sexta-feira, abril 3, 2026

DAF, Tatra e VDL apresentam caminhão militar 6×6 de última geração

A indústria europeia de veículos militares volta a demonstrar a força de suas parcerias estratégicas. Durante a Brussels European Defence Exhibition & Conference 2026 (BEDEX 2026), que ocorre entre 12 e 14 de março em Bruxelas, a DAF Trucks, a Tatra Trucks e o VDL Groep apresentarão um novo caminhão militar 6×6 de última geração.

O modelo é resultado da cooperação industrial entre as três empresas no desenvolvimento, produção e suporte de veículos militares com alta capacidade de mobilidade fora de estrada. A configuração exibida no evento conta com uma carroceria militar dedicada — denominada CargoBody — desenvolvida pelo VDL Groep, projetada para suportar operações em ambientes extremos.

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A apresentação do novo veículo também reforça a parceria já consolidada entre as fabricantes. Recentemente, DAF e Tatra concluíram a entrega de mais de 900 caminhões militares ao Ministério da Defesa da Bélgica, resultado de uma importante licitação para modernização da frota logística das forças armadas do país.

Nesse programa, os caminhões rígidos 4×4 foram destinados a atividades gerais de transporte, enquanto as versões rígidas 8×8 foram configuradas para missões especiais, como transporte de contêineres em terrenos off-road. Já os cavalos-mecânicos 8×8 foram desenvolvidos para operações de resgate e recuperação de veículos durante missões militares.

Cabine blindada em destaque

O novo caminhão militar DAF apresentado no BEDEX 2026 utiliza configuração de tração 6×6, com força distribuída para todas as rodas. O modelo poderá ser equipado com cabine civil da DAF ou com cabine balística.

A versão exibida no evento utiliza a cabine blindada fornecida pela Tatra Defence Vehicle, projetada para oferecer elevado nível de proteção balística e resistência contra minas terrestres — requisito essencial para operações militares em zonas de risco.

Quando configurado com cabine civil, o veículo mantém características típicas da linha DAF, como amplo espaço interno, piso mais baixo para facilitar o acesso e maior visibilidade externa, proporcionada pela linha de cintura mais baixa das janelas.

Mobilidade off-road avançada

Um dos principais diferenciais do novo caminhão militar está na arquitetura do chassi e do sistema de tração. O modelo utiliza o tradicional chassi tubular central desenvolvido pela Tatra, combinado com suspensão independente nas rodas.

Essa solução técnica, associada ao sistema de tração integral da fabricante tcheca e ao Sistema Central de Calibragem de Pneus (CTIS), permite que o veículo adapte automaticamente a pressão dos pneus conforme o terreno.

Na prática, essa combinação proporciona alta mobilidade fora de estrada, melhor tração em solos irregulares e maior conforto para a tripulação, mesmo em ambientes operacionais extremamente desafiadores.

Rede de suporte global

Além do fornecimento do veículo, a DAF também participa do programa militar oferecendo suporte de manutenção para a frota entregue às forças armadas belgas.

Os motores utilizados no caminhão são os PACCAR MX-13, fornecidos pela própria DAF. Já o suporte técnico e logístico é realizado por meio da rede global da fabricante, que conta com mais de 1.150 concessionárias espalhadas pelo mundo.

Essa estrutura foi preparada para atender tanto a frota atualmente em operação quanto futuras entregas de veículos militares.

As três empresas também avaliam ampliar a cooperação industrial em novos mercados. De acordo com os fabricantes, estão em estudo oportunidades de produção local dos veículos em países interessados, considerando a crescente exigência dos ministérios da defesa por programas com conteúdo industrial nacional.

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Ford amplia linha Ranger XL e desafia Hilux e S10 no mercado de trabalho

A Ford Pro ampliou o portfólio da Ranger XL no Brasil e passou a oferecer novas configurações voltadas ao mercado de frotas. Antes restrita à cabine dupla com câmbio manual, que passa a contar com câmbio automático, a picape agora chega também nas versões cabine simples e chassi-cabine, ambas com opções de transmissão manual ou automática. A mudança amplia o alcance da linha e permite atender desde operações de transporte de equipes até aplicações que exigem instalação de implementos específicos. 

Ranger XL
Fotos: Marcos Villela

Segundo Guillermo Lastra, diretor da Divisão de Veículos Comerciais da Ford para a América Latina, a divisão Ford Pro comercializou mais de 6.000 unidades da Ranger em 2025, um crescimento de 71% em relação ao ano anterior. O desempenho representa 9,2% do segmento de picapes voltadas ao trabalho. Com o novo portfólio, a empresa, reforça a presença em setores como serviços, construção, agronegócio, mineração e operações de campo. 

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A nova configuração chassi-cabine é um dos destaques da expansão. Sem a caçamba instalada de fábrica, o veículo permite a instalação de baús, carrocerias metálicas e unidades de serviço, como ambulâncias, bombeiros, polícia e veículos de apoio. Nessa versão, a capacidade de carga chega a 1.371 kg com transmissão manual e 1.318 kg com câmbio automático. Já a cabine simples com caçamba oferece 1.223 kg e 1.170 kg, respectivamente. A capacidade em volume é de 1.690 litros.  

A Ranger XL utiliza a terceira geração global da arquitetura de cabine e longarinas, que recebeu reforços estruturais importantes. O chassi conta com longarinas e travessas mais altas e largas, três reforços internos e aço de alta resistência HR550LA, resultando em uma estrutura cerca de 25% mais resistente. A suspensão traseira adota feixes de mola em quatro estágios e curso 15 mm maior, enquanto os amortecedores foram posicionados externamente à longarina. Segundo a Ford, o conjunto oferece 30% mais resistência à torção, característica essencial para uso severo e terrenos irregulares. 

No comparativo apresentado pela marca, a Ranger XL aparece competitiva frente às principais rivais do segmento, como Toyota Hilux Power Pack e Chevrolet S10 WT. Os dados técnicos reforçam a proposta da picape como ferramenta de trabalho robusta e versátil. 

Ranger XK
Portfólio 2026 da Ranger XL

Indicadores técnicos

Atributo  Ranger XL  Hilux Power Pack  S10 WT 
Altura livre do solo (mm)  234,8  286  228 
Ângulo de ataque (°)  30  29  29 
Ângulo de saída (°)  26  26  22,7 
Ângulo de transposição (°)  22  24  24,4 
Inclinação lateral (°)  35  N/D  N/D 
Inclinação vertical (°)  45  N/D  N/D 
Capacidade de imersão (mm)  800  N/D  N/D 
Diferencial traseiro blocante  Sim  Sim  Não 
Capacidade de carga (kg) – cabine simples com caçamba 1.223 (MT) / 1.170 (AT)  1.005 (MT) / 1.010 (AT)  1.170 
Capacidade da caçamba (l)  1.690  1.580  1.571 

 

Além da robustez, a Ford aposta em tecnologia para diferenciar a Ranger XL no segmento de picapes de trabalho. A versão conta com Android Auto e Apple CarPlay sem fio, painel digital de 8 polegadas, central multimídia Sync 4 de 10 polegadas e atualizações remotas de software (OTA). Entre as concorrentes diretas, apenas a S10 WT oferece painel digital, mas nenhuma delas dispõe de conectividade sem fio ou atualizações via nuvem. 

Pacote tecnológico

Recurso  Ranger XL  Hilux Power Pack  S10 WT 
Android Auto/CarPlay sem fio  Sim  Não  Não 
Painel digital de 8″  Sim  Não  Sim 
Multimídia  Sync 4 de 10″  Não  MyLink de 11″ 
Atualizações Over-The-Air  Sim  Não  Não 
Ajuste de profundidade do volante  Sim  Não  Não 

 

Ranger XL
Painel e equipamentos comum as todas as configurações da Ranger XL

A estratégia de preços também foi ajustada para tornar a Ranger XL mais competitiva. Na configuração cabine dupla 4×4, a Ford posiciona a picape abaixo das principais rivais, especialmente na versão de entrada com câmbio manual. 

Preços – cabine dupla 4×4

Marca/Modelo  Versão  Transmissão  Preço (R$) 
Ford Ranger  XL 4×4  Manual (MT)  272.600 
Ford Ranger  XL 4×4  Automática (AT)  282.600 
Chevrolet S10  WT 4×4  Manual (MT)  282.990 
Toyota Hilux  STD P.P.  Manual (MT)  282.390 
Toyota Hilux  STD P.P.  Automática (AT)  292.000 
Chevrolet S10  WT 4×4  Automática (AT)  302.990 

 

Nesse cenário, a Ranger XL manual é a opção mais barata do comparativo, custando cerca de R$ 9.790 a menos que a Hilux manual. Já a versão automática tem preço muito próximo das versões manuais das concorrentes, funcionando como um “upgrade” de câmbio pelo valor de entrada das rivais. 

