Da bagunça analógica à precisão digital: a autotech que pode ser aliada na gestão de frotas

Por muitos anos, o mercado automotivo brasileiro conviveu com uma contradição curiosa: enquanto veículos se tornavam mais sofisticados, conectados e inteligentes, a cadeia de peças — responsável por manter toda essa tecnologia funcionando — permanecia presa a práticas analógicas, dependente de vendedores experientes, catálogos físicos e telefonemas intermináveis. Era um setor robusto, mas lento; essencial, mas pouco digitalizado. Até então, não existia a palavra autotech no contexto que conheceremos.

Foi nesse cenário que surgiu o Compre Sua Peça, uma autotech criada por Iago Átila, engenheiro automobilístico formado pela FEI, com passagens pelo Vale do Silício e pela França. Hoje, aos 30 e poucos anos, ele se tornou uma das vozes influentes da transformação digital do setor. Coautor do livro Mentes Brilhantes do Setor Automotivo, mentor de negócios e palestrante em eventos como o Congresso Brasileiro do Mecânico, Iago lidera uma mudança que vai muito além da venda de peças: ele está reorganizando a lógica de funcionamento de toda a cadeia.

Durante uma entreivsta com a Frota News, ele explicou como a autotech nasceu, como funciona seu ecossistema e por que a digitalização deixou de ser tendência para se tornar uma questão de sobrevivência — especialmente para gestores de frota.

Iago começa a entrevista lembrando que, até pouco tempo atrás, vender peças era uma atividade quase artesanal. “Antigamente, para vender peça você não precisava ter foto, descrição completa ou informações técnicas. O próprio vendedor era o consultor”, recorda.

O problema é que o consumidor mudou. A compra migrou para o ambiente digital, e com ela vieram novas exigências: clareza, precisão, padronização. “Hoje, a pessoa compra on-line. A informação disponível no anúncio é tudo o que ela tem. Se não estiver bem descrito, você não vende”, afirma.

Essa lacuna — entre um mercado que precisava se digitalizar e empresas que não sabiam como fazê-lo — abriu espaço para o nascimento do Compre Sua Peça. “Nosso objetivo sempre foi ser uma empresa de tecnologia para oferecer soluções ao mercado automotivo”, explica. Não se tratava de criar mais um e‑commerce, mas de construir uma infraestrutura capaz de sustentar a digitalização de toda a cadeia.

O ecossistema invisível que faz a engrenagem girar

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“A gente oferece dados para que ele consiga fazer a análise e calcular o que precisa”

Ao contrário do que o nome sugere, o Compre Sua Peça não é uma loja de peças. Não tem estoque, galpão ou caminhões. “Eu não tenho estoque físico nenhum. Nosso foco é fortalecer a marca do cliente”, diz Iago.

A empresa funciona como uma espécie de AWS do setor automotivo, nas palavras do próprio fundador. Ela oferece tecnologia para que fabricantes, distribuidores e varejistas digitalizem seus produtos, ativem seus canais de venda e performem no ambiente online.

O processo começa com a digitalização dos dados — a parte mais crítica e, ao mesmo tempo, a mais negligenciada do setor. “A digitalização começa nos dados. Sem isso, nada funciona”, afirma.

Hoje, a empresa já catalogou mais de 1 milhão de peças, com códigos, aplicações, compatibilidades e vínculos por placa. É um banco de dados vivo, atualizado diariamente, que serve de base para todas as soluções oferecidas.

A partir daí, o cliente pode ativar seus produtos em marketplaces como Mercado Livre, Amazon e Shopee, ou em seu próprio site. E, por fim, recebe suporte de performance: tráfego pago, métricas, estratégias de venda.

Ele só faz tudo isso porque quer vender mais. E o canal digital exige novas estratégias de performance”, resume.

A ponte entre fabricantes, distribuidores e frotistas

Se no início o foco estava nos fabricantes e distribuidores, o Compre Sua Peça rapidamente se tornou relevante também para outro público: os gestores de frota.

Locadoras como Localiza e Movida, transportadoras de grande porte e empresas com oficinas próprias começaram a usar a plataforma para resolver um problema antigo: a dificuldade de encontrar a peça certa, pelo preço certo, no lugar certo.

