Em um momento que a dependência da importação de diesel coloca toda a economia do país em risco, a busca de alternativas pedem aceleração pelo desenvolvimento de biocombustíveis que vem crescento no Brasil. E dentro deste contexto, a Volkswagen Caminhões e Ônibus (VWCO) avança na validação do biodiesel puro no transporte rodoviário ao iniciar uma nova fase de testes com o B100 — combustível 100% renovável de origem vegetal — em parceria com a AMAGGI, maior produtora brasileira de grãos e fibras.
A iniciativa coloca um caminhão Meteor 29.530 Highline 6×4 para rodar durante 12 meses em rotas reais do Centro-Oeste ao Norte do país, em uma das aplicações mais exigentes do transporte pesado.
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O projeto replica fielmente a operação da AMAGGI no escoamento de grãos, utilizando composições de nove eixos, como rodotrens e bitrenzões. Com uma média mensal entre 8 mil e 10 mil quilômetros rodados, o veículo percorrerá o corredor logístico que liga Sinop (MT) a Matupá (MT), seguindo até o terminal de Miritituba (PA) — um trajeto que combina longas distâncias, variações climáticas e alta demanda de carga.
A AMAGGI já opera com 101 caminhões Scania 500 R 6×4 Super B100 desde meados de 2024. Saiba mais: Amaggi recebe os primeiros caminhões Scania movido a biodiesel puro
Operação real como laboratório
Diferentemente de testes controlados, a proposta é submeter o B100 a condições reais de uso, com foco em indicadores críticos para o frotista: desempenho, consumo, impacto na manutenção, desgaste de componentes e confiabilidade operacional. O combustível utilizado é produzido integralmente a partir de soja, em uma única unidade da AMAGGI localizada em Lucas do Rio Verde (MT), garantindo padronização ao longo de toda a operação.
O caminhão receberá adequações específicas e será monitorado continuamente por equipes técnicas da VWCO e da AMAGGI, permitindo ajustes em tempo real e geração de dados para futuras aplicações.
Segundo Rodrigo Chaves, vice-presidente de Engenharia da VWCO, a iniciativa está alinhada ao Programa Futuro da montadora. Na visão da AMAGGI, o uso do B100 vai além da eficiência operacional. “Esperamos que o resultado seja positivo, dada a importância estratégica da substituição do diesel por um combustível renovável e menos poluente para a autossuficiência energética do Brasil”, destaca Claudinei Zenatti, diretor de Logística e Operações da companhia.
Base técnica já consolidada
O novo ciclo de testes se apoia em uma base robusta de validações conduzidas pela VWCO. Segundo a fabricante, os estudos com B100 já superam 500 mil quilômetros rodados no Brasil, abrangendo todas as linhas de produtos: leves (Delivery), médios (Constellation) e pesados (Meteor).
Os testes combinam avaliações em campo — junto a clientes — com ensaios em bancos de prova, permitindo uma análise completa de desempenho, consumo, emissões e impacto no ciclo de manutenção. Até o momento, os resultados indicam operação estável, eficiência energética adequada e desempenho equivalente ao diesel convencional.
Para mitigar riscos, a montadora estruturou planos de manutenção específicos, com atenção especial a componentes sensíveis ao biodiesel, como filtros e sistema de alimentação — um ponto-chave para a previsibilidade operacional das frotas.
EcoRodovias reforça viabilidade com 100 mil km rodados
Outro indicador vem da parceria entre VWCO e EcoRodovias. Em cinco meses de operação, a frota da concessionária Ecovias Noroeste Paulista acumulou 100 mil quilômetros rodados exclusivamente com B100, mantendo disponibilidade técnica superior a 95% e sem intercorrências relevantes.
O projeto envolve quatro veículos — incluindo um Meteor 29.530, dois Delivery 11.180 e um Constellation 17.190 — aplicados em serviços como guincho e caminhão-pipa. A iniciativa segue em andamento, com previsão de completar 12 meses de operação assistida.
Para Monica Jaén, diretora de sustentabilidade da EcoRodovias, os resultados são consistentes. “Alcançar 100 mil quilômetros com disponibilidade acima de 95% demonstra que é possível reduzir emissões de forma imediata, mantendo eficiência e segurança operacional”, afirma.
Redução de emissões e dependência da importação de diesel
O avanço do B100 ganha relevância sobretudo pelo potencial de redução de emissões. Estudos da ANP, Abiove e EPE indicam que o biodiesel de soja pode reduzir em até 90% as emissões de CO₂ em comparação ao diesel fóssil no ciclo completo.
Apesar disso, a adoção do combustível ainda passa por uma equação mais ampla que inclui custo operacional, infraestrutura de abastecimento e padronização da qualidade. No caso da AMAGGI, a decisão de ampliar o uso do B100 está diretamente ligada à estratégia de descarbonização, mesmo sem ganhos imediatos de custo frente ao diesel convencional.
Ecossistema em formação
O movimento da VWCO e seus parceiros ocorre em paralelo a outras iniciativas no Brasil, como operações com B100 conduzidas por empresas como Bunge e transportadoras independentes, além da criação de pontos de abastecimento dedicados ao biodiesel puro.
No cenário internacional, fabricantes como DAF e Volvo já desenvolvem veículos compatíveis com B100, sinalizando uma tendência global que começa a ganhar escala também no mercado brasileiro.
Na prática, os testes em larga escala conduzidos no país indicam que o B100 pode se consolidar como uma solução de transição energética viável no transporte rodoviário de cargas — especialmente em operações dedicadas ou com produção própria de combustível, como no agronegócio.