Na cabine simples 4×4, o posicionamento segue a mesma lógica: a Ford busca liderar em preço de entrada e usar a transmissão automática como diferencial de conforto com acréscimo contido de valor. 

Preços – cabine simples 4×4

Marca/Modelo  Versão  Transmissão  Preço (R$) 
Ford Ranger  XL 4×4  Manual (MT)  256.600 
Chevrolet S10  WT 4×4  Manual (MT)  262.990 
Toyota Hilux  STD P.P.  Manual (MT)  265.290 
Ford Ranger  XL 4×4  Automática (AT)  266.600 
Toyota Hilux  STD P.P.  Automática (AT)  275.290 

 

A Ranger XL cabine simples manual é a opção mais barata do mercado em sua categoria, com diferença de R$ 6.390 em relação à S10 e R$ 8.690 em relação à Hilux manual. A versão automática custa apenas R$ 1.310 a mais que a Hilux manual, reforçando a estratégia de oferecer câmbio AT por um valor muito próximo das versões básicas da concorrência. 

Na configuração chassi-cabine 4×4, voltada a implementações, a Ford repete a fórmula e mantém a Ranger XL como a opção mais acessível do grupo. 

Preços – chassi-cabine 4×4

Marca/Modelo  Versão  Transmissão  Preço (R$) 
Ford Ranger  XL 4×4  Manual (MT)  248.600 
Chevrolet S10  WT 4×4  Manual (MT)  252.990
Toyota Hilux  STD P.P.  Manual (MT)  256.390 
Ford Ranger  XL 4×4  Automática (AT)  258.600 
Toyota Hilux  STD P.P.  Automática (AT)  266.390 

A Ranger XL chassi manual é a opção mais acessível, custando R$ 4.390 a menos que a S10 e R$ 7.790 a menos que a Hilux equivalente. Em todas as configurações, o upgrade para o câmbio automático na Ranger custa R$ 10.000, o que simplifica a lógica de preços para frotistas e gestores de frota. 

Motor Panther 

A motorização também foi desenvolvida com foco no uso profissional. A Ranger XL utiliza o motor 2.0 turbodiesel Panther, conhecido globalmente como EcoBlue. O quatro-cilindros de 1.995 cm³ entrega 170 cv a 3.500 rpm e 405 Nm de torque a 2.000 rpm, com platô entre 1.750 e 2.500 rpm — faixa para operações com carga, subidas e pisos de baixa aderência. A taxa de compressão de 16,5:1 e o sistema common-rail de alta pressão contribuem para eficiência térmica, menor ruído e emissões reduzidas. 

O motor pode ser combinado com câmbio manual ou automático de seis marchas, sempre com tração 4×4. A calibração privilegia o uso em rotações mais baixas, reduzindo vibração e consumo em velocidade de cruzeiro. Em condições reais, configurações semelhantes registram médias de 10 a 11 km/l em ciclo misto, dependendo do peso transportado e do tipo de cabine. 

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Nova tecnologia de eixos da Tatra Trucks aumenta torque e reduz desgaste do trem de força

A Tatra Trucks é a terceira mais antiga fabricantes de caminhões e tem a sua matriz na República Tcheca. Desde 2023, a empresa criou uma subsidiária no Brasil, a Tatra Brasil, também denonimada TatraBras. Ela assumiu a gestão de toda a operação latino‑americana, desativou o projeto de fábrica em Ponta Grossa (PR) e decidiu adiar a chegada da linha civil Phoenix, focando 100% na gama militar Force em um mercado de renovação de frota de defesa pouco disputado.

A estratégia militar se apoia também na vantagem regulatória: caminhões de defesa não precisam atender ao Euro 6/Proconve P8, permitindo o uso de motores Euro 3 com emissões equivalentes a Euro 5, enquanto a futura linha Phoenix civil só virá ao País já em padrão Euro 6, possivelmente apoiada em parceria com a DAF e rede Paccar, em data ainda não definida.

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Enquanto isso…

A engenharia da Tatra avança com novos eixos para os modelos. Confira esta novidade no artigo do jornalista Milan Olšanský, editor da revista Magazine Transport da República Tcheca e nosso colega no International Truck of the Year:

Em produção em série de eixos com redução

No ano passado, a Tatra introduziu na produção em série eixos com o chamado “planeta verdadeiro”. Um projeto completamente novo das reduções nas rodas substitui a solução original com o chamado planeta incorreto, que era utilizado nos veículos Tatra desde 1967. As novas reduções nas rodas contribuem significativamente para a unificação da produção de eixos e reduzem o esforço sobre o restante do trem de força do veículo.

Os novos eixos entraram na fase de produção em série após sete anos intensivos de desenvolvimento e testes, tanto dentro da própria fabricante de caminhões quanto junto a clientes em operação real. A solução de projeto com o chamado “planeta verdadeiro” já havia sido discutida anteriormente. Por exemplo, em 2010, trabalhos de conclusão de curso sobre esse tema foram elaborados por estudantes da VŠB, em Ostrava.

Guarda oposta, rotação oposta

O conceito de chassi dos veículos Tatra trabalha com um chassi de tubo central que abriga os eixos de transmissão. Cada roda motriz (diferentemente da concorrência) possui seu próprio conjunto de engrenagens de disco, que forma uma roda de disco com um pinhão. Isso resulta na disposição estrutural dos semieixos, que são deslocados entre si em 51 mm.

Na versão padrão, sem reduções nas rodas, o semieixo esquerdo fica à frente do direito. Por outro lado, na versão com reduções nas rodas, o semieixo direito fica à frente do esquerdo, o que se deve ao fato de que, até agora, os eixos Tatra utilizavam a chamada solução de engrenagem planetária falsa. Nessa solução, a engrenagem “solar” na extremidade externa do eixo de transmissão engatava engrenagens “satélites” montadas de forma fixa, porém giratórias, por meio das quais fazia girar o cabeçote da roda do eixo. Essa solução invertia o sentido de rotação, o que era a razão do deslocamento oposto dos semieixos em comparação com os eixos sem reduções nos cubos das rodas.

Solução radicalmente nova

A nova solução de projeto com o chamado planeta correto significa que a engrenagem “solar” engata as engrenagens “satélites”, que não apenas giram em torno de seu próprio eixo, mas também giram juntamente com toda a gaiola. O resultado é, entre outras coisas, a unificação do deslocamento do semieixo esquerdo à frente do direito — o mesmo que nos eixos sem reduções. Isso leva a diversos benefícios construtivos.

Primeiramente, trata-se da unificação dos chassis dos veículos (o mesmo deslocamento para todos), da unificação dos componentes de direção e suspensão e da unificação dos eixos como um todo. A solução original de reduções nos cubos das rodas também oferecia capacidade de torque limitada, invertia o sentido de rotação das rodas e carregava de forma um tanto desigual as engrenagens planetárias. A nova solução com o “planeta correto” proporciona carregamento uniforme das engrenagens planetárias, maior capacidade de torque, não inverte o sentido de rotação das rodas, garante lubrificação perfeita dos satélites e de todo o sistema de redução planetária e reduz significativamente as temperaturas dos cubos das rodas.

A relação de transmissão total para os eixos com “planeta correto” foi ligeiramente reduzida para 5,98 em comparação com a original de 6,33, sendo alteradas tanto a relação de transmissão no diferencial quanto na seção da roda. Um dos motivos para essa leve redução da relação total foi a possibilidade, anteriormente inexistente, de utilizar eixos com reduções nas rodas para operação rodoviária de longo prazo no importante mercado civil australiano, onde a velocidade máxima dos caminhões é limitada a 100 km/h.

Um grande benefício é também a ampliação da oferta de eixos com reduções nas rodas na versão com freios a disco, enquanto até agora os eixos com freios a disco eram produzidos apenas na versão sem redução. A nova solução de projeto também permite oferecer eixos direcionais com capacidade de carga de até 12 t (eixos não direcionais podem ter capacidade de carga de até 16 t — dependendo do sistema de suspensão combinada KING FRAME selecionado). Os novos eixos agora estão disponíveis em versões com largura máxima de 2500 ou 3000 mm. A maior largura do eixo traz um nível mais elevado de estabilidade, por exemplo, em veículos multieixos (cinco eixos) com alto peso total, especialmente ao bascular uma carroceria de construção relativamente longa.

