Logística sem apagão visual: Como a tecnologia de iluminação adaptativa tenta mitigar os prejuízos de visibilidade em rodovia

Projeto piloto da EPR Litoral Pioneiro e TIM Brasil introduz resposta neurológica imediata por iluminação colorida para proteger fluxo de veículos contra a neblina. Modelo similar já funciona da China e EUA

A descida da Serra do Mar, no km 40 da BR-277, em Morretes (PR), passou a contar com um sistema de comunicação similar ao adotado em países como a China e Estados Unidos, e inédito no Brasil. Ele é baseado em cores para mitigar acidentes causados pela baixa visibilidade. A iniciativa é conduzida pela concessionária EPR Litoral Pioneiro, em parceria com a TIM Brasil, e utiliza refletores de LED inteligentes capazes de alertar motoristas em tempo real sobre condições críticas à frente.

O projeto piloto introduz o conceito de comunicação cromática, que dispensa leitura e se baseia na percepção neurológica imediata das cores. No sistema em testes, o laranja indica atenção máxima diante de situações como lentidão intensa, visibilidade comprometida ou ocorrência em evolução, enquanto o vermelho sinaliza perigo imediato, como fila parada, acidente com bloqueio ou interdição total da pista.

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A tecnologia funciona a partir da instalação de dispositivos luminosos nas laterais da rodovia, que alteram suas cores conforme comandos enviados pelo Centro de Controle Operacional (CCO) da concessionária. Esses dados são alimentados por sensores, câmeras e monitoramento contínuo do tráfego, com transmissão em tempo real via rede 4G da TIM Brasil.

Segundo Paulo Humberto Gouvêa, diretor de Vendas B2B da TIM Brasil, a conectividade é essencial para garantir a comunicação instantânea mesmo em condições adversas, como a neblina intensa típica da região. O sistema opera 24 horas por dia e foi projetado com redundância para evitar falhas críticas.

Em caso de interrupção na transmissão de dados — extremamente comum com os celulares —, permanecem ativos os sistemas tradicionais de sinalização, como placas fixas e painéis de mensagem. Este teste vai uma grande prova para TIM Brasil, pois segundo a Anatel, apenas 47% das rodovias têm sinal de celular com qualidade mínima de até 4G, e esse percentual cai para 12% com sinal 5G.

Ainda assim, o ambiente de serra impõe desafios como oscilações de sinal e latência, fatores que exigem investimentos financeiros pouco interessantes para o desenvolvimento da solução. De acordo com Carlo Framarim, diretor de Operações do Grupo EPR, o objetivo é ampliar a segurança em um dos trechos mais sensíveis da malha rodoviária.

O projeto inicial contempla 20 dispositivos instalados nos dois sentidos da rodovia. A escolha do trecho levou em conta a alta incidência de neblina, condição que eleva significativamente o risco de colisões traseiras e engavetamentos, especialmente envolvendo veículos pesados.

Segundo Norberto Prataviera Junior, gerente de Tecnologia da EPR no Núcleo Paraná e idealizador do sistema, o foco é permitir que o motorista reaja antes mesmo de visualizar o obstáculo. O objetivo é informar ao usuário qual a situação da rodovia em tempo real. Com o sistema, o motorista recebe informações sobre interdições, acidentes, necessidade de redução de velocidade e condições climáticas críticas.

O que podemos aprender com outros países

O problema enfrentado na Serra do Mar se repete em outros corredores logísticos estratégicos do país, como o Sistema Anchieta-Imigrantes (SP), a Régis Bittencourt e a Presidente Dutra (BR-116), além de acessos serranos no Rio de Janeiro e a Serra de São Vicente (BR-163/364/MT). Nessas regiões, a combinação de relevo acidentado e alta umidade compromete a visibilidade, impactando diretamente a segurança e a eficiência operacional, com paralisações em comboio que afetam prazos logísticos e janelas de entrega.

