Corredores verdes e projetos regionais mostram que o biometano já é solução viável
O CIBiogás Conecta Transporte Pesado reuniu, em São Paulo, representantes de toda a cadeia do biometano para discutir como transformar uma solução no transporte rodoviário de carga e passageiros. O encontro evidenciou que, apesar do potencial brasileiro de produção e dos ganhos ambientais e econômicos já comprovados, a expansão do biometano no transporte rodoviário depende de integração logística, incentivos públicos e maior segurança operacional para transportadores.
Érica Marcos, gerente executiva ambiental da CNT (Confederação Nacional do Transporte) lembra que o modal rodoviário concentra 93% das emissões do setor, movimenta mais de 65% das cargas em trechos de longa distância e opera com uma frota envelhecida, na qual 55% dos caminhões têm mais de 15 anos e apenas 5% utilizam tecnologia Euro 6. Segundo a executiva, renovar os veículos mais antigos gera impacto ambiental imediato, tornando o biometano uma alternativa estratégica para reduzir emissões rapidamente.
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Além de reduzir até 90% das emissões de CO₂ no ciclo de vida, os caminhões a biometano oferecem desempenho semelhante ao diesel e custo operacional menor: cerca de R$ 1,96 por quilômetro, contra R$ 2,50 a R$ 3,00 no diesel. A infraestrutura também avança. O Brasil possui cerca de setenta plantas autorizadas ou em autorização pela ANP, com capacidade superior a 3,5 milhões de m³/dia.
Aurélio Ferreira, diretor de estratégia da Ultragaz, explicou que a empresa estruturou uma operação off-grid por meio da Neogás, atendendo quarenta clientes e operando duzentos caminhões a biometano. “Grande parte da produção está distante dos gasodutos. Por isto, a logística é fundamental”, afirmou. Projetos com Toyota, PepsiCo e Natura já demonstram ganhos ambientais e operacionais, com abastecimento reduzido de 40 para 10 minutos.
Concessionárias estaduais também ampliam corredores sustentáveis. No Paraná, a Compagas conecta novas regiões com redes locais de gás comprimido, abastecendo Londrina e Maringá. O estado conta com 35 postos, treze de alta vazão, e concede isenção de IPVA até 2027 para veículos a gás. Em São Paulo, Rafael Gonzalez, da Necta, destacou que 27 propostas foram recebidas para novas conexões, com potencial de 700 mil m³/dia.
A Itaipu Parquetec apresentou cinco projetos viáveis para produção de biometano ou energia, reforçando que o País ainda aproveita apenas pequena parcela do potencial disponível.
Apesar dos avanços, executivos defendem incentivos fiscais, harmonização tributária e mecanismos para reduzir o investimento inicial — caminhões a gás custam cerca de 30% mais que modelos a diesel. Também pedem maior divulgação sobre autonomia, segurança e valor de revenda, pontos que ainda geram resistência.
O “pedágio verde”, discutido no evento, surge como possível ferramenta para acelerar a adoção da tecnologia. Erica Marcos explicou que o incentivo deve contemplar todos os veículos pesados movidos a gás, ampliando demanda e capilaridade da infraestrutura. O modelo, porém, exige mecanismos compensatórios para manter o equilíbrio econômico das concessões.
Experiências internacionais mostram que incentivos combinados entre oferta e demanda são decisivos. “Você precisa ter demanda para o biometano e precisa fazer sentido para o frete”, afirmou Gonzalez. Murilo Sulinski Madeira, da Cocal, reforçou que grandes transformações energéticas exigem participação ativa do Estado.
Enquanto políticas públicas avançam lentamente, empresas criam incentivos próprios. Rodrigo Lima, da Copersucar, relatou que caminhões a biometano recebem prioridade operacional em usinas e terminais. “Se o caminhão convencional fica aguardando operação, o caminhão a biometano entra direto e descarrega”, disse.
O desafio econômico também aparece no acesso ao crédito. A Transjordano precisou comprovar abastecimento integral com biometano para obter financiamento do Fundo Clima e estruturou seu próprio Corredor Verde, com investimento de R$ 140 milhões. “A ruptura é financeira. Se não fizer sentido economicamente, a mudança não acontece”, afirmou Jordano Bessa.
Outro obstáculo é a ausência de mercado de seminovos. Aurélio Ferreira, da Ultragaz, destacou que o valor residual ainda é incerto, dificultando renovação de frota. Ana Paula Feitoza, da Compagas, acredita que rotas regionais e microcorredores serão os primeiros a absorver caminhões usados movidos a gás.
Mercados maduros reforçam a importância da infraestrutura. Nos Estados Unidos, há 175 mil veículos pesados a gás, 94% abastecidos com biometano, apoiados por 1.466 postos. Na Europa, incentivos regulatórios e expansão da rede aceleraram a adoção.
O consenso do evento é claro: o biometano deixou de ser promessa e já é alternativa operacionalmente viável. O ritmo da transição, porém, dependerá da capacidade de alinhar incentivos, infraestrutura e segurança econômica para transportadores.
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Parceria que transforma contrabando em biogás e biometano
A iniciativa liderada pela Itaipu Binacional, em parceria com a Polícia Federal, Receita Federal, CIBiogás e o Ministério da Agricultura e Pecuária, transforma produtos de contrabando apreendidos — como cigarros, alimentos e bebidas — em biogás e biometano. Em vez de serem incinerados, esses materiais são triturados, misturados a resíduos orgânicos e submetidos à digestão anaeróbia, processo que gera gás renovável capaz de produzir eletricidade, calor ou abastecer veículos.
O projeto cria um ciclo sustentável que reduz a poluição, evita desperdício, promove a economia circular e ainda gera receita. A planta do CIBiogás já processa cerca de 500 kg de resíduos por dia, podendo chegar a 1 tonelada, produzindo em média 200 m³ de biogás e 100 m³ de biometano diariamente — volume suficiente para abastecer parte da frota interna de Itaipu. Desde o início da operação, mais de 41 mil m³ de biometano já foram utilizados, somando mais de 484 mil quilômetros rodados.
Com resultados sólidos, a iniciativa tem potencial para ser replicada em outras regiões do país, especialmente áreas de fronteira onde o contrabando é frequente. Além disso, a tecnologia pode ser aplicada ao tratamento de outros resíduos orgânicos, como lixo de restaurantes, resíduos agrícolas e esgoto, mostrando como inovação e colaboração podem transformar problemas ambientais em soluções eficientes e economicamente viáveis.