A suspensão pneumática de todos os eixos do veículo, sua alta capacidade de carga e as duas larguras disponíveis são vantagens competitivas dos caminhões pesados Tatra, assim como todo o conceito de chassi. O Planeta Correto é um passo significativo em direção a um nível mais alto de unificação do projeto dos veículos Tatra. Ele traz maior valor agregado ao cliente final na forma de maior vida útil e menores custos operacionais e de manutenção.

O novo projeto de eixo da Tatra está, naturalmente, disponível para ambas as principais linhas de produção de veículos, ou seja, Phoenix e Force.

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Alta do petróleo preocupa transportadoras e reforça papel do biodiesel, biometano e HVO no Brasil

A dependência global do petróleo continua sendo um dos principais fatores de instabilidade econômica para o transporte. No entanto, a expansão dos biocombustíveis segue como importante perspectiva para reduzir gradualmente essa dependência. Embora essa substituição não ocorra no curto prazo, os investimentos em biodiesel, biometano, diesel verde (HVO), eletrificação e hidrogênio indicam que a transição energética já começou — e pode ser acelerada por fatores geopolíticos, como a crescente tensão no Oriente Médio.

Especialistas apontam que o transporte, em todos os modais, continuará dependente de combustíveis fósseis por pelo menos duas décadas. Ainda assim, cada ponto percentual de substituição do diesel ou da gasolina por combustíveis renováveis representa um avanço relevante tanto para as empresas de transporte quanto para a estratégia energética do país.

No Brasil, essa transição já se materializa em diferentes iniciativas. Ao longo dos últimos anos, a Frota News publicou mais de duas centenas de reportagens e análises sobre experiências práticas envolvendo transportadores, embarcadores, montadoras e empresas de energia. Esses conteúdos integram a seção Frota Sustentável, que funciona como um verdadeiro hub de informações e cronologia da evolução da descarbonização no transporte brasileiro.

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A consolidação dessas iniciativas já ocorre em diferentes frentes, ainda que em ritmos distintos. Empresas de transporte de cargas e passageiros começam a testar novas soluções energéticas em rotas específicas, enquanto montadoras ampliam seus portfólios com tecnologias capazes de operar com combustíveis de menor intensidade de carbono.

Vantagem estratégica brasileira

Nesse cenário, o Brasil possui uma vantagem rara em comparação com muitos países: a possibilidade de avançar na descarbonização por meio de diferentes rotas tecnológicas baseadas em recursos locais.

Enquanto diversas economias concentram sua estratégia quase exclusivamente na eletrificação, o modelo brasileiro tende a ser mais diversificado. Etanol, biodiesel, biometano e o diesel verde (HVO) compõem um ecossistema energético capaz de reduzir emissões sem exigir uma ruptura abrupta da infraestrutura existente.

Frota News
Edição 54

Leia a Revista Frota News Edição 54

Biometano avança no transporte pesado

Entre os combustíveis renováveis que ganham espaço no transporte rodoviário está o biometano. Em apenas dois anos, a produção nacional deve saltar de 656 mil metros cúbicos por dia (dados de outubro de 2025) para 2,3 milhões de m³/dia até 2027, um crescimento de 215% segundo estudo da Copersucar. Esse avanço é impulsionado pela valorização de resíduos da agropecuária, de aterros sanitários e da indústria sucroenergética, que passam a ser vistos como insumos energéticos estratégicos, e não apenas passivos ambientais.

O Estado de São Paulo sintetiza esse movimento. Hoje, concentra cerca de 40% da capacidade instalada de biometano do País, com oito plantas autorizadas que produzem aproximadamente 500 mil m³/dia, e sete novas unidades em fase de autorização que deverão levar o volume a mais de 700 mil m³/dia até dezembro de 2026. No longo prazo, o potencial paulista chega a 36 milhões de m³/dia, volume suficiente para substituir integralmente o consumo industrial de gás natural ou até 85% do diesel utilizado no transporte rodoviário no Estado.

Biodiesel e o debate sobre o B20

Outro pilar da estratégia brasileira de descarbonização do transporte é o biodiesel. O combustível renovável já integra a mistura obrigatória do diesel comercializado no país e sua participação tende a crescer nos próximos anos.

A discussão sobre a ampliação dessa mistura ganhou força nas últimas semanas. A AliançaBiodiesel, iniciativa conjunta entre a Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (ABIOVE) e a Associação dos Produtores de Biocombustíveis do Brasil (APROBIO), acompanha com entusiasmo os testes com a mistura B20 — que elevaria para 20% a participação do biodiesel no diesel.

O tema foi debatido durante a 4ª Reunião do Subcomitê de Viabilidade Técnica de Misturas, realizada pelo Ministério de Minas e Energia (MME) no início de março. Para o setor, os testes representam um passo importante para consolidar o papel dos biocombustíveis na matriz energética nacional.

Segundo Jerônimo Goergen, presidente da APROBIO, a previsibilidade regulatória é fundamental para o crescimento do setor.

“A previsibilidade do aumento da mistura é essencial. Ela permite planejamento, investimento e expansão da produção. Os testes com B20 demonstram que o Brasil tem condições técnicas e estruturais de avançar”, afirmou. Na mesma linha, André Nassar, presidente-executivo da ABIOVE, destaca que a ampliação da mistura pode representar um salto importante na agenda climática brasileira.

HVO surge como alternativa imediata

Outra tecnologia que começa a ganhar espaço no debate energético é o HVO (Hydrotreated Vegetable Oil), conhecido como diesel verde.

Diferentemente do biodiesel convencional, o HVO possui características químicas muito semelhantes às do diesel fóssil. Isso permite que ele seja utilizado em motores existentes sem necessidade de adaptações relevantes, tornando-se uma alternativa atraente para acelerar a redução de emissões em frotas já em operação.

Transição depende de políticas e infraestrutura

Apesar dos avanços tecnológicos, especialistas ressaltam que a transição energética exige estabilidade regulatória, políticas públicas consistentes e investimentos em infraestrutura de produção e distribuição.

Para os transportadores, a decisão de adotar novos combustíveis continua sendo essencialmente econômica. O fator ambiental ganha peso, principalmente em contratos com grandes embarcadores e multinacionais comprometidas com metas de descarbonização, mas a viabilidade financeira ainda é determinante.

Tensão no Oriente Médio pressiona mercado

A relevância dessa discussão torna-se ainda maior diante do cenário geopolítico internacional. A escalada das tensões no Oriente Médio elevou o nível de instabilidade no Estreito de Ormuz — rota estratégica por onde passam cerca de 20% do petróleo comercializado no mundo, segundo dados da U.S. Energy Information Administration.

O impacto já começa a aparecer nos mercados internacionais. De acordo com informações divulgadas pela Reuters, o preço do barril de petróleo registrou alta de aproximadamente 13% e superou os US$ 83 no início de março.

No Brasil, os reflexos surgem na pressão sobre os preços da gasolina e do diesel nas refinarias, além do aumento dos custos logísticos internacionais.

Para Carlos Panzan, presidente da Federação das Empresas de Transportes de Cargas do Estado de São Paulo (FETCESP), o cenário preocupa o setor.

“O transporte rodoviário de cargas já opera com margens pressionadas e enfrenta desafios estruturais. Quando há uma alta expressiva no combustível, as empresas precisam renegociar contratos, rever tabelas de frete e lidar com um ambiente de insegurança econômica”, afirma.

Impacto direto no custo do frete

O diesel representa uma das maiores parcelas do custo operacional das transportadoras. Qualquer aumento abrupto afeta diretamente as margens do setor e impacta toda a cadeia produtiva.

Quando o custo do frete sobe, os reflexos aparecem rapidamente nos preços de alimentos, medicamentos, insumos industriais e bens de consumo, ampliando a pressão inflacionária.

Além disso, a volatilidade do petróleo dificulta a formação de contratos de médio e longo prazo, reduz a previsibilidade financeira das transportadoras e compromete investimentos em renovação de frota, tecnologia e sustentabilidade.

Segundo Panzan, a previsibilidade é essencial para o setor continuar operando com eficiência.

“Defendemos equilíbrio e estabilidade na política de preços dos combustíveis. O transporte rodoviário de cargas é responsável pelo abastecimento das cidades e precisa de um ambiente econômico previsível para garantir competitividade, geração de empregos e continuidade dos serviços”, afirma.

