O Transporte Rodoviário de Cargas (TRC) inicia 2026 sob um sinal de alerta. A NTC&Logística tornou pública a defasagem média de 10,1% nos valores de frete praticados pelas empresas do setor, segundo levantamento técnico do DECOPE (Departamento de Custos Operacionais e Pesquisas Técnicas e Econômicas).
O comunicado da associação tem como objetivo orientar o mercado embarcador e reforçar a necessidade urgente de recomposição tarifária para garantir a continuidade operacional de um setor essencial ao desenvolvimento nacional.
Leia também:
- Da periferia ao centro: como caminhões e ônibus passaram a fazer parte dos programas Mover e Move Brasil
- Frota News amplia alcance global ao firmar parceria com a Newstex
Embora cerca de 40% das transportadoras tenham registrado melhora no volume de cargas em 2025, a rentabilidade foi corroída por novos custos regulatórios, aumento das despesas financeiras e pressões tributárias — um cenário que compromete investimentos em frota, segurança e tecnologia.
Pressão tributária: reoneração da folha reduz margem do setor
Entre os principais fatores que impactam 2026 está a segunda fase da reoneração da folha de pagamento, em vigor desde janeiro. A medida adiciona cerca de 1,5% ao ano aos encargos das empresas — acumulando aproximadamente 3% considerando 2025.

Leia a Revista Frota News Edição 54
Segundo estimativas setoriais, esse aumento representa impacto equivalente a 60% do lucro médio das transportadoras. Em um setor de margens historicamente estreitas, a elevação da carga tributária compromete diretamente a capacidade de renovação de frota, investimentos em segurança e adoção de novas tecnologias.
A recomposição tarifária, portanto, deixa de ser uma discussão comercial e passa a ser uma questão de sustentabilidade operacional.
Custo financeiro: Selic a 15% encarece capital de giro
Outro vetor crítico é o custo financeiro. Com a taxa Selic mantida em 15,0%, o capital de giro tornou-se significativamente mais oneroso, especialmente considerando que o prazo médio de recebimento das transportadoras gira em torno de 47,6 dias.
O custo da concessão de prazo aos clientes não integra as planilhas referenciais de custos da NTC, o que exige sua incorporação direta aos valores de frete. Caso contrário, a operação passa a ser financiada pelo transportador — um modelo insustentável em cenário de juros elevados.
O impacto é ainda maior nas operações de grande volume e contratos de longo prazo, onde o descasamento financeiro pressiona caixa e limita investimentos.
Seguros obrigatórios e nova dinâmica regulatória
O TRC encerrou 2025 sob forte pressão regulatória. Três fatores foram determinantes para o aumento estrutural dos custos:
1. Lei 14.599/23: novos custos com seguros
A Lei 14.599/23 transferiu integralmente ao transportador a responsabilidade pelos seguros RCTR-C, RC-DC e RC-V.
Como resposta, o mercado passou a adotar a cobrança da Taxa de Seguro Obrigatório (TSO) para recompor esses custos. A aplicação correta da TSO tornou-se essencial para evitar desequilíbrios contratuais.
2. Piso mínimo sem margem de tolerância
A fiscalização eletrônica via MDF-e e CIOT pela Agência Nacional de Transportes Terrestres encerrou a prática de utilização de valores abaixo do piso mínimo estabelecido pela Lei 13.703/18.
A contratação de Transportadores Autônomos de Cargas (TACs) agora exige conformidade absoluta com a tabela da ANTT, eliminando margens comerciais anteriormente utilizadas para ajuste competitivo.
3. ADI 5322 e perda de produtividade
Decisões judiciais no âmbito da ADI 5322 alteraram a interpretação sobre tempos de espera e descanso, reduzindo a disponibilidade operacional da frota.
Na prática, menos viagens por veículo significam aumento do custo fixo por operação. Soma-se a isso a escassez de motoristas qualificados — problema que já afeta 88% das empresas, segundo levantamento da NTC — pressionando salários, benefícios e investimentos em retenção.
Evolução dos custos: o impacto acumulado
Embora 2025 tenha apresentado relativa estabilidade em alguns indicadores, a análise acumulada dos últimos 36 meses revela aumento significativo em itens estruturais:
- Caminhão: +23,3%
- Mão de obra: +20,2%
- Combustível: -5,3%
A queda do diesel no período não foi suficiente para compensar a elevação nos demais componentes.
No acumulado de 12 meses, o INCTL (Carga Lotação) subiu 2,81%, enquanto o INCTF (Carga Fracionada) avançou 5,34%, superando o IPCA de 2025, que fechou em 4,44%. Ainda assim, o repasse efetivo ao mercado ficou aquém da necessidade real, consolidando a defasagem média de 10,1%.
Componentes tarifários: aplicação rigorosa é questão de sobrevivência
A NTC&Logística reforça que a aplicação correta de componentes como:
- Frete-Valor
- GRIS (Gerenciamento de Risco)
- TSO (Taxa de Seguro Obrigatório)
é indispensável para cobrir riscos operacionais, sinistralidade, roubo de cargas e exigências de segurança (PDSI).
Além disso, a correta cobrança de cubagem e o monitoramento permanente das taxas adicionais tornam-se instrumentos fundamentais para manter a viabilidade econômica das operações.
2026: ano decisivo para o equilíbrio do setor
O início de 2026 combina pressão inflacionária, reoneração tributária e juros elevados. O desafio não é apenas recompor margens, mas preservar a estrutura produtiva de um setor que sustenta cadeias industriais, o agronegócio, o varejo e o comércio exterior.
A mensagem da NTC é clara: a sobrevivência das transportadoras depende da eliminação imediata da defasagem tarifária.
Sem a recomposição dos fretes, o risco é a redução de investimentos, perda de qualidade de serviço e, no limite, comprometimento da capacidade logística nacional.
Em um país continental como o Brasil, discutir sustentabilidade no transporte rodoviário de cargas deixou de ser pauta ambiental — tornou-se questão estratégica para a própria estabilidade econômica.
Acompanhe nossas redes sociais: LinkedIn, Instagram e Facebook
Inscreva-se no canal do Videocast FrotaCast



