segunda-feira, abril 6, 2026

Chile, Colômbia e México: como a VWCO articula sua amplia ofensiva internacional

Movimentos simultâneos em Colômbia, México e Chile mostram avanço da estratégia de internacionalização e reposicionamento da engenharia da marca

A Volkswagen Caminhões e Ônibus avança em um de seus ciclos mais vigorosos de internacionalização na América Latina. Em um intervalo curto, a companhia anunciou uma sequência coordenada de movimentos que envolvem Colômbia, México e Chile, mercados que, juntos, representam mais de um terço do volume internacional da montadora.

A ofensiva não se limita ao envio de veículos. Ela combina engenharia aplicada a necessidades locais, pacotes de segurança de série, novos pesados — um segmento até então pouco explorado pela VWCO — e serviços financeiros integrados.

Colômbia

O maior anúncio recente envolve a transportadora colombiana envía (com ‘e’ minúsculo mesmo), que incorporou 140 caminhões Volkswagen às suas operações. O volume é suficiente para aumentar em 15% a capacidade operacional da empresa, que atende mais de 1.400 destinos no território colombiano.

A VWCO forneceu dois modelos complementares:

  • Constellation 18.320 DC — voltado a rotas de média e longa distância;
  • Delivery 9.180 — aplicado à distribuição urbana e last mile.

A escolha reflete um ponto-chave da estratégia da marca: pós-venda e disponibilidade operacional. A envía destacou os ciclos de manutenção mais longos e a proximidade da rede de suporte técnico como motivo decisivo.

A VWCO tem ampliado a oferta de treinamento de motoristas, engenheiros dedicados e atendimento regionalizado, o que cria um diferencial diante de concorrentes que dependem de estruturas logísticas mais dispersas no continente. O mercado colombiano, tradicionalmente, tinha maior vínculo com marcas norte-americanas em pesados e asiáticas em médios e leves.

México

Volkswagen
Lançamento do Constellation 26.480 6×4 no México

Se na Colômbia o foco foi o transporte de carga geral, no México, a Volkswagen Caminhões e Ônibus atacou um flanco estratégico: sua participação no segmento de pesados, tradicionalmente dominado por marcas norte-americanas e europeias.

O lançamento do Constellation 26.480 6×4, com PBT combinado de 74 toneladas e motor de 13 litros, marca o primeiro movimento realmente agressivo da VWCO no segmento de longas distâncias. O modelo chega com suspensão pneumática, freio retarder e entre-eixos múltiplos — um equipamento pensado sob medida para rotas rodoviárias do país, que exigem potência e estabilidade em trechos de relevo variável.

A versão 4×2, o Constellation 20.480, complementa a oferta para operações com menor exigência de tração.

Mas a estratégia mexicana não se resume aos pesados. Ela envolve uma renovação ampla:

Entrega da linha Delivery com transmissão automatizada, apontando para maior conforto e economia operacional; Semipesados Constellation 26.320, agora com cabine leito teto alto; Pacote Highline, levando a ergonomia da cabine a um patamar próximo ao de caminhões premium; e-Delivery de segunda geração, com até seis packs de bateria e autonomia de 250 km; e novo Volksbus 15.210 (Huracán), reforçando a presença da marca no transporte de passageiros.

Chile

O Chile representa hoje o terceiro maior mercado internacional da VWCO, e os números recentes reforçam esse papel: o país registrou crescimento de 9% nas vendas da marca nos dez primeiros meses do ano.

A VWCO lançou lá toda sua linha Euro 6, composta por mais de 20 modelos. Trata-se da maior renovação já promovida pela empresa em um único mercado.

Um dos líderes da marca no mercado chileno, como o Constellation 17.280, evoluiu para novas versões — 18.260 e 18.320 — trazendo maior capacidade de carga e torque. As novidades já estão distribuídas pelas 15 concessionárias chilenas e colocam o país como o quarto mercado a receber a nova geração global da montadora, após Brasil, México e Uruguai.

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Kia PV5: o único furgão de carga lançado no Salão do Automóvel 2025

O Salão Internacional do Automóvel de São Paulo 2025 marcou o retorno de um dos mais importantes eventos da indústria automotiva na América Latina, reunindo 12 dias de lançamentos, estreias globais e a consolidação de São Paulo como palco para estratégias de marca que vão muito além do tradicional. Entre SUVs, picapes, elétricos e modelos de performance, um destaque silencioso, mas estratégico, chamou a atenção: o Kia PV5 foi o único furgão de carga exibido entre os lançamentos deste ano — um movimento que coloca a marca sul-coreana como protagonista num segmento que vive transformação acelerada impulsionada pelo e-commerce, pela entrega urbana e pela eletrificação de frotas.

A estreia do PV5 não aconteceu isoladamente. Ela faz parte da maior ofensiva de produtos da Kia em mais de três décadas de presença no Brasil, com oito modelos revelados simultaneamente, seis deles inéditos.

A seguir, a reportagem detalha os principais lançamentos e o papel estratégico de cada modelo no redesenho da presença da Kia no mercado brasileiro.

PV5

Entre SUVs de alto impacto e picapes de perfil mais aventureiro, o Kia PV5 se destacou justamente por ocupar um espaço onde a concorrência foi discreta: o dos veículos comerciais leves elétricos. Com o avanço de regulamentações ambientais em capitais brasileiras, restrições de circulação e a consolidação das operações last mile, o PV5 chega para suprir um vazio que a indústria ainda demora a preencher.