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FINAME BNDES para picapes: como funciona o crédito e quais modelos estão habilitados em 2026

A Volkswagen do Brasil conseguiu incluir a Saveiro na linha de financiamento FINAME BNDES, anunciada oficialmente durante a Expodireto Cotrijal 2026, em Não‑Me‑Toque (RS). A medida coloca a picape como bem de produção e amplia, na prática, o rol de caminhones leves passíveis de financiamento via BNDES, ao lado da Fiat Strada, já habilitada desde 2025.

Para o setor de transporte e logística, o movimento marca um deslocamento importante: a picape de cabine simples deixa de ser vista apenas como “carro de trabalho” para se firmar como equipamento produtivo, com acesso a linhas de fomento historicamente associadas a caminhões, ônibus e máquinas agrícolas.

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O que é o FINAME BNDES hoje

O FINAME é a principal linha de financiamento do BNDES para aquisição de máquinas, equipamentos e veículos nacionais, com foco em bens de produção. Nem toda máquina ou veículo tem direito ao FINAME: só os itens credenciados no Portal CFI (Credenciamento de Fornecedores Informatizados) entram no universo do crédito. Esse portal lista máquinas, equipamentos e sistemas de produção nacionais, com classificação por CNAE e código específico de equipamento (CFI), que serve de base para o agente financeiro estruturar o financiamento.

O crédito é operado por agentes credenciados (bancos comerciais, bancos de montadoras e financeiras), que aplicam taxas de remuneração referenciadas, em regra, à TFB (Taxa de Juros Básica) ou à Selic, somadas a spreads definidos por cada instituição. A linha permite financiar até 100% do bem credenciado, 24 meses de carência, com prazos que podem chegar a 84 meses na modalidade TFB e até 60 meses na modalidade Selic, dependendo do tipo de agente e da política em vigor.

A abertura para picapes leves

Até poucos anos, o FINAME era associado quase que exclusivamente a caminhões, ônibus, tratores e máquinas pesadas. A lógica era de bens de produção claramente vinculados à indústria, agricultura e logística de carga. A mudança mais recente foi a expansão para veículos leves, quando o BNDES passou a aceitar picapes como “camionetas e utilitários” com função produtiva, desde que atendam aos critérios de classificação (CNAE 2910701 – fabricação de caminhonetes e utilitários) e sejam credenciadas no CFI.

Nesse cenário, a Fiat Strada assumiu o papel de pioneira, ao antecipar–se como primeira picape leves a ser habilitada ao FINAME. A montadora divulgou a entrada da Strada no BNDES destacando a Strada Endurance CS e a Strada Freedom Cabine Plus como modelos passíveis de financiamento via FINAME, com condições especiais voltadas a microempresas, cooperativas e produtores rurais, com carência e juros bem abaixo do padrão de CDC comum.

A Volkswagen entra agora com a Saveiro, soprando novidade na Expodireto Cotrijal 2026. A marca anunciou a inclusão da Saveiro Robust (a partir do modelo 2022) na linha FINAME, com foco direto no agronegócio e em pequenas empresas que utilizam o veículo como bem de produção. A operação prevê IOF zerado na transação, o que reforça a Saveiro como ferramenta de trabalho, não apenas como veículo de passeio ou transporte leve.

Quais picapes estão, de fato, no FINAME

Não existe, até o momento, uma lista pública e consolidada de “todas as picapes” habilitadas ao FINAME BNDES. O BNDES trabalha por credenciamento pontual: é o fabricante que cadastra modelo específico no CFI, com código CFI e condições próprias. Por isso, o que se observa hoje no mercado é um conjunto de anúncios comerciais e comunicações de bancos de montadoras, não um rol oficial e permanente de veículos.

Com base nas informações apuradas até o início de 2026, as picapes leves com indicação clara de habilitação ao FINAME são:

  • Fiat Strada (Endurance CS e Freedom Cabine Plus): primeira picape leves a entrar no FINAME, com campanhas voltadas a MEI, produtores rurais e pequenas empresas.

  • Volkswagen Saveiro (linha Robust, a partir de 2022): nova entrada no FINAME, com foco no agronegócio, apresentada oficialmente na Expodireto Cotrijal 2026.

Outras marcas como Chevrolet (Montana, S‑10), Ford (Ranger, Maverick) e Toyota (Hilux) ainda não acumulam anúncios públicos de habilitação ao FINAME para suas picapes no Brasil, o que não significa que nunca possam entrar na linha, apenas que, por ora, não constam como itens divulgados como “FINAMIZADAS” no mesmo tom das Strada e Saveiro. A possibilidade concreta depende de cada montadora submeter o modelo específico ao credenciamento no Portal CFI, seguindo a classificação de camionetas e utilitários e os requisitos de nacionalidade do bem.

FINAME x CDC: dois mundos no financiamento de picapes

Para o leitor de Frota News, vale olhar o FINAME como uma via diferente, mas complementar, ao CDC (Crédito Direto ao Consumidor), que segue sendo a principal porta de entrada para a compra de veículos comerciais novos no Brasil. Enquanto o CDC é mais rápido e menos burocrático, o FINAME tenta compensar isso com juros menores, carência ampliada e IOF zerado – vantagens que fazem diferença para quem usa a picape como ferramenta produtiva ao longo de vários anos.

O quadro abaixo resume a comparação entre as duas formas de financiar picapes, com base nas condições em vigor em 2025/2026:

Aspecto FINAME BNDES (picapes) CDC Comum (picapes)
IOF Zerado na operação de crédito, uma das principais vantagens do financiamento via FINAME. Incide sobre o valor financiado, com alíquotas que podem chegar a 0,38% do valor, além de encargos variáveis por dia ou mês.
Taxas de juros Referenciais de TFB ou Selic, com spreads adicionais; na prática, costuma ficar em torno de 1,0% a 1,5% a.m. efetiva, dependendo do banco de montadora. Varia entre instituições, mas tende a se concentrar entre 1,5% e 2,0% a.m. efetiva, com faixas mais baixas em campanhas específicas.
Prazo máximo Até 84 meses na modalidade TFB e até 60 meses na Selic, permitindo parcelamento mais longo. Em geral até 60 meses, com poucas exceções que ultrapassam um pouco esse limite.
Carência Campanhas recentes para Strada e Saveiro oferecem carência de até 24 meses, com pagamento de parcelas só começando após esse período. Carência típica bem menor, com muitos casos limitados a 3 meses quando ofertada.
Percentual financiado Pode chegar a 100% do valor do bem credenciado, desde que o modelo esteja no CFI. Também pode chegar a 100%, mas muitos bancos impõem entrada ou “entry fee”, reduzindo o verdadeiro percentual financiado.
Burocracia Maior, com necessidade de análise de CFI, documentação societária, enquadramento como bem de produção e, em alguns casos, análise de risco do BNDES. Menor, com foco em score de crédito e aprovação mais rápida, sem exigência de enquadramento como bem produtivo.
Público‑alvo Empresas, cooperativas e produtores rurais que utilizam a picape como bem de produção (agro, logística leve, pequenos transportadores). Pessoas físicas e jurídicas em geral, com uso misto entre trabalho e vida pessoal.
Propriedade do bem Em muitos casos, o veículo fica inicialmente no nome do agente financeiro, sendo transferido ao cliente ao longo do plano de financiamento. O veículo costuma ficar no nome do comprador desde o início, com o banco apenas como beneficiário da alienação fiduciária.

 

O FINAME tende a ser mais vantajoso para quem planeja usar a picape como bem produtivo ao longo de vários anos, enquanto o CDC continua sendo a opção mais ágil para situações de compra rápida ou uso mais misto.

O que o FINAME isenta e o que continua sendo cobrado

Uma das principais vantagens do FINAME aplicado a picapes é o IOF zerado no crédito, o que não existe em um CDC comum. Entretanto, o BNDES não interferiu na estrutura de tributos incidentes sobre o próprio veículo, o que significa que IPI, ICMS, PIS/Cofins, IPVA e demais taxas continuam a ser cobrados normalmente.

  • IOF: pode ser eliminado na operação de crédito via FINAME, mas continua presente em operações de CDC, incidente sobre o valor financiado.

  • IPI: tributo federal sobre produtos industrializados, que incide na saída da montadora, com alíquotas específicas para picapes, geralmente superiores às de carros leves, mas ainda assim embutidas no preço de fabricação.

  • ICMS: imposto estadual sobre circulação de mercadorias, que incide na venda do veículo novo, com alíquotas que giram em torno de 18% em muitos estados, como São Paulo, sem perder força com a entrada no FINAME.

