Logística verde: Desembarque de elétricos da GAC expõe o paradoxo de uma cadeia de distribuição que ainda depende de gigantes do passado para transportar o futuro da mobilidade
A fabricante chinesa GAC anunciou oficialmente a chegada de um novo lote massivo de veículos ao mercado brasileiro. No total, são 3,6 mil unidades desembarcadas que seguirão diretamente para abastecer a rede de concessionárias da marca no país. O grande apelo comercial desses automóveis — compostos por modelos elétricos e híbridos de última geração — é justamente a promessa de mobilidade sustentável, eficiência energética e baixíssima (ou zero) emissão de poluentes.
No entanto, uma das fotos de divulgação desse desembarque revela um profundo e provocativo contraditório sobre a realidade da nossa matriz de transportes.
Na imagem, capturada durante a movimentação logística no Porto de Vitória (ES), o veículo encarregado de transportar os modernos automóveis ecológicos da GAC é um veterano Scania T113H. Pelos detalhes visuais de acabamento e rodas, trata-se de um modelo fabricado entre 1997 e 1998, marcando os últimos anos de produção da Série 3 no Brasil.
Leia também:
- Aposta em 2.000 caminhões a GNL no Brasil une Nimofast, Edge e Green Cargo com uma frota recorde para descarbonizar transporte
- Editoria Frota Sustentável: mais de 280 artigos sobre descarbonização do transporte
A cena funciona como um perfeito cartão-postal do paradoxo da “cadeia de suprimentos verde”: um veículo pode até emitir pouco ou nada na tomada ou nas ruas, mas a sua cadeia logística ainda carrega a pegada de carbono do passado.
O abismo de emissões: 1997 vs. tecnologias atuais
A presença do icônico “bicudo” da Scania — um dos caminhões mais vendidos da história do país, com mais de 26 mil unidades comercializadas em sua trajetória — evidencia o tamanho do desafio ambiental. O termo “T113H” carrega uma ficha técnica pesada: cabine Torpedo, motor de 11 litros, Série 3 de geração, e chassi Heavy (Pesado).
Embora seja um monumento de durabilidade mecânica, o modelo opera sob os padrões da antiga fase Proconve P3 (equivalente ao Euro 1). O confronto técnico entre o que esse clássico de 1997 emite e o que a legislação atual Proconve P8 (Euro 6) exige escancara o tamanho do impacto na atmosfera:
-
Material Particulado e Fumaça: O caminhão de 1997 emite cerca de 98% a 99% mais material particulado (fuligem) do que os motores modernos.
-
Gases Nocivos (NOx): A diferença nos Óxidos de Nitrogênio chega a 95%, já que os veículos da década de 1990 não contavam com os sistemas estritos de pós-tratamento de gases e catalisadores atuais.
O cenário que poderia ser: O exemplo dos portos a gás

O retrato flagado em Vitória ganha contornos ainda mais irônicos quando olhamos para a movimentação de outros grandes hubs logísticos do país. O próprio Porto de Santos (SP), por exemplo, tornou-se recentemente o palco de uma virada histórica na transição energética portuária. Em uma operação inédita no mundo, o Tecon Santos incorporou uma frota de 35 caminhões Scania P 340 movidos a Gás Natural Comprimido (GNC), em um investimento de R$ 40 milhões focado justamente em limpar a logística interna de contêineres.
Se no lugar do valente veterano de 1997 tivéssemos um Scania Euro 6 moderno movido a gás natural, a redução imediata de CO₂ na operação de transporte da GAC seria de 15% a 20%. Se esse veículo estivesse abastecido com biometano (gás renovável), a pegada de carbono desse elo da distribuição seria cortada em até 90%, criando uma sinergia real com a proposta ecológica dos carros chineses transportados.
Saiba mais:
- Porto de Santos inicia operação com caminhões Scania GNC
- ➡️ Acompanhe nossas redes sociais: LinkedIn, TikTok, Instagram e Facebook
➡️ Inscreva-se no canal do Videocast FrotaCast