O modelo faz parte da família global PBV (Platform Beyond Vehicle), que aposta em modularidade e customização. Exibido no Salão na versão Cargo, o PV5 chega com diferenciais que o colocam à frente dos atuais VUCs e elétricos disponíveis no mercado:

  • Volume de carga de até 4.420 litros
  • Baterias de até 71,2 kWh
  • Autonomia de até 693 km
  • Sistema Easy Swap, que permite troca rápida de módulos
  • Função V2L, capaz de alimentar equipamentos externos
  • Plataforma pensada para conectividade, telemetria e adaptação para frotas

Tasman

Outra estrela de impacto visual no estande da Kia foi a Tasman, a primeira picape da marca em nível global, que estreou justamente no Brasil, um dos maiores mercados do mundo no segmento.

A Tasman combina robustez, design de perfil utilitário e elementos práticos para uso misto entre trabalho e lazer. Entre seus diferenciais mais notáveis estão a caçamba com 1.173 litros, uma das maiores da categoria, e uma tomada elétrica integrada.

A sua homologação está em andamento para adaptação às condições brasileiras. A escolha do Brasil para sua estreia física reflete o peso do mercado nacional dentro da estratégia global da marca e o avanço da competição entre picapes médias, um segmento que não para de crescer e, também de receber concorrentes.

A Kia apresentou ainda uma ofensiva inédita no segmento de SUVs, com quatro novos modelos que reforçam a ideia de pluralidade energética e diversidade de soluções.

EV3

O EV3 chega como porta de entrada ao universo elétrico da Kia, mantendo linguagem de design ousada e pacote completo de recursos de segurança e conectividade.

Sportage MHEV

Totalmente renovado, o Sportage MHEV combina maior eficiência, equipamentos de segurança atualizados e interior completamente reprojetado.

Stonic MHEV

O Stonic volta ao mercado brasileiro com visual moderno, motor híbrido-leve e foco em eficiência para o trânsito urbano.

Sorento 4×4 diesel

O tradicional SUV de sete lugares retorna com motor diesel de nova geração, mais torque, refinamento e robustez.

Com esse conjunto, a Kia reforça seu domínio no segmento que mais cresce no Brasil ao oferecer elétricos, híbridos e diesel numa mesma estratégia integrada.

K4 hatch e sedã

A nova dupla K4 — hatch e sedã — deve chegar ao mercado no primeiro semestre de 2026 como representantes de uma fase mais tecnológica e sofisticada da marca no segmento de carros médios.

Ambos trazem: motor 1.6 turbo de 193 cv, pacote tecnológico avançado, dupla tela panorâmica e versão única GT-Line.

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Agrale estreia novos ônibus elétricos com os chassis MT 17.0 LEe e MT 27.0 LEe

A Agrale deu um passo para garantir espaço entre as fabricantes latino-americanas que oferecem soluções completas em ônibus elétricos. Em parceria com a britânica Equipmake, a montadora gaúcha apresentou dois novos chassis de propulsão 100% elétrica: MT 17.0 LEe e MT 27.0 LEe.

Segundo o E-Bus Radar, que monitora a frota de ônibus eletrificado na América Latina, já são 7.340 ônibus elétricos, a maioria padrão 100% a bateria; e no Brasil, já estão 1.335 unidades. Os dados foram atualizados até setembro de 2025.

 

MT 17.0 LEe

O destaque da nova linha é o MT 17.0 LEe, um chassi de piso baixo e entrada facilitada (Low Entry), desenhado para operações urbanas de média e alta demanda — exatamente o tipo de aplicação onde os elétricos conquistam mais eficiência.

O modelo utiliza o sistema Zero Emission Drivetrain (ZED), tecnologia desenvolvida pela Equipmake que se tornou referência em sistemas de tração para ônibus elétricos no Reino Unido e outros mercados.

Potência e autonomia em números. O trem de força entrega:

  • 400 kW de potência máxima (544 cv)
  • 3.500 Nm de torque instantâneo
  • Bateria de 318 kWh
  • Autonomia entre 240 e 300 km
  • Recarga completa em cerca de 4 horas via CCS Combo 2
  • PBT técnico de 17 toneladas

Com autonomia suficiente para cumprir a jornada diária sem recargas intermediárias, o MT 17.0 LEe foi projetado para recarga noturna no pátio, reduzindo custos operacionais e facilitando a adaptação das garagens. Capacidade estimada: aproximadamente 75 passageiros, dependendo do encarroçamento.

O modelo já começou a ser implantado na Argentina, onde iniciou testes com a operadora DOTA S.A. — o maior operador da capital Buenos Aires — e integra o plano da cidade para reduzir emissões até 2030. O Grupo DOTA S.A. também conta com a encarroçadora TodoBus S.A, responsável pelas carrocerias dos modelos.

MT 27.0 LEe: o articulado elétrico para corredores e BRT

Se o MT 17.0 LEe atende ao ônibus padrão de 12 metros, o novo MT 27.0 LEe mira um patamar superior de demanda: o transporte de altíssima capacidade. Trata-se da versão eletrificada do inédito chassi articulado da Agrale. Seu projeto contempla:

  • Comprimento de até 18 metros
  • PBT de até 27 toneladas
  • Capacidade para mais de 135 passageiros (dependendo do projeto da carroceria)
  • Sistema de propulsão baseado em uma variante mais robusta do trem de força ZED

A eletrificação de um articulado é um desafio técnico — maior peso, maior consumo, rotas longas e contínuas. A Agrale aposta na integração com baterias de maior capacidade e sistemas de gerenciamento térmico de última geração para garantir eficiência nas operações de BRT e corredores expressos.

Diferença essencial entre os modelos:

  • MT 17.0 LEe: solução elétrica para linhas tradicionais e corredores de média demanda.
  • MT 27.0 LEe: resposta zero emissão para sistemas de transporte de massa em grandes cidades.