  • PIS e Cofins: tributos federais que acompanham a cadeia de produção e são incorporates na formação de preço do veículo, tanto na linha de montagem quanto na revenda.

  • IPVA: imposto estadual anual, calculado sobre o valor do veículo, que é cobrado independentemente de ter sido financiado via FINAME, CDC ou à vista.

  • Taxas administrativas: emplacamento, registro, seguro obrigatório e taxas de documentação seguem sendo cobradas da mesma forma, sem alteração pela natureza do financiamento.

Em outras palavras, o FINAME reduz diretamente o custo de financiamento, mas não altera a carga tributária sobre o bem em si. Para produtores e pequenas transportadoras, a vantagem vem mais de juros menores, carência ampliada e IOF zerado, enquanto os tributos de fundo permanecem inalterados.

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A batalha do gás: por que Volvo e Scania seguem caminhos tão diferentes

A Volvo acaba de ultrapassar a marca de 10 mil caminhões movidos a GNL em operação ao redor do mundo — um marco oportuno para o debate sobre o uso de GNL (gás natural liquefeito) e GNC (gás natural comprimido) no transporte rodoviário brasileiro. n

A reportagem destaca que, embora muitos enxerguem a discussão apenas como uma disputa entre combustíveis, a diferença mais profunda entre Volvo e Scania está no ciclo do motor adotado por cada montadora. Enquanto a Volvo aposta no ciclo Diesel adaptado ao gás, priorizando desempenho e autonomia, a Scania segue com o ciclo Otto, mais tradicional no uso de gás, mas com características distintas de eficiência e torque.

No Brasil, a GNC tem sido priorizado por causa do custo de armazenamento ser muito mais baixo do que o GNL, apesar da autonomia proporcionada pelo gás liquifeito ser três vezes maior.

O texto também aborda:

  • Custos operacionais e impacto no TCO.
  • As diferenças tecnológicas entre GNC e GNL
  • Autonomia e infraestrutura de abastecimento no Brasil.
  • Como a expansão global do GNL pressiona o mercado brasileiro a acelerar decisões.
  • As marcas que estão desenvolvendo novos modelos a gás

Se quiser aprofundar a análise técnica e a evolução dos caminhões a gás, a reportagem completa está na edição 54 da Revista Frota News.

📖 Abra a revista pelo link e continue a leitura!

Frota News
Edição 54

Dia da Mulher: presença feminina cresce no transporte de cargas e na logística

Para o Frota News, todos os dias são das mulheres. O Dia Internacional da Mulher, celebrado em 8 de março, é mais do que uma data simbólica: representa um momento de balanço sobre os avanços conquistados e, sobretudo, sobre o que ainda precisa evoluir para ampliar a presença feminina em setores historicamente dominados por homens — como logística e transporte.

Os números mostram que a transformação está em curso, ainda que de forma gradual.

De acordo com a Organização Internacional do Trabalho (OIT), as mulheres representam cerca de 24% da força de trabalho global na logística. No Brasil, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a participação feminina gira em torno de 20%.

Quando se observa a presença nas posições de liderança, o cenário revela desafios ainda maiores. Levantamento realizado em 2025 pelo Instituto Talenses em parceria com o Núcleo de Estudos de Gênero do Insper aponta que apenas 17,4% das empresas brasileiras possuem lideranças femininas.

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Empregos no transporte de cargas mostram mudança histórica

No transporte rodoviário de cargas, um dado recente simboliza esse movimento. Segundo registros do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), 2025 marcou a primeira vez em que o saldo de empregos formais ocupados por mulheres no transporte de cargas superou o dos homens.

  • 24.639 vagas foram preenchidas por mulheres
  • 22.088 vagas foram ocupadas por homens

O resultado reflete uma tendência construída ao longo dos últimos anos e evidencia a expansão da presença feminina em diversas áreas do setor — do administrativo à gestão, passando também pelas operações.

Na avaliação da NTC&Logística, o avanço é resultado de uma combinação de fatores que inclui programas corporativos de diversidade, iniciativas institucionais e o reconhecimento crescente da capacidade de liderança feminina nas empresas de transporte.

Ainda assim, os desafios permanecem.

O Índice de Equidade no TRC 2024, realizado pelo Instituto Paulista do Transporte de Carga (IPTC), aponta que:

  • mulheres representam 26% da força de trabalho no setor
  • homens ainda somam 74%
  • Em determinadas funções operacionais, a presença feminina continua bastante limitada:
  • 3% das mulheres atuam como motoristas
  • 3% ocupam cargos de liderança
  • Por outro lado, o estudo também indica sinais de transformação estrutural:
  • 81% das empresas possuem estratégias para ampliar a contratação de mulheres
  • 63% já divulgaram planos para aumentar a presença feminina em cargos de liderança
  • 87% afirmaram ter contratado mulheres para posições de liderança no último ano

Além disso, 90% das empresas declararam que o gênero não influencia nos processos de contratação, o que reforça uma mudança de mentalidade dentro do setor.

Outro ponto relevante apontado pelo levantamento é que a presença feminina está associada a benefícios organizacionais como:

  • redução de acidentes
  • melhoria do ambiente de trabalho
  • aumento da produtividade
Lideranças femininas também crescem nas entidades do setor

Nas entidades representativas do transporte, a participação feminina também vem ganhando espaço.

Na própria NTC&Logística, mulheres têm desempenhado papel ativo na construção de agendas estratégicas para o transporte rodoviário de cargas. Entre elas estão: Joyce Bessa, vice-presidente extraordinária da pauta ESG; Jéssica Caballero Lopes, vice-coordenadora nacional da COMJOVEM; Roberta Fiorot, integrante do conselho de ex-coordenadores da COMJOVEM; Gislaine Zorzin; Priscila Zanette; e Rafaela Cozar, membro do Conselho Superior da associação.

Programas institucionais também ajudam a impulsionar essa mudança.

Entre os exemplos está o movimento Vez&Voz, criado pelo Sindicato das Empresas de Transportes de Carga de São Paulo e Região (SETCESP) e liderado por sua presidente executiva, Ana Jarrouge. A iniciativa tornou-se uma das principais plataformas de incentivo à participação feminina no transporte.

Outro espaço relevante de formação de lideranças é a COMJOVEM, comissão de jovens empresários e executivos da NTC&Logística. Atualmente, dos 753 membros, cerca de 200 são mulheres. Entre os 79 coordenadores e vice-coordenadores, 23 são mulheres.

Mulheres que lideram transformações na logística

Além das estatísticas, o avanço da participação feminina na logística também se materializa nas trajetórias de executivas que lideram operações, inovação e estratégias em diferentes áreas do setor.

Entre elas estão:

Clarisse Etcheverry
Fundadora do Grupo EREA, referência nacional em real estate logístico e industrial. Com mais de duas décadas de experiência no setor, lidera projetos de expansão e consultoria para grandes operadores logísticos e investidores. Apenas em 2025, a empresa participou de negócios que somaram mais de 1,4 milhão de m² em locações de galpões.

Isadora Vecchi
Diretora de Desenvolvimento de Novos Negócios da Loggi, empresa brasileira que vem transformando a logística por meio da tecnologia. Com experiência em companhias como Amazon e Natura, atua na expansão de soluções logísticas digitais no país.

Karina Amaro
CFO da transportadora digital Motz, com mais de 25 anos de experiência em finanças e gestão. Ao longo da carreira passou por empresas como Alcatel/Nokia, Comgás e Votorantim Cimentos.

Priscila Moherdaui
Diretora de Marketing e Growth da nstech, maior empresa de software para supply chain da América Latina. Lidera a integração estratégica das mais de 100 empresas que compõem o ecossistema da companhia.

A nstech também criou o nsclub mulheres, comunidade que reúne executivas da logística para troca de experiências e fortalecimento da liderança feminina.

Nathalia Corazza
Gerente de Branding da Frota 162, empresa especializada em gestão de multas, condutores e frotas. Atua na construção da identidade e posicionamento da marca no setor logístico.

Alice Ana Paiva
Diretora Comercial da Tragetta, empresa de transporte fracionado do Grupo FEMSA. Lidera a estratégia de expansão da companhia no Brasil com foco em tecnologia, eficiência operacional e inteligência de mercado.

Edilaine Prado
Gerente de Desenvolvimento Humano Organizacional da TruckPag, startup de meios de pagamento para frotas pesadas. Entre os resultados alcançados em sua gestão estão a redução de 42% do turnover e o aumento significativo do índice de satisfação interna da empresa.

