. Condições de cabine, estacionamentos seguros, previsibilidade de escalas, tempo em casa e equilíbrio entre vida pessoal e profissional tornaram-se fatores decisivos, especialmente no transporte de longa distância e no turismo rodoviário.

A pesquisa qualitativa reforça os dados. Associações e grandes empresas da Austrália, Brasil, Canadá, Europa e Turquia relataram tentativas diversas para enfrentar o problema, como melhorias nas condições de trabalho, investimentos em treinamento e criação de planos de carreira.

No entanto, a IRU alerta que ações isoladas não serão suficientes. Exemplos da Finlândia, Países Baixos e Turquia mostram que a cooperação entre empresas, associações e autoridades públicas pode criar fluxos de recrutamento mais eficazes.

O Secretário-Geral da IRU, Umberto de Pretto, resume o desafio que, apesar dos esforços significativos do setor, a escassez de motoristas se agravou, tornando-se uma questão crítica para a indústria de transporte rodoviário. Ele afirma que o setor precisa melhorar a qualidade do emprego e transformar a profissão de motorista em uma carreira na qual as pessoas possam ingressar, evoluir e permanecer.

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Marcos Villela Hochreiter
Marcos Villela Hochreiterhttps://www.frotanews.com.br
Atuo como jornalista no setor da mobilidade desde 1989 em diversas redações. Também nas áreas de comunicação da Fiat e da TV Globo, e depois como editor da revista Transporte Mundial por 22 anos, e diretor de redação de núcleo da Motor Press Brasil. Desde 2018, represento o Brasil no grupo do International Truck of the Year (IToY), associação de jornalistas de transporte rodoviário de 34 países. Desde 2021, também atuo como colaborador na Fabet (Fundação Adolpho Bósio de Educação no Transporte, entidade educacional sem fins lucrativos). Em 2023, fundei a plataforma de notícias de transporte e logística Frota News, com objetivo de focar nos temas que desafiam as soluções para gestão de frotas.
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