Onde são produzidos os novos elétricos da Agrale

O projeto é um caso exemplar de cooperação industrial entre Brasil, Argentina e Reino Unido:

Componente Local
Chassi MT 17.0 LE (base) Agrale do Brasil — Caxias do Sul (RS)
Sistema de propulsão ZED Equipmake — Reino Unido
Eletrificação e montagem final Agrale Argentina — Mercedes (Província de Buenos Aires)

O MT 17.0 LEe se tornou o primeiro ônibus elétrico fabricado localmente na Argentina, ampliando a competitividade regional frente aos modelos importados da China.

Entregas na Argentina

Agrale
Os novos ônibus Agrale no sistema TramBus

A Agrale iniciou a entrega dos primeiros ônibus elétricos MT 17.0 LEe em Buenos Aires, marcando o lançamento do Sistema TramBus, o novo modelo de mobilidade sustentável da capital argentina. A licitação total prevê o fornecimento de 82 ônibus elétricos, sendo 60 unidades do modelo MT 17.0 LEe e 22 unidades do modelo articulado MT 27.0 LEe (capacidade para 135 pessoas).  Eles somam aos 12 micro-ônibus elétricos já fornecidos para rotas culturais e do centro histórico da cidade.

Disponibilidade para o mercado brasileiro

Apesar de dominarem o noticiário latino-americano, especialmente com a adoção em Buenos Aires, os modelos elétricos ainda não foram incorporados ao portfólio da empresa no Brasil.

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O que a John Deere foi fazer no Salão do Automóvel?

O Salão do Automóvel voltou ao cenário paulistano renovado e mais diverso do que nunca. Retomou o papel de vitrine de lançamentos e protótipos, deixou de ser dominado apenas pelas marcas tradicionais e abriu espaço para o protagonismo das asiáticas — especialmente as chinesas. Teve até um pouco de Salão Duas Rodas e um toque de Agrishow na mistura. E foi justamente nesse novo palco ampliado que a John Deere fez sua estreia: pela primeira vez, a gigante global apresentou ao público de veículos leves duas máquinas que conectam o universo automotivo ao da construção e da agricultura.

De 22 a 30 de novembro, no Distrito Anhembi, a empresa — reconhecida mundialmente por unir força mecânica, inteligência embarcada e alta durabilidade — marcou presença como a única fabricante de máquinas pesadas do evento. A participação foi conduzida pela Terraverde Máquinas, um dos nove distribuidores dedicados à linha de construção no país, parte de uma rede que supera 100 pontos de venda.

Pá-carregadeira 624 P

O destaque do estande é a pá-carregadeira 624 P. Ela conta com telemetria avançada e adaptação ao uso de biocombustíveis, sendo aproxima a experiência do operador à de veículos modernos.

A máquina incorpora o John Deere Operations Center™, plataforma que reúne dados completos de operação. Consumo, produtividade, localização, alertas e parâmetros de manutenção são transmitidos automaticamente por telemetria, permitindo ao gestor acompanhar o equipamento à distância e tomar decisões rápidas, algo que já é rotina na gestão de frotas de veículos comerciais.

Entre outros diferenciais estão a balança de carga opcional, que registra o peso transportado — tecnologia muito desejada em caminhões e implementos rodoviários; o sistema de refrigeração QuadCool, que aumenta a durabilidade dos componentes; e o pacote de iluminação integral em LED, que melhora a visibilidade com menor consumo de energia.

A performance fica a cargo do motor PowerTech Plus 6068H, que entrega 141 kW (189 hp) e torque de 804 Nm, trabalhando em conjunto com a transmissão PowerShift, que ajusta automaticamente as marchas conforme a demanda.

Trator 7M

Outro ponto foi o trator 7230M equipado com motor de 6,8 litros. Assim como a pá-carregadeira, o 7230M está preparado para trabalhar com misturas elevadas de biodiesel, fortalecendo a estratégia da companhia de impulsionar o uso de energias renováveis.

As transmissões AutoQuad e CommandQuad — gerenciadas pelo Efficiency Manager — controlam automaticamente as rotações para manter velocidade estável e reduzir o consumo. Ele também conta com a integração ao John Deere Operations Center.

Biocombustíveis: pilar da estratégia global

Uma das mensagens centrais da John Deere no Salão foi o compromisso com a sustentabilidade. A empresa já produz máquinas compatíveis com misturas mais altas de biodiesel e avança no desenvolvimento de equipamentos preparados para operar com B100, o biodiesel puro — solução já oferecida pelos principais fabricantes de caminhões.

A adoção crescente dos biocombustíveis não é apenas ambiental — é também econômica. A utilização de combustível renovável reduz emissões e amplia a previsibilidade de custos em setores que dependem fortemente de diesel fóssil, inclusive, de importação de petróleo.

Esse avanço está alinhado à estratégia global da John Deere, que engloba alternativas como biocombustíveis, eletrificação, sistemas híbridos e motores de combustão cada vez mais eficientes. O foco é entregar máquinas preparadas para diferentes matrizes energéticas, acompanhando a evolução do setor”, afirma Thomás Spana, gerente de Marketing da divisão de Construção para a América Latina.

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A óbvia decepção da COP30: A verdade inconveniente da transição energética: a tecnologia existe, o uso não.

A psicanálise, criada por Freud e aprofundada por Lacan, talvez não tenha previsto debates climáticos, mas deixou um legado útil: aprender a administrar expectativas. A COP30, ao encerrar-se sem um roteiro definitivo para o fim dos combustíveis fósseis, frustrou muitos, segundo o jornal “Estadão” e não só ele — mas somente os mal informados.