Histórias que inspiram no transporte público

O avanço feminino no setor também aparece em trajetórias pessoais que rompem barreiras.

Na Secretaria dos Transportes Metropolitanos de São Paulo (STM), duas histórias simbolizam essa transformação.

Uma delas é a de Lúcia Makena, estagiária da área de comunicação. Aos 64 anos, ela está no último ano da graduação em jornalismo — sonho que havia sido interrompido na juventude por dificuldades financeiras.

Após décadas atuando como professora e empreendedora, Lúcia decidiu retomar os estudos incentivada pela neta.

“Precisamos sonhar e nos permitir realizar esses sonhos”, afirma.

Outra trajetória é a de Andreia Cristina Rodrigues, líder de projetos do túnel que ligará as estações Consolação e Paulista do Metrô de São Paulo.

Engenheira em um setor ainda majoritariamente masculino, Andreia afirma que muitas vezes ainda precisa provar sua competência.

“Ver a obra tomando forma e saber que vai facilitar a vida de milhares de pessoas é extremamente gratificante”, diz.

Mercedes-Benz destaca protagonismo feminino no esporte e na indústria

No campo institucional, empresas globais também utilizam a data para reforçar compromissos com diversidade.

A Mercedes-Benz lançou a campanha “Driven by Her”, destacando histórias femininas inspiradoras e ampliando a visibilidade de criadoras de conteúdo.

A ação marca também a parceria da marca com a tenista norte-americana Coco Gauff, nova embaixadora global da empresa e uma das principais atletas da atual geração.

A montadora também se tornou parceira da Women’s Tennis Association (WTA), reforçando o apoio ao desenvolvimento do tênis feminino.

Internamente, a empresa afirma buscar ampliar o número de mulheres em áreas técnicas e de liderança. Atualmente, 26,7% dos cargos de liderança sênior da Mercedes-Benz no mundo são ocupados por mulheres.

Um setor em transformação

O transporte de cargas e a logística ainda carregam uma forte herança masculina. No entanto, os indicadores mais recentes mostram que a presença feminina cresce — e tende a ganhar ainda mais relevância nos próximos anos.

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A participação da mulher na cadeia logística em 2026: Avanços, Desafios e Perspectivas 

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A cadeia logística — que inclui transporte, armazenagem, distribuição e gestão de cadeias de suprimentos — tem experimentado mudanças significativas no perfil de sua força de trabalho nas últimas décadas. Historicamente dominada por homens, a indústria hoje registra números que refletem transformações importantes, embora ainda marcadas por desigualdades de gênero. Em 2026, a presença de mulheres na cadeia logística continua crescendo em escala global, alcançando níveis que já são próximos da paridade em algumas frentes do setor. Segundo dados recentes: 

Estudos do setor, como o relatório Gartner Women in Supply Chain, apontam que mulheres representam cerca de 40% da força de trabalho na cadeia de suprimentos em âmbito global, um avanço relevante diante de um setor tradicionalmente dominado por homens. Relatórios anteriores indicam que essa participação já havia atingido 41% do total de profissionais em supply chain, evidenciando crescimento sustentado ao longo dos últimos anos. 

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Esses dados mostram uma mudança estrutural que reflete não apenas o aumento de vagas ocupadas por mulheres, mas também um reconhecimento maior da importância da diversidade de gênero nas operações logísticas. 

Participação em níveis de liderança

Apesar do avanço em números totais, o desafio permanece maior quando se trata da presença feminina nos níveis superiores de gestão: 

  • Mulheres ocupam aproximadamente um terço dos cargos de liderança na cadeia de suprimentos, como posições com responsabilidades estratégicas e de tomada de decisão. 
  • Dados de relatórios de diversidade indicam que apenas cerca de 15% dos cargos executivos — como diretores e C-level específicos de logística e supply chain — são ocupados por mulheres, mostrando que a transição vertical ainda está em curso. 
  • A presença feminina em níveis de vice-presidência no setor fica próxima de 21%, demonstrando que, embora haja representatividade, a desigualdade em cargos de maior poder ainda é significativa. 

Desafios segmentados por função

A participação das mulheres também varia conforme o tipo de atividade logística: 

  • Enquanto em funções administrativas, de planejamento ou procurement a presença feminina é mais expressiva, setores operacionais como transporte rodoviário e logística pesada ainda apresentam baixos percentuais de mulheres. 
  • Alguns dados indicam que caminhoneiras e profissionais de campo representam apenas uma pequena fração do total nesses segmentos. 
  • Em áreas como armazenamento básico ou operações de frontline, a presença feminina pode alcançar cerca de 30–40% em alguns mercados, refletindo abertura crescente para diferentes perfis de cargo. 

Casos e tendências regionais

No Brasil, por exemplo, pesquisas do setor logístico mostram que iniciativas de inclusão estão gerando crescimento contínuo da presença feminina: 

  • Um estudo recente do setor de transporte rodoviário de cargas em São Paulo revelou que o número de mulheres nas empresas cresceu 73%, resultado de programas de recrutamento e políticas internas voltadas para diversidade. 
  • Organizações especializadas em logística registraram um avanço de 11 pontos percentuais na participação feminina no transporte rodoviário de cargas em apenas um ano, evidenciando que ações práticas estão gerando impacto real na composição da força de trabalho. 

Desigualdades persistentes e barreiras

Apesar do progresso, desigualdades estruturais ainda se mantêm: 

A indústria logística segue registrando disparidades salariais e de promoção entre gêneros, e muitas mulheres relatam falta de clareza nas trajetórias de avanço profissional. Programas de diversidade são amplamente reconhecidos como prioridade em cerca de 75% das organizações do setor, mas nem todas possuem ações concretas ou medem sua eficácia. 

Falta de mentoria, políticas de retenção e representação em papéis técnicos mais tradicionais são apontados como barreiras para a ampliação da participação feminina, especialmente em segmentos como transporte pesado e engenharia aplicada à logística. 

Benefícios da diversidade

Organizações que promovem maior diversidade de gênero não veem apenas ganhos sociais, mas também impactos positivos nos resultados: 

  • Empresas com equipes diversas, incluindo equilíbrio de gênero, tendem a registrar maior inovação e desempenho financeiro, com índices de lucro mais altos em comparação com equipes menos diversas. 
  • A presença feminina em posições estratégicas tem sido associada a melhores práticas de gestão de risco, relações com stakeholders e estratégias sustentáveis de cadeia de suprimentos. 

Conclusão

Em 2026, a participação da mulher na cadeia logística alcança níveis historicamente altos, refletindo décadas de esforços para modernizar o setor e promover igualdade. Embora desafios persistam — especialmente nos níveis executivos e em áreas operacionais mais tradicionais — os avanços em recrutamento, formação e iniciativas de diversidade indicam que a tendência é de fortalecimento contínuo da presença feminina. 

A transformação não é apenas socialmente necessária, mas economicamente vantajosa: com maior diversidade, a logística global se torna mais resiliente, inovadora e alinhada com as demandas de um mercado em rápida evolução. 

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DHL Express aposta no Brasil como mercado estratégico de longo prazo, diz CEO da região Américas

O Brasil tornou-se um dos mercados prioritários para a expansão da DHL nas Américas. A avaliação é de Andrew Williams, CEO da divisão DHL Express Américas, que vê no país uma combinação de fatores estruturais — mercado interno robusto, diversificação industrial e novas oportunidades no comércio internacional — que justificam o aumento dos investimentos da empresa no território brasileiro.

Durante participação em um painel sobre perspectivas econômicas e logísticas na América Latina, o executivo afirmou que o Brasil foi classificado pela companhia como um “geographic tailwind market”, ou seja, um mercado com ventos favoráveis para crescimento de longo prazo.

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Segundo Williams, a estratégia da empresa não está baseada em ciclos econômicos curtos, mas em uma visão estrutural de desenvolvimento do país.

O Brasil faz parte de um grupo de cerca de 20 países no mundo considerados estratégicos para nossa expansão. Nas Américas, apenas três estão nessa lista: Brasil, México e Colômbia”, afirmou.

Mudanças estruturais e novas cadeias globais

Para o executivo, o atual momento do Brasil coincide com transformações relevantes nas cadeias globais de produção e comércio. Entre elas, destaca-se o movimento de nearshoring e reorganização das cadeias de suprimentos, que tem levado empresas internacionais a diversificar suas bases produtivas.

Estamos vendo mudanças estruturais que trazem vantagens competitivas para o Brasil. O país está recebendo novos investimentos e tem diversificado seus modais logísticos e suas cadeias de suprimento”, explicou.

