Desafios e oportunidades esperadas para a IAA TRANSPORTATION

Para a indústria de veículos comerciais, que se prepara para apresentar seus lançamentos na feira IAA TRANSPORTATION, em Hannover, este é um momento de grandes desafios e também de novas e empolgantes oportunidades. A transição energética em curso, com suas incertezas quanto ao cronograma de implementação e à viabilidade do Pacto Ecológico Europeu — o plano da Comissão Europeia para alcançar a neutralidade de carbono — causa grande preocupação aos fabricantes de veículos comerciais e industriais com reflexos no Brasil e demais países da América Latina.

Somam-se a isso as repercussões negativas no mercado, ligadas à adoção de medidas protecionistas em nível internacional, às restrições à exportação de matérias-primas estratégicas, às tensões geopolíticas e às crescentes pressões inflacionárias. Os aspectos positivos — e as oportunidades — residem, contudo, nas tendências tecnológicas emergentes, que incluem a eletrificação do transporte, inclusive o de longa distância, os veículos definidos por software e os serviços de valor agregado vinculados à conectividade, para citar apenas alguns exemplos.

Esses e outros temas foram o foco de uma entrevista concedida ao jornalista Gianenrico Griffini, revista italiana Allestimenti & Trasporti, por Jürgen Mindel, diretor-geral da VDA, a Associação Alemã da Indústria Automotiva, e publicada com exclusividade pela Frota News no Brasil.

Allestimenti & Trasporti: O que podemos esperar da próxima IAA TRANSPORTATION em termos de conteúdo inovador e avanços tecnológicos? Haverá mais caminhões elétricos? Veículos autônomos? Veículos definidos por software? O que mais?

Jürgen Mindel: Hannover será o palco ideal para nossa indústria altamente inovadora. Nesse contexto, o slogan da edição de 2026 — “Nós entregamos” — não poderia ser mais apropriado. Na IAA TRANSPORTATION, poderemos vivenciar em primeira mão o que a logística como um todo é capaz de fazer. Veremos as conquistas da indústria automotiva, que não apenas fala sobre metas, mas toma medidas concretas para alcançá-las.

Ao oferecer soluções digitais e inovações ecológicas para todos os tipos de veículos, a indústria demonstra que desempenhou seu papel na construção do futuro do transporte e da logística, tanto na Alemanha quanto em toda a Europa. Testemunharemos o progresso realizado nas áreas de sistemas de propulsão alternativos, veículos conectados e autônomos, soluções logísticas baseadas em software e infraestrutura de recarga.

Na próxima IAA TRANSPORTATION, um dos temas centrais será o de veículos definidos por software, que terá destaque e desempenhará um papel de liderança tanto nos estandes dos expositores quanto nas conferências especializadas.

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Allestimenti & Trasporti: Qual é o sentimento entre as empresas do setor automotivo algumas semanas antes da abertura do salão? A incerteza está afetando o setor e as decisões estratégicas das empresas?

Jürgen Mindel: Certamente não é surpresa que as tensões geopolíticas e as tendências protecionistas representem um dos principais desafios para a indústria automotiva global. Sejam as tarifas impostas pelos Estados Unidos, o ressurgimento generalizado do protecionismo ou as restrições da China à exportação de matérias-primas cruciais, não há dúvida de que a divisão internacional do trabalho está sob pressão.

Ao mesmo tempo, nos últimos anos, a posição da Europa como local ideal para operações de empresas tornou-se significativamente menos competitiva. Berlim, em nome da Alemanha, e Bruxelas, em nome da União Europeia, devem criar urgentemente melhores condições para a indústria, concentrando-se na redução da burocracia, na diminuição dos custos de energia, na expansão dos acordos comerciais e no compromisso de manter uma abordagem aberta à tecnologia.

Além disso, os legisladores europeus têm negligenciado gravemente suas obrigações em relação às regulamentações de emissões de CO₂ para veículos comerciais pesados. É necessário cuidar da estrutura indispensável para que as metas sejam alcançadas. Em particular, há uma carência de infraestrutura eficiente de recarga e de abastecimento de hidrogênio, bem como da expansão necessária da rede, para garantir que as metas ambiciosas sejam de fato atingíveis.