Quem esperava um plano mágico, consensual e imediato para substituir o petróleo vive de expectativas altruístas, porém irreais. Já quem acompanha de perto o tema sabe: o que existe hoje é um roteiro parcial, construído passo a passo, com avanços em camadas e limitações técnicas, econômicas e políticas.

Na Frota News, essa ambiguidade faz parte da pauta diária. Quantos executivos de construtores de caminhões já me falaram sobre verdades sobre o futuro do setor? Há também os que foram humildes. O gostoso no jornalismo é registrar a história. É assistir executivos de empresas como os da Mercedes-Benz, Volvo, Scania, Volvo, entre outras, assumirem que erraram. E isso é ótimo. Erra é humano e CEO de empresa não é imune a erros.

A editoria Frota Sustentável publicou mais de 170 reportagens nos últimos dois anos, com casos de sucesso e fracasso, análises técnicas e exemplos concretos — um verdadeiro banco de benchmarking sobre o que funciona (e o que não funciona) na transição energética no transporte.

A transição começa onde menos se imagina: na bomba de combustível

O Brasil tem uma peculiaridade que a maioria dos países desenvolvidos invejaria: uma frota de 40 milhões de automóveis flex, que representam 77% dos veículos em circulação. Na teoria, é aqui que a transição energética deveria começar com mais força. Na prática, não começou.

A reportagem do Motor1 UOL mostrou que, em 2023, os brasileiros consumiram:

  • 18,1 bilhões de litros de etanol hidratado (E100) — apenas 21% do total para motores ciclo Otto;
  • 46,5 bilhões de litros de gasolina C — nada menos que 79% do consumo.

Ou seja: antes de cobrar da COP30 um roadmap para o pós-petróleo, seria razoável cobrar dos próprios motoristas o uso da tecnologia que já possuem. A decisão sobre o fim dos combustíveis fósseis começa, silenciosamente, quando o frentista pergunta: Gasolina ou etanol?

A transição energética está longe dos fóruns globais, uma desconexão entre realidade e política. Ela está, metaforicamente, no visor da bomba.

Petróleo: o vilão que também ergueu o mundo moderno

Criticar o petróleo é fácil — ele polui, alimenta guerras e sustenta assimetrias econômicas globais. Mas a história é mais complexa: foi o combustível fóssil que possibilitou avanços logísticos, de mobilidade e de acesso a bens que moldaram a civilização contemporânea. Hoje, há alternativas mais limpas, mas construir soluções é infinitamente mais difícil do que apontar culpados.

Empresas brasileiras vêm atuando fortemente nessa agenda, e os casos mais relevantes estão registrados na Frota Sustentável. Entre eles, companhias que estabeleceram política rígida: carros corporativos flex só serão reembolsados se abastecidos com etanol. O motorista pode usar gasolina? Pode. Mas aí arca com o custo. Não se trata de marketing, e muito menos de greenwashing. É política corporativa aplicada.

Caminhões elétricos: realidade, exceção e preços que ainda desafiam

Se nos automóveis o entrave é cultural, nos caminhões o obstáculo é econômico e estrutural. A eletrificação avança, mas em velocidade menor do que o discurso sugere.

O caminhão elétrico mais vendido no Brasil não lidera por desempenho tecnológico, mas por preço: o JAC iEV 1200, importado da China, custa cerca de R$ 509 mil — praticamente metade do valor de modelos equivalentes no mercado. Já foram emplacadas quase 3 mil unidades.

Do outro lado, o Volkswagen e-Delivery, desenvolvido pela engenharia brasileira, ainda não alcançou 1 mil unidades vendidas desde o lançamento. O preço é o maior obstáculo: R$ 843 mil, refletindo o que o setor chama de “Custo Brasil”.

Grandes frotistas, como Coca-Cola Femsa e Ambev, reduziram o ritmo de aquisição de elétricos por falta de infraestrutura para carregamento. A disparidade internacional é clara:

  • Amazon EUA: 31 mil vans elétricas;
  • Amazon Europa: 5 mil;
  • Amazon Brasil: menos de 100.

Saiba mais:

Gás e biometano: o elo intermediário que ganha força

Na corrida da transição, o gás natural e o biometano desempenham papel estratégico — especialmente no transporte pesado. Na Europa, a Iveco lidera o segmento, mas no Brasil foi a Scania quem assumiu a dianteira, tornando-se a pioneira e única fabricante com produção local de caminhões a gás.

A Iveco anunciou os modelos S-Way NG e Tector NG na última Fenatran, mas ainda não há desdobramentos. Quem surpreendeu foi a Mercedes-Benz, que por anos tratou o gás como etapa transitória antes do hidrogênio. A montadora revisou sua leitura: essa etapa pode durar décadas, especialmente num país onde muitos transportadores lutam para comprar um caminhão Euro 6 a diesel.

E os números confirmam o cenário: o mercado de veículos Euro 6 caiu 8% em 2025, reflexo do custo elevado e da dificuldade de acesso ao financiamento. Se gigantes como o Mercado Livre têm limites orçamentários para adquirir elétricos, o que esperar dos pequenos e médios transportadores?

A eletrificação de veículos é uma tecnologia. A adoção dessa tecnologia tem a ver com economia. Cresce a adoção de ônibus urbanos elétricos por razões econômicas. Os prefeitos que adotam ônibus elétricos em suas frotas fazem isso porque o dinheiro que vai pagar a conta por décadas é do contribuinte. As empresas no setor de carga que compram veículos elétricos fazem isso porque tem alguém pagando a conta. A Reiter Log, por exemplo, investe em veículos pesados elétricos, mas quem paga a conta, sem saber, é o cliente da Nivea que comprou um hidratante com o custo embutidos.