Nesse cenário, a DHL pretende dobrar os investimentos no país, ampliando sua presença operacional e a capilaridade dos serviços.

Uma das iniciativas envolve a expansão da rede de atendimento. A empresa planeja ampliar o número de pontos de venda para cerca de 75 unidades, fortalecendo a cobertura nacional de serviços expressos, que já conta com mais de 500 lojas entre próprias e franquias.

Além disso, o transporte aéreo de cargas é apontado como uma das frentes de crescimento. “Vemos muitas oportunidades no transporte aéreo. Nossa expectativa é que o volume de carga aérea na região dobre até 2028”, disse o executivo.

Mercado interno e diversidade industrial

Outro fator que sustenta o otimismo da companhia é o perfil da economia brasileira, caracterizada por um mercado doméstico amplo e por uma base industrial diversificada. De acordo com Williams, essa diversidade abre oportunidades para serviços logísticos especializados em diferentes setores, como energia, saúde e tecnologia.

O Brasil tem uma profundidade industrial importante em vários setores. Temos experiência global em áreas como combustíveis, saúde e tecnologia, e vemos espaço para crescer nesses segmentos no país”, afirmou.

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O executivo também destacou o papel estratégico do Brasil como porta de entrada para a América do Sul, conectando fluxos comerciais regionais.

Potencial das pequenas e médias empresas

Apesar da relevância do país no comércio internacional, Williams observa que as exportações brasileiras ainda são fortemente concentradas em grandes corporações. Para a DHL, isso indica um grande potencial de crescimento entre pequenas e médias empresas (PMEs).

Existem cerca de 2,1 milhões de pequenas e médias empresas no Brasil, mas apenas uma parcela muito pequena delas participa do comércio internacional”, afirmou.

 

Segundo ele, uma das missões da empresa é justamente ajudar essas companhias a acessar mercados globais. “Há uma grande oportunidade de apoiar essas empresas com serviços logísticos e orientação para que possam exportar mais”, acrescentou.

Apoio às empresas diante da complexidade do comércio global

Williams também destacou que o ambiente de comércio internacional tornou-se mais complexo nos últimos anos, marcado por mudanças regulatórias, novas tarifas e incertezas geopolíticas.

Nesse contexto, o papel das empresas de logística vai além do transporte. “Os clientes esperam que sejamos resilientes e que os ajudemos a navegar por essa complexidade”, afirmou.

De acordo com o executivo, a DHL tem investido em equipes especializadas para apoiar clientes na compreensão de regimes aduaneiros e regras comerciais em diferentes mercados.

Somente nos Estados Unidos, por exemplo, a companhia mantém cerca de 900 profissionais dedicados a questões relacionadas a regimes tarifários e regulatórios.

O risco de erros em processos aduaneiros é grande quando as informações não estão corretas. Por isso, nossos clientes esperam que ofereçamos não apenas transporte, mas também conhecimento e orientação”, explicou.

Logística além de preço e velocidade

Segundo Williams, as prioridades dos clientes também mudaram nos últimos anos. Se antes as decisões logísticas eram guiadas principalmente por preço e rapidez, hoje fatores como dados, confiabilidade operacional e suporte especializado tornaram-se igualmente relevantes.

Os clientes querem serviços que funcionem no dia a dia e dados que permitam tomar decisões melhores”, afirmou. Para o executivo, a combinação entre tecnologia, expertise regulatória e infraestrutura logística será fundamental para apoiar empresas brasileiras que desejam expandir sua atuação internacional.

À medida que as empresas fortalecem seus mercados domésticos, elas também buscam parceiros que possam ajudá-las a se conectar com o mundo”, concluiu.

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Garantia de 3 anos no caminhão: o que as campanhas não contam sobre as cláusulas do contrato

Volkswagen, DAF, Volvo, Mercedes-Benz e Scania disputam o bolso do transportador com uma nova arma comercial: garantias mais longas para caminhões pesados, muitas vezes com números que chamam a atenção: 3 anos de cobertura, pacotes de trem de força ampliados, revisões gratuitas e planos de manutenção “sob medida”. Quando o caminhão entra na operação real, porém, principalmente em uso severo, a leitura dos manuais e dos termos de garantia revela um cenário que precisa de mais atenção pelos frotistas.

Esta reportagem nasce tendo um vídeo postado em suas redes sociais pelo fundador e CEO do marketplace GoTruck, João Vicente Reinelli Nedeff, sobre o VW Meteor com garantia de 3 anos e campanhas agressivas de revisões gratuitas.

No entanto, a falta de conhecimento das cláusulas do contrato de garantia gera reclamações por negativa de cobertura no Reclame Aqui, conforme a reportagem da Frota News apurou..

A questão, para quem compra caminhão para trabalho pesado, é simples e incômoda: até que ponto a garantia de fábrica protege de fato o transportador — e onde começam as brechas contratuais ou erros de motoristas e frotistas que anulam a garania?

Ponto de partida é separar a garantia que a lei impõe daquela que a montadora usa como argumento comercial. O Código de Defesa do Consumidor prevê uma garantia legal de 90 dias para bens duráveis, como caminhões, que vale para qualquer vício que torne o produto impróprio ou diminua seu valor, independentemente de constar em papel ou propaganda. Em paralelo, vem a garantia contratual de fábrica – 1, 2, 3 anos, trem de força estendido –, que é facultativa e adiciona prazo e condições definidas pelo fabricante, sem poder reduzir a proteção mínima da lei.

Na prática, é nessa garantia contratual onde se concentram as cláusulas que restringem a cobertura em caminhões pesados. Os termos falam em “defeitos de fabricação”, “vícios de material ou projeto”, sempre sob a condição de que o veículo seja utilizado de acordo com o manual, com manutenção em dia, peças originais e operação dentro dos limites técnicos. Ao mesmo tempo, listam longos grupos de componentes excluídos por “desgaste natural” e abrem margem para negativas em cenários típicos de uso severo — justamente o ambiente onde esses caminhões passam a maior parte da vida.

Meteor: 3 anos de garantia com muitas condicionantes

O manual de garantia do VW Meteor, que inspirou o vídeo do empresário e advogado João Vicente analisando o documento “ponto a ponto”, é um bom exemplo dessa engenharia contratual. A Volkswagen Caminhões e Ônibus anuncia 3 anos de garantia para o modelo, algo que, à primeira vista, parece mais generoso do que o padrão de 1 ano de veículo + 1 ano de trem de força praticado por diversos concorrentes. Mas o texto oficial mostra que esse prazo vem acompanhado de várias amarras.

Antes mesmo de entrar nas sete seções formais da garantia, o manual estabelece a obrigatoriedade de definição do grupo de manutenção, classificando a aplicação do caminhão em rodoviário, misto, severo ou especial. Se o veículo for usado em uma operação diferente da declarada — por exemplo, rodar em cenário de uso severo com plano de revisões de uso leve —, a Volks deixa claro que a cobertura pode ser negada já de saída. Na primeira seção, a empresa reserva o direito de consertar uma peça em vez de trocá-la, quando entender que a substituição não é obrigatória, e se não houver peça original disponível em até 90 dias, admite instalar uma peça não original, desde que homologada pela própria VW.

A lista de componentes excluídos por desgaste natural é extensa: amortecedores, buchas de suspensão, correias, embreagem, lonas e discos de freio, mangueiras, pneus, rolamentos, sincronizadores, entre outros. Todos esses itens, críticos em operação severa, ficam fora da garantia, salvo prova de defeito de fabricação. As “condições de efetivação” também são rígidas: qualquer troca anterior precisa ter sido feita com peças originais Volkswagen e em oficina da rede autorizada, sob pena de extinção da cobertura.

Em outra cláusula, a montadora condiciona a garantia à inexistência de defeitos resultantes de “desgaste natural”, “utilização inadequada”, “prolongado desuso”, “acidentes de qualquer natureza” ou “caso fortuito ou força maior”. O texto genérico, como observa o próprio advogado no vídeo, cria uma zona cinzenta difícil de comprovar ou contestar nas relações entre marcas e consumidores, onde mais da metade dos conflitos acaba se concentrando.

Uso severo: a fronteira entre defeito e desgaste

Caminhões raramente vivem em “condição ideal”. São expostos a estradas ruins, sobrecarga, operações em serra, canteiro de obras, mineração, coleta urbana e outras aplicações classificadas pelos próprios fabricantes como uso severo. Para lidar com isso, os manuais definem planos de revisão mais frequentes e intervalos reduzidos de troca de óleo, filtros, inspeções de suspensão e sistema de freios, vinculados a grupos de aplicação semelhantes aos da Volks.