Durante a entrevista, Iago abre o dashboard da plataforma e demonstra como funciona a busca por placa. “Se você me passar a placa do carro, eu consigo te devolver o vínculo da peça. E ainda comparar preços de mercado em tempo real”, explica.

Para um frotista que administra centenas de veículos — alguns novos, outros com dez anos de uso — isso significa economia de tempo, redução de custos e decisões mais assertivas.

A gente oferece dados para que ele consiga fazer a análise e calcular o que precisa”, diz.

A plataforma permite comparar preços entre fornecedores, verificar disponibilidade regional e identificar a melhor opção de compra. É uma ferramenta que substitui horas de telefonemas, visitas a lojas e tentativas frustradas de encontrar peças indisponíveis nas concessionárias.

Assinatura, profissionalização e escala

O modelo de negócios é simples: uma assinatura mensal. “Não é para o consumidor final. Quem contrata é o profissional”, reforça Iago.

Hoje, a empresa atende 130 clientes corporativos, entre fabricantes, distribuidores e varejistas, e já ultrapassou 50 mil compradores finais de peças através dos canais operados pela plataforma.

O time, composto por 40 profissionais, inclui engenheiros de dados, desenvolvedores, especialistas em inteligência artificial — a empresa usa mais de oito ferramentas diferentes — além de equipes de marketing, performance e eventos.

Educar para transformar

Mas talvez o aspecto mais interessante da autotech seja sua aposta na educação. Iago percebeu que a digitalização não avança apenas com tecnologia; ela exige mudança cultural.

Nosso mercado é muito analógico. Por isso estamos fortalecendo a parte educacional”, afirma.

A empresa promove webinars quinzenais, cursos sobre reforma tributária, cadastro de produtos, compatibilidade técnica e outros temas essenciais para quem quer sobreviver no novo cenário.

A pessoa sem informação não está capaz. Estamos criando uma comunidade”, diz.

A visão do fundador: entre a engenharia e o futuro

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“Nosso mercado é muito analógico. Por isso estamos fortalecendo a parte educacional”

A trajetória de Iago ajuda a explicar a visão que ele imprime ao negócio. Formado em Engenharia Mecânica Automobilística, cresceu em uma família ligada ao setor e sempre transitou entre o universo técnico e o empreendedorismo.

As experiências internacionais — no Vale do Silício e na França — ampliaram sua percepção sobre inovação e o aproximaram de modelos de negócios baseados em dados e tecnologia.

Hoje, como Head e fundador do Compre Sua Peça, ele atua ao lado de Rogério Santucci, CEO responsável por liderar a expansão e a governança da empresa.

Um mercado que não espera

Ao final da entrevista, Iago faz uma comparação que resume bem o momento atual. “Assim como quando entrou o Uber tudo mudou, o nosso mercado também está mudando muito rapidamente”, afirma.

A digitalização da cadeia automotiva não é mais uma possibilidade futura — é uma realidade que avança todos os dias. E, como toda revolução silenciosa, ela não faz barulho, mas transforma tudo ao redor.

O Compre Sua Peça, com seu ecossistema de dados, tecnologia e educação, se posiciona como um dos protagonistas dessa mudança. E, para os gestores de frota, fabricantes e distribuidores, a mensagem é clara: quem não se adaptar, ficará para trás.

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Marcos Villela Hochreiter
Marcos Villela Hochreiterhttps://www.frotanews.com.br
Atuo como jornalista no setor da mobilidade desde 1989 em diversas redações. Também nas áreas de comunicação da Fiat e da TV Globo, e depois como editor da revista Transporte Mundial por 22 anos, e diretor de redação de núcleo da Motor Press Brasil. Desde 2018, represento o Brasil no grupo do International Truck of the Year (IToY), associação de jornalistas de transporte rodoviário de 34 países. Desde 2021, também atuo como colaborador na Fabet (Fundação Adolpho Bósio de Educação no Transporte, entidade educacional sem fins lucrativos). Em 2023, fundei a plataforma de notícias de transporte e logística Frota News, com objetivo de focar nos temas que desafiam as soluções para gestão de frotas.
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