Outro exemplo, o consumidor compra um item no Mercado Livre e lá tem o preço do produto, que pode ser frete grátis (para quem acredita em almoço grátis) ou coloca um valor do frete. Agora, imagine se o Mercado Livre colocasse para o cliente que o frete com veículo a diesel é R$ 10 e com veículo elétrico é R$ 15? Qual seria a opção do cliente? Lógico que o mercado livre não faria isso, pois eles têm certeza que a opção seria a mesma dos 79% proprietários de automóveis flex têm.

Dados segundo a Anfavea

Segundo a Anfavea (associação das montadoras), o Brasil registra apenas 0,8% das vendas de veículos pesados elétricos. Essa estatística da Anfavea tem falhas. Na estatística dela, ela mistura ônibus com caminhão, como misturar comprador de arroz do Mercado Livre com passageiro de ônibus. A Anfavea erra, mas poderá melhorar. Informar em suas estatísticas — aliás, a Carta da Anfavea é muito rica de dados para jornalistas — dados de veículos pesados de passageiros e carga misturados. Não poderia fazer isso. São mercados muito diferentes e os fatos mostram isso. Nada que não possa ser corrido.

A eletrificação de veículos deve ser analisada em cada segmento. No de automóveis, não há análise de TOC, apenas de desejo. Em ônibus urbanos, há dinheiro de financiamento público para ser pago pelas próximas gerações; e de carga e passageiro é o consumidor final. Mas ainda há diferenças. A L’Oréal que mais investe em logística sustentável e tem uma lógica sustentável não diz para o cliente a verdade: a mulher vai na farmácia e compra um shampoo e não questiona o custo do frete daquele shampoo.

O Mercado Livre tem mais de 1.300 veículos elétricos, todos financiados pelos clientes dele. Isso é como funciona a economia. Vamos perguntar um exemplo que não funcionou, o do Grupo JCA, que testou um ônibus movido a biometano da Scania. Não houve críticas a tecnologia, mas a conta não fechou. Um diretor da JCA confessou isso para mim. A esposa dela tem um Volvo híbrido, mas ele nunca apresentou um planilha de TCO para a esposa. Mas para os chefes dele, ele precisa apresentar planilhas de TCO. Isso explica porque a transição energética funciona melhor em automóveis de passeio e não funciona em veículos comerciais. Pelo menos, até 2025.

A Frota News está acompanhando várias empresas que estão testando veículos com redução de emissões, como caminhões elétricos, a gás ou a hidrogênio. Mas quando a conversa chega no tema do TCO, ninguém é transparente. Pelos 170 artigos publicados, os melhores cases são de caminhões a gás no Brasil.

Já publicamos artigos sobre o fracasso de caminhões elétricos no mundo, incluindo Estados Unidos e Europa. Algumas marcas chinesas de caminhões estão lançando caminhões elétricos no Brasil. A JAC Motors do Brasil é um case de sucesso, mas só ela. Outra marca é a XCMG, da China. Perguntamos para a assessoria de imprensa deles quantas unidades foram vendidos? Responderam que não podem passar esta informação, como ela não fosse pública. Quando uma empresa não é transparente com jornalistas, obviamente, ela não é transparente com ninguém.

Quem paga a conta?

Um exemplo emblemático do porque a transição energética do transporte de carga é difícil: um Volvo FM diesel custa cerca de R$ 1 milhão. O mesmo modelo elétrico parte de R$ 3,5 milhões. A PepsiCo testou, elogiou — e não comprou. A agenda ESG é importante, mas não pode ser inviável. Toda a posta da PepsiCo está sendo nos caminhões a gás da Scania.

A transição energética não é um evento — é um processo

A conclusão é simples, mas exige honestidade intelectual: a transição energética não será decretada por uma COP, tampouco por um discurso ou por um anúncio corporativo. Ela será construída gradualmente, com tecnologia, educação do consumidor, incentivos econômicos, infraestrutura e políticas públicas consistentes.

É um movimento step-by-step, exatamente como ensinam Freud e Lacan: entre o desejo e o real, existe o campo do possível.

E é nesse campo que o setor de transporte brasileiro — com seus desafios e seus avanços concretos — tem muito a ensinar ao mundo.

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O líder de vendas do Brasil x o dos Estados Unidos — e como o PIB explica tudo

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As picapes são as preferidas dos consumidores brasileiros e dos norte-americanos. O que diferencia é o modelo preferido (ou possível) no Hemisfério Sul e no Hemisfério Norte. Agora, vamos conhecer em mais detalhes as diferenças entre essas lideranças de mercado — diferenças que dizem tanto sobre os veículos quanto sobre os países onde eles circulam.

Vale ressaltar que não se trata de um comparativo entre marcas ou grupos — não é Ford contra Stellantis. A questão é bem mais profunda: é sobre o que cada montadora consegue entregar dentro da realidade econômica em que está inserida. E objetivo é mostrar os números dessas economias que refletem nas fichas técnicas dos veículos.

Nos Estados Unidos, um país com PIB estimado em US$ 30,5 trilhões (cerca de R$ 162,5 trilhões), há espaço para produtos maiores, mais potentes e tecnologicamente sofisticados, porque a renda per capita sustenta esse nível de consumo. Já no Brasil, com um PIB de R$ 9,4 trilhões, segundo a Fundação Getúlio Vargas, a lógica é outra: o mercado demanda eficiência, acessibilidade e versatilidade. Assim, as picapes líderes de cada país são, antes de tudo, reflexo fiel da economia que as sustenta.