Quando uma quebra acontece, porém, a interpretação de que o problema é desgaste natural compatível com o uso ou defeito de fabricação passa a ser o ponto de tensão. Em uso severo, amortecedores, buchas, molas, pneus, freios e embreagem se desgastam muito mais rápido; as marcas tendem a enquadrar falhas prematuras como consequência da severidade da operação, enquanto o transportador enxerga um vício que deveria ser coberto. O mesmo vale para componentes de motor e transmissão, frequentemente associados, pelos laudos das montadoras, a combustível fora de especificação, ARLA inadequado, sobrecarga ou não cumprimento dos intervalos de revisão previstos para uso severo.

Casos reais

Reclamações públicas ajudam a ilustrar como essa lógica se traduz no dia a dia. Em um dos registros no Reclame Aqui, um proprietário de VW Meteor 29.530 relata “defeitos recorrentes” no caminhão e recusa da garantia, mesmo com pouco tempo de uso, alegando que o veículo apresenta problemas em praticamente todo frete sem solução definitiva. Em outro relato, um cliente reclama de falha em um Meteor 29.530 durante o período de garantia, sustentando que a montadora negou o reparo, não apresentou laudo técnico conclusivo e o deixou arcando com custos relevantes por conta própria.

Há ainda casos envolvendo a suspensão a ar traseira de unidades da família Meteor em que os consumidores afirmam conviver com o problema “desde que saiu de fábrica”, o que evidencia a divergência entre a visão de vício de origem do usuário e a tendência da marca em apontar desgaste ou uso severo. Situações semelhantes aparecem em reclamações de motor de caminhão Volvo com baixa quilometragem e negativa de garantia, em que a percepção do cliente é de falha injusta da cobertura e falta de transparência no laudo.

Nos bastidores, as políticas de garantia da Volvo e de outras montadoras reforçam esse filtro: exclusão de serviços feitos fora da rede autorizada, exigência de peças genuínas ou homologadas, óleos e combustíveis dentro da especificação e negativa para problemas classificados como “desgaste normal” ou “operações fora das condições recomendadas”. Em muitos casos, o argumento de “uso severo” aparece associado a sobrecarga, condução inadequada, rota diferente da aplicação declarada e lacunas no histórico de manutenção.mercedes-benz.

A guerra das garantias

A ampliação da garantia virou um capítulo à parte na disputa entre fabricantes de pesados. A Volks posiciona o Meteor com 3 anos de garantia de fábrica e ainda oferece, em determinadas campanhas, dois anos de revisões gratuitas, incluindo itens de trem de força e, em alguns pacotes, até componentes de desgaste, desde que o veículo siga o cronograma na rede autorizada.

A DAF respondeu ampliando, em 2025, a garantia de trem de força para 3 anos em toda a linha no Brasil, explorando a mensagem de confiança na durabilidade de motor, câmbio e eixo traseiro. Volvo e Mercedes-Benz mantêm, em geral, estruturas de 1 ano de veículo completo + 1 ano adicional de trem de força, com limites de quilometragem e políticas rígidas para peças genuínas e manutenção. Já a Scania trabalha com 1 ano padrão de garantia, complementado por programas de manutenção e coberturas estendidas atreladas a contratos (Scania Pro e similares), que podem chegar a 3, 5 anos ou mais dependendo do pacote fechado.

Marketing x realidade no chão de fábrica e de estrada

Os exemplos mostram que a garantia virou argumento de venda, mas não necessariamente um colchão de proteção robusto em todas as quebras. A comunicação destaca os 3 anos, os pacotes de revisão, a confiança no produto; o conjunto de PDFs técnicos, termos jurídicos e políticas internas estabelece um labirinto de condições, grupos de aplicação, exclusões por desgaste e interpretações de uso severo. Na ponta, o caminhoneiro que roda na serra, na cana, no minério ou na coleta urbana é quem precisa navegar esse labirinto quando o caminhão para antes da hora.

Nesse contexto, a fronteira entre defeito de fabricação (que deveria ser coberto) e desgaste/mau uso (que recai sobre o consumidor) vira uma disputa técnica e jurídica. Os laudos das montadoras ganham peso, mas órgãos como Procon e o próprio Judiciário têm reforçado a ideia de que a garantia contratual não pode esvaziar a responsabilidade por vícios de origem, inclusive quando se manifestam após os 90 dias da garantia legal, no caso de vício oculto. Ainda assim, a assimetria de informação e de recursos entre transportador e fabricante torna cada discussão um caso de fôlego.

Como as seis principais marcas estão posicionadas no Reclame Aqui

A avaliação dos consumidores no site Reclame Aqui mostra um cenário heterogêneo entre as seis principais fabricantes de caminhões que atuam no Brasil. Enquanto algumas marcas apresentam desempenho positivo na resolução de reclamações e relacionamento com clientes, outras enfrentam críticas relacionadas principalmente ao pós-venda e à falta de resposta às queixas registradas na plataforma.

Iveco

Entre as empresas analisadas, a Iveco aparece com uma das melhores avaliações. Segundo os dados exibidos na página da empresa, a marca possui reputação classificada como “Ótima”, com nota média de 8,7/10 nos últimos seis meses. O indicador reflete a avaliação dos consumidores sobre o atendimento e a solução de problemas relatados na plataforma. Apesar da boa pontuação geral, ainda há registros recentes de reclamações não respondidas, como um caso envolvendo suposto defeito no sistema de ar-condicionado de um caminhão Tector 11-190.

garantia
Fonte: Reclame Aqui

Mercedes-Benz

Situação semelhante ocorre com a Mercedes-Benz do Brasil. A empresa também apresenta reputação “Ótima”, com nota média de 8,2/10, além de possuir perfil verificado na plataforma. A fabricante figura ainda entre as empresas reconhecidas no prêmio anual do portal, o que indica bom desempenho em indicadores como taxa de resposta, solução de problemas e satisfação dos consumidores.

garantia
Fonte: Reclame Aqui

DAF

Por outro lado, a avaliação da DAF Caminhões no Brasil é mais moderada. A empresa aparece com reputação classificada como “Regular”, com nota média de 6,8/10 nos últimos 12 meses. A página da marca indica a existência de 97 reclamações registradas, das quais parte ainda aguarda resposta. Entre os relatos estão dificuldades para encontrar produtos, problemas com atendimento e questionamentos sobre suporte técnico.

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Fonte: Reclame Aqui

Volvo

Um dos casos mais críticos entre as montadoras analisadas envolve a Volvo Caminhões. Na plataforma, a empresa aparece com reputação “Não recomendada” e nota média de 4,2/10 nos últimos 12 meses. O perfil também indica que a companhia não possui verificação na plataforma, o que significa que não aderiu ao selo de confiabilidade do portal. Entre as reclamações recentes estão relatos de falhas mecânicas em caminhões Euro 6 e críticas ao tempo de resposta ou ausência de retorno por parte da fabricante.

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Fonte: Reclame Aqui

Scania

Já a Scania apresenta uma situação diferente: a empresa possui perfil verificado, mas ainda não conta com reputação definida na plataforma. Segundo o próprio site, isso ocorre porque o número de reclamações avaliadas ainda não atingiu o mínimo necessário para cálculo da nota. Isso se explica por ser a marca que menos tem reclamações, sendo 118, com 99,2% respondidas e apenas uma aguardando resposta.

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Fonte: Reclame Aqui

Volkswagen Caminhões e Ônibus também enfrenta críticas

Outra fabricante relevante no mercado brasileiro, a Volkswagen Caminhões e Ônibus, também apresenta avaliação desfavorável na plataforma. De acordo com dados exibidos no Reclame Aqui, a empresa aparece com reputação classificada como “Não recomendada”, com nota média de 3,8/10 nos últimos seis meses.

A página da companhia indica a presença de reclamações recentes ainda não respondidas, o que impacta diretamente a pontuação geral da marca no sistema de avaliação do portal. Entre os relatos registrados por consumidores estão críticas relacionadas ao tempo de reparo em oficinas e à qualidade do serviço prestado após manutenção.

Um exemplo citado na plataforma descreve um caso em que um caminhão teria permanecido cerca de 50 dias em reparo após uma colisão, sendo devolvido ao cliente com novas falhas apontadas pelo proprietário. Situações desse tipo costumam gerar avaliações negativas, sobretudo quando não há resposta pública ou solução registrada no sistema da plataforma.

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Fonte: Reclame Aqui

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