A necessidade de medidas corretivas e de adaptação é agora ainda mais urgente. As potenciais multas previstas na regulamentação das frotas de veículos comerciais pesados devem ser ajustadas, uma vez que a atual ameaça de penalidades põe em risco a transição para a mobilidade neutra em carbono, a posição da Europa como polo industrial e a própria existência de muitas empresas — especialmente as pequenas e médias. Em outras palavras, é urgente uma análise realista da situação, seguida de uma atualização baseada em suas conclusões.

Allestimenti & Trasporti: A União Europeia tem um roteiro para a redução das emissões de CO₂. Mas e as condições necessárias para o processo de descarbonização? Precisamos de mais infraestrutura de carregamento? Devemos aumentar a produção de hidrogênio? O setor precisa de maior flexibilidade em termos de cronograma?

Jürgen Mindel: Particularmente no setor de veículos pesados, todas as opções tecnológicas disponíveis desempenharão um papel importante no futuro. Por um lado, os veículos elétricos a bateria estão ganhando espaço no transporte regional e de longa distância; por outro, os veículos movidos a hidrogênio também serão fundamentais em operações que exigem percursos maiores.

Precisamos, portanto, de um quadro político que promova uma rede de infraestrutura de abastecimento de hidrogênio em nível europeu, bem como o desenvolvimento consistente das infraestruturas de mobilidade elétrica. Na Itália, por exemplo, existem apenas 16 postos de carregamento para caminhões com mais de 16 toneladas, em comparação com 54 na Alemanha e 94 na França. Em suma, há muito trabalho a ser feito por parte dos políticos. 

Allestimenti & Trasporti: Você acha que o aumento do preço dos combustíveis tradicionais poderia, de alguma forma, acelerar a transição energética?

Jürgen Mindel: Do nosso ponto de vista, o sucesso da mobilidade elétrica no transporte depende do custo total de propriedade (TCO). Isso inclui não apenas o preço de compra do veículo, mas sobretudo os custos de energia, a disponibilidade de infraestrutura adequada e o suporte pós-venda.

De qualquer forma, para atingir as metas climáticas estabelecidas pelo Acordo de Paris, precisamos de uma combinação de todas as tecnologias disponíveis, como sistemas de propulsão elétrica alimentados por bateria, combustíveis sintéticos e hidrogênio — tanto em células de combustível quanto em motores de combustão interna.

Allestimenti & Trasporti: Qual será a participação de expositores estrangeiros na IAA TRANSPORTATION deste ano? Será maior do que nos anos anteriores?

Jürgen Mindel: A IAA TRANSPORTATION continua, mais uma vez, sendo o evento de referência para o setor de transportes. O espaço de exposição está praticamente todo reservado. Grandes empresas do setor, como Renault Trucks e Mercedes-Benz Vans, retornaram a Hannover. Os expositores internacionais representam cerca de 70% do total, com presença significativa de empresas chinesas, turcas e italianas.

Os principais players do setor, de todo o mundo, estarão presentes, o que reforça a importância internacional do evento para a indústria de veículos comerciais. 

Allestimenti & Trasporti: Na China, uma alta porcentagem de caminhões recém-registrados já é elétrica. Esse não é o caso na Europa. Como as metas de descarbonização podem ser alcançadas?

Jürgen Mindel: Se analisarmos a situação na Europa, veremos que 30% das emissões de CO₂ das rodovias são atribuíveis ao transporte pesado de mercadorias. Isso significa que estamos diante de um setor com enorme potencial de descarbonização. É por isso que acreditamos que todas as tecnologias disponíveis — veículos elétricos a bateria, combustíveis sintéticos e hidrogênio — são essenciais para atingir as metas do Acordo de Paris.

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Marcos Villela Hochreiter
Marcos Villela Hochreiterhttps://www.frotanews.com.br
Atuo como jornalista no setor da mobilidade desde 1989 em diversas redações. Também nas áreas de comunicação da Fiat e da TV Globo, e depois como editor da revista Transporte Mundial por 22 anos, e diretor de redação de núcleo da Motor Press Brasil. Desde 2018, represento o Brasil no grupo do International Truck of the Year (IToY), associação de jornalistas de transporte rodoviário de 34 países. Desde 2021, também atuo como colaborador na Fabet (Fundação Adolpho Bósio de Educação no Transporte, entidade educacional sem fins lucrativos). Em 2023, fundei a plataforma de notícias de transporte e logística Frota News, com objetivo de focar nos temas que desafiam as soluções para gestão de frotas.
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