Quando observamos a lista dos carros mais vendidos de 2025, a impressão é a de que Brasil e Estados Unidos vivem em planetas distintos. Lá, no norte, a Ford F-Series mantém sua hegemonia quase mítica, acumulando perto de 600 mil unidades vendidas até o terceiro trimestre. Aqui, abaixo da linha do Equador, a Fiat Strada reafirma sua popularidade com mais de 115 mil unidades no mesmo período graça às compras de frotas corporativas. As duas são picapes. Ambas são líderes. E, fora isso, nada mais é realmente parecido.

picapes
Podemos explicar o interior dessas picapes de diversas formas, uma delas é pela renda per capita dos clientes. A renda per capita nominal dos Estados Unidos é de aproximadamente R$ 373.424 por ano, um valor cerca de sete vezes maior que a renda per capita nominal do Brasil, que é de aproximadamente R$ 53.564 por ano (ambos os dados de 2024, convertidos a R$ 5,60/USD)

A F-150 — modelo que representa a maior parte das vendas da linha F-Series — é um colosso que nasceu para trabalhar pesado em um país feito de distâncias longas e estradas largas. Seus motores soam como hinos à abundância: o 5.0 V8 Coyote, o 3.5 EcoBoost híbrido, e o radical 5.2 V8 supercharged da Raptor R. São números que beiram o exagero, mas que fazem sentido onde rebocar barcos, trailers, máquinas agrícolas ou casas móveis é quase cotidiano. Em algumas regiões dos Estados Unidos, a F-150 não é apenas um veículo: é um kit de sobrevivência.

A poucos fusos horários de distância — mas em uma cultura automotiva completamente diferente — a Fiat Strada segue fiel ao princípio da praticidade. Com motores de 107 cv no 1.3 Firefly ou 130 cv no 1.0 turbo, ela não tenta impressionar pela potência. Sua missão é outra: ser econômica, resistente e suficientemente versátil para o pequeno empresário, o produtor agrícola, a frota urbana de entregas e a família que precisa conciliar orçamento apertado com funcionalidade. Enquanto a F-150 ostenta mais de 6 toneladas de capacidade de reboque, a Strada celebra seus 720 kg de carga útil, muito adequados à rotina brasileira.

Preços e tecnologias

Essa disparidade também se reflete no preço — talvez o ponto que melhor sintetize a diferença entre os hemisférios. Nos Estados Unidos, uma F-150 de entrada custa cerca de US$ 38 mil, perfeitamente compatível com a renda e o estilo de vida médio da classe trabalhadora. No Brasil, a Strada já parte de R$ 104 mil, número que exige esforço financeiro considerável de muitos compradores. E quando a própria F-150 desembarca no mercado brasileiro, ela assume de vez o papel de artigo de luxo: R$ 560 mil ou mais, dependendo da configuração.

Tecnologicamente, a comparação segue o mesmo roteiro. A F-150 oferece telas de 12 polegadas, câmeras 360 graus, piloto automático adaptativo, modos eletrônicos de reboque e até tomadas externas capazes de alimentar ferramentas — um recurso que transforma a picape em uma minioficina. Já a Strada se mantém na filosofia do essencial bem feito: central multimídia compacta, assistentes de segurança suficientes para o trânsito brasileiro e um conjunto construtivo pensado para durar mais do que impressionar.

No fim das contas, colocar as duas no mesmo campo de disputa seria como comparar uma locomotiva com uma bicicleta elétrica. Ambas movem pessoas e cargas, mas respondem a demandas completamente diferentes. A F-Series traduz o exagero funcional e cultural dos Estados Unidos, um país que pensa grande porque vive grande. A Strada traduz a habilidade brasileira de extrair o máximo de um pacote compacto, econômico e adaptado à realidade desafiadora das nossas ruas.

Cada uma lidera porque cada uma entrega exatamente o que seu país precisa ou pode — e talvez seja justamente por isso que ambas são campeãs absolutas.

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Campanha “Volare Me Leva” garante mais de 25% das vendas da Volare

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A Volare, marca da Marcopolo especializada em micro-ônibus, segue ampliando sua vantagem competitiva no mercado brasileiro. Somente entre janeiro e outubro de 2025, a fabricante produziu 2.718 unidades, segundo dados da Fabus (associação desta indústria), reafirmando sua posição como a maior produtora nacional desse tipo de veículo.

Parte desse desempenho é atribuída à campanha promocional “Volare Me Leva”, iniciativa que vem se firmando como um pilar estratégico para a marca ao aproximar clientes, fortalecer a rede de concessionários e impulsionar vendas em todas as regiões do país.

Realizada entre janeiro e agosto deste ano, a 4ª edição da campanha reuniu 84 empresas brasileiras e apresentou números contundentes: mais de 700 veículos comercializados ao longo do período e 117 unidades vendidas em um único evento.

Segundo Sidnei Vargas, gerente executivo da Volare, o segredo do sucesso está na proximidade.

Um dos principais diferenciais da Volare é estar sempre próxima dos clientes e dos nossos concessionários, estreitando e fortalecendo o relacionamento. Assim conseguimos entender as dores, desejos e necessidades de quem faz parte do universo da marca. É por isso que, a cada ano, a campanha ‘Volare Me Leva’ supera as nossas expectativas e contribui para consolidar nossa liderança no setor”, afirma o executivo.

Como reconhecimento pelo desempenho ao longo da campanha, os participantes mais bem colocados foram premiados com uma experiência exclusiva: uma viagem ao resort em Porto de Galinhas (PE), realizada entre 6 e 9 de novembro. O encontro reuniu mais de 230 convidados, proporcionando momentos de integração, networking e celebração pelos resultados obtidos.

