Conectividade limitada em 47% nas rodovias encarece transporte e solução está em colcha de retalhos

Dependência de conectividade com múltiplas operadoras e satélites pressiona custos, reduz eficiência e expõe fragilidades da infraestrutura nacional

A malha rodoviária brasileira segue marcada por falhas de cobertura móvel que afetam diretamente o transporte de cargas. Mesmo com trechos extensos sem sinal adequado, milhares de caminhões continuam sendo monitorados graças a uma combinação de tecnologias que inclui GPS, redes legadas (2G/3G), 4G onde existe cobertura e, em muitos casos, links satelitais de backup. Essa arquitetura fragmentada — descrita por especialistas como uma verdadeira “colcha de retalhos” — garante rastreamento, mas eleva custos e complexidade para transportadoras e operadores logísticos.

Segundo dados de mercado, planos de rastreamento variam entre 39 e 69 reais por veículo/mês, dependendo do nível de serviço, do tipo de hardware e da necessidade de redundância. Quando a operação exige chips M2M multi-operadora, equipamentos compatíveis com múltiplas gerações de rede e canais satelitais, o tíquete sobe significativamente. O hardware também pesa: dispositivos capazes de operar em 2G/3G/4G e satélite são mais caros, exigem instalação especializada e ampliam despesas de manutenção e suporte.

A precariedade da cobertura gera ainda custos indiretos. Em áreas de sombra, o rastreador congela a posição até reencontrar sinal, limitando a reação a desvios, roubos e emergências. Essa visibilidade reduzida pode elevar o preço do seguro, exigir planos de gerenciamento de risco mais robustos. A falta de dados contínuos também prejudica a otimização de rotas, consumo e manutenção — pilares essenciais para eficiência operacional.

Infraestrutura deficiente e atraso em relação a padrões internacionais

O Brasil ainda está distante dos países com maior maturidade em conectividade rodoviária. Nos Estados Unidos, estima-se que cerca de 90% da malha de estradas tenha algum tipo de conexão móvel. No Brasil, segundo dados da Anatel (Agência Nacional de Telecomunicações), cerca de 47% das rodovias federais e estaduais têm sinal 4G ou inferior. Quando vamos para 5G, a cobertura cai para 12%.

A defasagem é ainda mais evidente quando comparada a mercados asiáticos como Coreia do Sul e Japão, onde a oferta de sinal 4G e 5G é disseminada inclusive em rotas interurbanas e corredores logísticos. A distância entre o padrão brasileiro e o dos principais competidores globais evidencia o impacto da infraestrutura digital limitada sobre a competitividade do setor de transporte.

No longo prazo, a situação tende a melhorar com o leilão da faixa de 700 MHz, que prevê levar 4G e 5G a cerca de 6,5 mil quilômetros de rodovias federais em 17 estados, incluindo trechos estratégicos como BR-101, BR-116, BR-135, BR-163, BR-242 e BR-364. Em entrevista à CNN, o ministro das Comunicações, Frederico Siqueira, afirmou que a conexão à internet em rodovias deve crescer 60% em até quatro anos em uma visão otimista.

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Como o rastreamento funciona “apesar da rede”

Para manter o monitoramento ativo, as empresas recorrem a uma série de estratégias técnicas:

  • GPS + telecomunicações (GPRS/2G/3G/4G, SMS ou satélite) para envio de dados à central.
  • Fallback para SMS em dispositivos GSM/GPRS quando a rede de dados falha.
  • Chips M2M multi-operadora, com até quatro operadoras embarcadas, reduzindo janelas de blackout.
  • Rastreadores híbridos (celular + satélite), que alternam entre redes móveis e satelitais conforme a disponibilidade.
  • Armazenamento local de dados, transmitidos em burst quando o sinal retorna.

Na prática, quando o caminhão entra em um “buraco de sinal”, o gestor vê a posição congelar e depois ser atualizada com todo o percurso assim que a conexão volta. Isso compromete o tempo real e limita a capacidade de resposta.