Internacionalmente, soluções semelhantes já são aplicadas em mercados mais avançados. A China utiliza sistemas inteligentes de orientação em neblina com LEDs e chuvas intensas embutidos em pistas e barreiras, os “smart lighting systems“. Inclusive, há sistemas que atuam para manter o motorista em alerta em viagens longas e que acompanham o condutor por trechos mais longos para estimular o nervo visual do motorista a ficar ativo.

Nos Estados Unidos, estados como Utah e Arizona operam sistemas automatizados que integram dados meteorológicos à sinalização viária. Dispositivos chamados “foggy road safety guidance devices” ou “smart fog lamps”, instalados em ambos os lados das rodovias, ajustam automaticamente sua intensidade conforme a densidade da neblina, criando uma “banda de luz” contínua que guia o tráfego e permite aos motoristas visualizar melhor o traçado da pista em condições de neblina intensa, compondo uma forma de sinalização luminosa que se alinha ao conceito de usar cores e luzes como alerta para reduzir acidentes por baixa visibilidade

Na Europa, a tecnologia mais próxima do conceito usado na BR‑277 está na gestão dinâmica de faixas com sinalização luminosa e em iluminação adaptativa, e não exatamente em “códigos por cores” para neblina: há décadas, rodovias, túneis e vias de alto fluxo usam painéis de sinalização variável, luzes permanentes e marcadores LED em pista para fechar faixas, mudar sentidos e orientar o tráfego em obras, acidentes ou congestionamentos.

Ao mesmo tempo, a norma EN 13201 permite sistemas de controle dinâmico que ajustam níveis de iluminação conforme condições de tempo (chuva, neblina, gelo), tráfego e acidentes, aumentando a intensidade e melhorando a visibilidade em situações críticas, inclusive com sistemas inteligentes em túneis integrados ao controle de tráfego, embora o foco europeu seja mais em gestão de faixas e mensagens dinâmicas do que em um código de cores explícito para alertar sobre neblina.

No Brasil, a proposta da EPR Litoral Pioneiro se destaca por integrar iluminação inteligente com redes móveis disponíveis 4G, as viáveis economicamente, mas ainda caras para uso em rodovias. Ainda assim, especialistas reforçam que a tecnologia não substitui a condução defensiva, que continua sendo determinante para evitar acidentes em condições adversas.

Custo previsto pela ANTT

A iniciativa conta com recursos previstos nos contratos de concessão e incentivo da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) para que possa ser repassado ao usuário para viabilizar as melhorias.

Caso os testes comprovem redução nos índices de sinistros, o modelo poderá ser expandido para outras rodovias federais. A próxima fase prevê a instalação de 200 luminárias ao longo de 8 quilômetros ainda este ano, com posterior aplicação em pontos críticos dos 605 quilômetros administrados pela concessionária. Para Fernando Milléo, gerente de Operações da EPR no Núcleo Paraná, o impacto vai além da segurança.

A Polícia Rodoviária Federal acompanha os testes. Segundo André Filgueira, porta-voz da PRF no Paraná, a iniciativa tem potencial para influenciar o comportamento dos condutores.

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Marcos Villela Hochreiter
Marcos Villela Hochreiterhttps://www.frotanews.com.br
Atuo como jornalista no setor da mobilidade desde 1989 em diversas redações. Também nas áreas de comunicação da Fiat e da TV Globo, e depois como editor da revista Transporte Mundial por 22 anos, e diretor de redação de núcleo da Motor Press Brasil. Desde 2018, represento o Brasil no grupo do International Truck of the Year (IToY), associação de jornalistas de transporte rodoviário de 34 países. Desde 2021, também atuo como colaborador na Fabet (Fundação Adolpho Bósio de Educação no Transporte, entidade educacional sem fins lucrativos). Em 2023, fundei a plataforma de notícias de transporte e logística Frota News, com objetivo de focar nos temas que desafiam as soluções para gestão de frotas.
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