A “Volare Me Leva” já se consolidou como uma das principais estratégias da marca para fortalecer laços com parceiros comerciais, estimular o crescimento das vendas e promover experiências diferenciadas. Ao unir aproximação, inovação e relacionamento, a Volare reforça seu propósito de desenvolver soluções alinhadas às necessidades reais do mercado e manter sua trajetória de liderança no setor de micro-ônibus.

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Amazon aumenta entregas com veículos elétricos no Brasil, Europa e nos Estados Unidos

A Amazon Brasil, em parceria com a brasileira To Do Green fez a expansão para 29 estações de entrega equipadas com tecnologia proprietária da Amazon, agora atendendo mais de 180 cidades em São Paulo e Minas Gerais.

A iniciativa faz parte de um movimento global do grupo, logicamente, com os maiores números em seu país de origem. Nos Estados Unidos, a Amazon já opera uma frota de 31 mil vans elétricas. Na Europa, a empresa já conta com mais de 5 mil unidades dos modelos eSprinter e eVito.

Amazon
Furgões BYD eT3 elétricos que tiveram a importação descontinuada pela BYD Brasil

No Brasil, a solução para problemas infraestruturas são prioritários antes de pensar em volumes tão alto da frota eletrificada. Nesse segmento de e-commerce, a maior frota de veículos elétricos atualmente trabalha para o Mercado Livre, com cerca de 1.300 furgões.

A estratégia de eletrificação no Brasil segue os padrões já adotados nos Estados Unidos, onde a Amazon opera a maior frota corporativa de vans elétricas do país. Para suportar esse volume, a companhia instalou mais de 32 mil carregadores em mais de 180 centros de distribuição, criando a maior infraestrutura privada de recarga para entregas do mundo.

Teste com outros tipos de veículos

Além disso, encomendou 100 mil vans elétricas personalizadas da Rivian, que já circulam em várias regiões americanas. A empresa também testa mais de 15 modelos diferentes de modais elétricos, incluindo bicicletas de carga, triciclos elétricos e veículos compactos — soluções que devem inspirar futuros movimentos no Brasil, especialmente em centros urbanos densos.

Amazon
Modelos de furgões Rivian utilizados pela Amazon nos Estados Unidos

O compromisso se estende à Europa, onde a Amazon anunciou um investimento superior a 1 bilhão de euros em cinco anos para eletrificar a rede de transporte e acelerar a instalação de infraestrutura pública de recarga.

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Lecar adia produção para 2027, reforça ambição industrial e planos de vendas planejados

Diante das especulações que circulam nas redes sociais, o fundador e CEO da Lecar, Flávio Figueiredo de Assis, aproveitou a presença de dezenas de jornalistas nas coletivas do Salão do Automóvel de São Paulo para atualizar as informações sobre a implantação da primeira fábrica brasileira de veículos híbridos flex, prevista para Sooretama (ES).

Ele reconheceu que é natural existir ceticismo diante do projeto, afirmando que muitos duvidam que um empreendedor brasileiro possa criar uma montadora 100% nacional — especialmente após várias tentativas frustradas no passado, em um setor dominado por gigantes globais.

Durante o evento, Assis confirmou que o cronograma industrial sofreu ajustes. A produção dos primeiros modelos, o SUV 459 e a picape Campo, antes prevista para agosto de 2026, foi adiada para o segundo semestre de 2027.

A mudança é consequência direta do calendário de obras da fábrica, cuja construção está programada para começar apenas no primeiro trimestre de 2026.

“É uma montadora em fase de desenvolvimento e temos longa jornada pela frente para criar ambiente e tornar o carro viável”, afirmou o executivo.

Fábrica ainda no papel, mas com apoio político e estratégico

O projeto industrial apresentado pela empresa no Salão — atualmente em forma de maquete virtual — destaca os fatores que levaram à escolha de Sooretama (ES), entre eles: 38 km da WEG, fornecedora dos componentes elétricos e onde são produzidos mais de 50 mil motores por ano; incentivos fiscais da SUDENE; acesso facilitado a portos e pontos estratégicos de exportação.

O prefeito da cidade, Fernando Camiletti, esteve presente na apresentação e reiterou o apoio do município ao empreendimento. A cidade de Sooretama foi fundada em 1994 — antes era um distrito de Linhas — e conta com uma população de quase 29 mil habitantes. Segundo o prefeito, 50% do município é considerado reserva da Mata Atlântica, e os 90% restantes são propriedades rurais. A economia principal vem da atividade cafeeira e outras da agricultura e pecuária, além da agroindústria.

A Lecar projeta uma capacidade anual de 120 mil veículos e a criação de 1.300 empregos diretos e indiretos, caso o plano se concretize. Esses números significam uma capacidade projetada. No entanto, a produção inicial pode começar em poucas mil unidades e depois pode crescer conforme o projeto vai ficando mais maduro, processo conhecido com o jargão “ramp-up de produção”.

Protótipos estáticos chamam atenção no estande

No Salão, a marca exibiu os modelos 459 e Campo em forma de protótipos não funcionais — mockups construídos em isopor e compensado. Havia expectativas de ter, pelo menos, uma unidade do 459 real, mas também adiada.

O chassi que representa o sistema de propulsão também foi exibido separadamente, reforçando que a empresa ainda está na fase inicial de engenharia e validação.

Tecnologia híbrida flex promete autonomia de 1.000 km

Um dos pilares da estratégia da Lecar é o sistema híbrido-flex com extensor de autonomia (range extender), já utilizado em outros modelos, como o recém-lançado Leapmotor C10, a nova marca chinesa do grupo Stellantis, também apresentado no Salão.

Nesse conjunto, o motor a combustão funciona apenas para gerar eletricidade, sem tracionar diretamente as rodas.