Impacto financeiro: custos diretos e indiretos

A conectividade limitada nas rodovias brasileiras não impacta apenas o custo direto do rastreamento, como mensalidades mais altas e hardware mais caro. Ela também gera uma série de efeitos econômicos indiretos que pressionam a operação logística. Um dos mais relevantes é o enfraquecimento dos SLAs de entrega: quando o rastreamento perde visibilidade em tempo real, aumenta o risco de atrasos, caminhões bloqueados, desvios não detectados e falhas na comunicação operacional, o que compromete compromissos contratuais e reduz a confiabilidade do serviço.

Outro impacto significativo é o aumento do custo de seguro ou a exigência de soluções mais robustas por parte das seguradoras. Em cenários de baixa visibilidade, as apólices tendem a ficar mais caras, e muitas empresas são obrigadas a adotar tecnologias adicionais — como rastreadores híbridos ou redundância de conectividade — para atender às exigências de gerenciamento de risco.

A limitação da cobertura também reduz o potencial de automação de processos críticos, como a roteirização dinâmica. Sem dados contínuos, sistemas de otimização deixam de operar em sua capacidade plena, impedindo ajustes em tempo real que poderiam reduzir consumo de combustível, evitar congestionamentos ou redistribuir cargas de forma mais eficiente.

Além disso, a necessidade de manter redundância tecnológica — com equipamentos compatíveis com 2G/3G/4G e, em alguns casos, satélite — eleva tanto o CAPEX quanto o OPEX. Em vez de padronizar a frota com dispositivos mais simples e modernos, as empresas precisam investir em soluções multifrequência, mais caras e complexas de instalar e manter.

Em um cenário ideal, com cobertura 4G/5G ampla e estável ao longo dos corredores rodoviários, seria possível simplificar toda a arquitetura de rastreamento. A redução de redundâncias permitiria operar com hardware padronizado, menos caro e mais eficiente, diminuindo o custo médio por veículo monitorado e ampliando o retorno sobre projetos de telemetria e gestão de frota.

Satélites LEO: a nova fronteira da visibilidade logística

Andreia Rosa, especialista de Produtos e Vendas da Deutsche Telekom Global Business Solutions Brasil

Para Andreia Rosa, especialista de Produtos e Vendas da Deutsche Telekom Global Business Solutions Brasil, os satélites de baixa órbita (LEO) representam uma evolução para o setor logístico. A tecnologia permite supervisão contínua e em tempo real de remessas tanto rodoviárias quanto ferroviárias, garantindo transmissão de dados operacionais, suporte técnico remoto e atualizações de software mesmo em áreas completamente desprovidas de cobertura móvel. Essa capacidade de manter o fluxo de informações independentemente da infraestrutura terrestre coloca os satélites LEO como um componente-chave para operações que exigem alta confiabilidade.

A adoção de uma infraestrutura híbrida — que combina redes celulares com satélites LEO dando mais robustez a “colcha de retalhos” — amplia significativamente a visibilidade sobre a movimentação de mercadorias ao longo de toda a cadeia logística. Essa integração fortalece a eficiência operacional e desempenha um papel decisivo na prevenção de roubos e na redução de perdas, especialmente em rotas remotas ou de alto valor agregado. Ao garantir conectividade permanente, as empresas conseguem acompanhar cada etapa do transporte com precisão e agir rapidamente diante de qualquer anomalia.

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Marcos Villela Hochreiter
Marcos Villela Hochreiterhttps://www.frotanews.com.br
Atuo como jornalista no setor da mobilidade desde 1989 em diversas redações. Também nas áreas de comunicação da Fiat e da TV Globo, e depois como editor da revista Transporte Mundial por 22 anos, e diretor de redação de núcleo da Motor Press Brasil. Desde 2018, represento o Brasil no grupo do International Truck of the Year (IToY), associação de jornalistas de transporte rodoviário de 34 países. Desde 2021, também atuo como colaborador na Fabet (Fundação Adolpho Bósio de Educação no Transporte, entidade educacional sem fins lucrativos). Em 2023, fundei a plataforma de notícias de transporte e logística Frota News, com objetivo de focar nos temas que desafiam as soluções para gestão de frotas.
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