Setor aposta em múltiplas tecnologias, mas gás renovável ganha espaço nas rotas longas
A Cummins já produz em larga escala nos Estados Unidos o X15N, motor de 15 litros movido a gás natural renovável (RNG), conhecido no Brasil como biometano. O propulsor equipa caminhões Kenworth e Peterbilt e entrega até 500 cv, 2.500 Nm de torque e redução de até 90% das emissões de carbono — podendo chegar à neutralidade ou até emissões negativas, dependendo da origem do combustível. Apesar disso, o modelo ainda não tem lançamento confirmado no mercado brasileiro.
Enquanto o X15N avança no exterior, a Cummins concentra seus esforços no Brasil no B6.7N, motor de 6,7 litros com 205 kW (277 cv) e torque de 1.100 Nm, compatível com as normas Euro 6. E isso faz sentido, pois o mercado de motores acima de 13 litros é restrito aos fabricantes de pesados premium e que possuem os seus próprios motores, como é o caso da Scania e Iveco. Já o motor de cilindrada média conta mercado em outras montadoras, principalmente, na Volkswagen.
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Família X15
A família X da Cummins (baseada na plataforma HELM) é multienergia, mas o X15N em si é um motor purpose-built para gás natural — não uma versão a gás do X15 diesel. Aliás, o cronograma da versão diesel teve sua estreia adiada para o fim de 2026 devido à questão regulatória nos Estados Unidos.
No mercado brasileiro, os caminhões a gás ainda são minoria, mas crescem e, na medida que a infraestrutura de abastecimento também cresce. Em 2025, foram licenciadas 669 unidades, equivalentes a 0,5% do total, enquanto os modelos a diesel somaram 135,5 mil emplacamentos (98,6%).
Em 2026, até maio, já eram 236 unidades a gás vendidos, alcançando 0,8% de participação. O número de veículos a gás em circulação saltou de 721 em 2022 para cerca de 2.500 em abril de 2026. Nesta conta não estão os modelos que passaram por retrofit de diesel para gás.
Projeto dos embarcadores
O avanço do biometano tem sido impulsionado por muitos embarcadores que têm exigido a transição energética dos fornecedores de transporte.
A Copersurga lidera o primeiro case de grande escala no país, com 70 caminhões operando na chamada BioRota. O plano prevê substituir gradualmente 500 veículos a diesel no transporte de açúcar e etanol até 2030. A operação registra redução de até 90% das emissões de CO₂ e custo operacional entre 20% e 25% menor que o diesel.
A Scania domina o mercado brasileiro de caminhões a gás, com cerca de 2,5 mil unidades emplacadas desde o início da operação comercial. A Iveco atua em nichos específicos, com cerca de 50 veículos, enquanto a JAC Motors opera em parceria dedicada com a Green Cargo. A Volkswagen testa o Constellation 26.280 a biometano, apresentado como conceito na Fenatran 2024 e em avaliação pela Loga desde março de 2026.
Produção de biometano
A produção nacional de biometano deve triplicar até 2027, saltando de 656 mil m³/dia para 2,3 milhões m³/dia, um crescimento de 215%. O Brasil já conta com 1.800 plantas de biogás, com São Paulo concentrando 40% da produção. A expansão é vista como estratégica para ampliar o uso do gás renovável em regiões sem gasodutos.
No comparativo tecnológico, o biometano se destaca como alternativa mais aderente ao transporte de média e longa distância. Ele oferece autonomia elevada, abastecimento rápido e custo por quilômetro até 25% menor que o diesel. Os elétricos avançam em operações urbanas, mas ainda enfrentam limitações de infraestrutura e autonomia. Já o hidrogênio permanece em fase de testes, com custos mais altos.
A Cummins, por sua vez, trabalha em múltiplas frentes no Brasil: valida o B6.7N, prepara kits híbridos para testes em 2025, desenvolve motor Dual Fuel Etanol/Diesel em parceria com Vale e Komatsu e avança no X15H, versão a hidrogênio apontada como “alternativa mais próxima do diesel”.
Para especialistas do ILOS, a transição energética no transporte rodoviário será gradual e marcada pela coexistência de diferentes matrizes, conforme o perfil das rotas e a infraestrutura disponível. Nesse cenário, o biometano desponta como solução imediata para longas distâncias, enquanto o X15N permanece como promessa para o futuro brasileiro — dependente da validação do B6.7N e da consolidação dos cases operacionais em andamento.
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