Principais características anunciadas:

  • Motor 1.0 turbo flex HR10DDT — da Horse, joint venture Renault–Geely (o mesmo do Renault Kardian). Este motor também já é utilizado pela Marcopolo em seus modelos de ônibus híbridos, como o Volare Attack 9 Híbrido apresentado na Lat.Bus 2024, e em outro protótipo maior mostrado na COP30. Este motor funciona somente como gerador de energia para alimentar as baterias.
  • Motor elétrico e inversor fornecidos pela WEG.
  • Potência: 165 cv
  • Torque: 26,3 kgfm
  • Autonomia estimada: até 1.000 km com etanol, sem necessidade de recarga externa.

Vendas antecipadas e expansão comercial

Lecar
Rodrigo Rumi, VP de Marketing e Inovação da Lecar

Mesmo sem um veículo funcional, a Lecar mantém sua estratégia agressiva de comercialização. A empresa oferece os modelos em um sistema de compra programada, com parcelas a partir de R$ 2.212,50 e prazos de 48, 60 ou 72 meses sem juros, explicou Rodrigo Rumi, vice-presidente de Marketing e Inovação da Lecar. A picape Campo foi anunciada em pré-venda por R$ 159.300.

No plano de expansão, a empresa mira uma rede de 150 pontos de venda até o fim de 2026, com forte integração de lojistas de seminovos. Segundo a marca, cinco grupos já estariam aptos a operar a partir de dezembro de 2025.

Tático: o “Troller melhorado”

A surpresa da Lecar no Salão foi o conceito Tático, um SUV com apelo off-road que a empresa posiciona como uma alternativa mais refinada ao extinto Troller. A proposta é combinar robustez, tração 4×4 e o sistema híbrido flex. O projeto foi apresentado apenas com por meio de fotos criadas por computação gráfica.

Entre dúvidas e expectativas, um caminho ainda em construção

A Lecar segue desafiando o ceticismo natural que acompanha qualquer novo projeto automotivo nacional. Embora ainda esteja na fase de maquetes virtuais e protótipos estáticos, a empresa demonstra ambição, articulação estratégica e capacidade de atrair parceiros relevantes para sua proposta de veículos híbridos flex.

Os próximos anos serão decisivos para que a marca transforme planos em produto, mas o interesse gerado no Salão do Automóvel e a transparência sobre os desafios indicam que a Lecar está disposta a trilhar um caminho constante. Caso consiga cumprir o cronograma industrial e validar sua tecnologia, poderá abrir uma nova página para a indústria automotiva brasileira — algo que só o tempo, e a evolução do projeto, serão capazes de confirmar.

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Salão do Automóvel x Fenatran: os principais números das duas feiras sobre mobilidade com propostas distintas

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Durante as coletivas de imprensa do Salão do Automóvel 2025, uma pergunta voltou a a ser feita a mim por colegas de profissão especializados em automóveis: “E a Fenatran? Como comparar as duas feiras?” A dúvida é compreensível — ambos os eventos são promovidos pela RX em parceria com a Anfavea e têm os fabricantes de veículos como protagonistas. Mas, depois desse ponto, as similaridades praticamente terminam.

Antes de tudo, é importante frisar: colocar Salão do Automóvel e Fenatran em comparação competitiva para saber qual é melhor não faz sentido, mas as pessoas fazem… Este comparativo serve apenas para entender o papel de cada evento — ou, no máximo, por curiosidade. Afinal, são feiras criadas para públicos, objetivos e dinâmicas completamente diferentes.

O Salão do Automóvel é um evento B2C, voltado ao consumidor final, com forte apelo de imagem, tendência e entretenimento. Já a Fenatran é B2B, focada em negócios de alto volume e decisões estratégicas que impactam toda a cadeia logística do país.

A seguir, os principais pontos que diferenciam as duas feiras:

Salão do Automóvel x Fenatran — principais diferenças

Ponto Salão do Automóvel Fenatran
Objetivo Imagem e entretenimento Imagem e geração de negócios
Ingressos (valores da edição 2025) Venda de R$ 63 a R$ 81 Gratuito por credenciamento, com foco em geração de leads
Modelo (B2C x B2B) Venda de ingressos, estacionamento e alimentação Venda de caminhões, implementos, insumos e serviços para transporte e logística
Faturamento estimado das últimas edições – sem contar venda de espaço e patrocínios R$ 45 milhões (principalmente com ingressos), já que não há venda de veículos durante o evento R$ 15 bilhões (em vendas de caminhões, implementos e serviços)
Público nas últimas edições 745 mil visitantes 74 mil compradores
Idade mínima Sem restrição 14 anos
Número de expositores Menos de 60 Mais de 600
Área ocupada Mais de 64 mil m² Menos de 100 mil m²

Eventos com vocações distintas

O comparativo reforça apenas a singularidade de cada feira. O Salão do Automóvel é, historicamente, uma vitrine de carros — um espaço onde o público vive experiências, descobre tendências e se aproxima emocionalmente das marcas.

Salão do Automóvel
Fotos das edições anteriores da Fenatran e Salão do Automóvel

A Fenatran, por sua vez, é a principal feira de negócios do transporte rodoviário de cargas na América Latina. É onde empresas fecham contratos, renovam frotas, encontram soluções em implementos rodoviários, conectividade, pneus, peças, serviços, e discutem os rumos da logística brasileira. Atende desde o agronegócio e a agroindústria até o e-commerce e a logística urbana.

Em comum, Salão e Fenatran só têm o fato de reunir os grandes fabricantes. Todo o restante — objetivos, público, dinâmica e impacto econômico — revela universos completamente diferentes.

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