quinta-feira, março 5, 2026

A equação do frete em 2026: custos crescentes e necessidade de recomposição da margem, segundo NTC&Logística

O Transporte Rodoviário de Cargas (TRC) inicia 2026 sob um sinal de alerta. A NTC&Logística tornou pública a defasagem média de 10,1% nos valores de frete praticados pelas empresas do setor, segundo levantamento técnico do DECOPE (Departamento de Custos Operacionais e Pesquisas Técnicas e Econômicas).

O comunicado da associação tem como objetivo orientar o mercado embarcador e reforçar a necessidade urgente de recomposição tarifária para garantir a continuidade operacional de um setor essencial ao desenvolvimento nacional.

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Embora cerca de 40% das transportadoras tenham registrado melhora no volume de cargas em 2025, a rentabilidade foi corroída por novos custos regulatórios, aumento das despesas financeiras e pressões tributárias — um cenário que compromete investimentos em frota, segurança e tecnologia.

Pressão tributária: reoneração da folha reduz margem do setor

Entre os principais fatores que impactam 2026 está a segunda fase da reoneração da folha de pagamento, em vigor desde janeiro. A medida adiciona cerca de 1,5% ao ano aos encargos das empresas — acumulando aproximadamente 3% considerando 2025.

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Segundo estimativas setoriais, esse aumento representa impacto equivalente a 60% do lucro médio das transportadoras. Em um setor de margens historicamente estreitas, a elevação da carga tributária compromete diretamente a capacidade de renovação de frota, investimentos em segurança e adoção de novas tecnologias.

A recomposição tarifária, portanto, deixa de ser uma discussão comercial e passa a ser uma questão de sustentabilidade operacional.

Custo financeiro: Selic a 15% encarece capital de giro

Outro vetor crítico é o custo financeiro. Com a taxa Selic mantida em 15,0%, o capital de giro tornou-se significativamente mais oneroso, especialmente considerando que o prazo médio de recebimento das transportadoras gira em torno de 47,6 dias.

O custo da concessão de prazo aos clientes não integra as planilhas referenciais de custos da NTC, o que exige sua incorporação direta aos valores de frete. Caso contrário, a operação passa a ser financiada pelo transportador — um modelo insustentável em cenário de juros elevados.

O impacto é ainda maior nas operações de grande volume e contratos de longo prazo, onde o descasamento financeiro pressiona caixa e limita investimentos.

Seguros obrigatórios e nova dinâmica regulatória

O TRC encerrou 2025 sob forte pressão regulatória. Três fatores foram determinantes para o aumento estrutural dos custos:

1. Lei 14.599/23: novos custos com seguros

A Lei 14.599/23 transferiu integralmente ao transportador a responsabilidade pelos seguros RCTR-C, RC-DC e RC-V.

Como resposta, o mercado passou a adotar a cobrança da Taxa de Seguro Obrigatório (TSO) para recompor esses custos. A aplicação correta da TSO tornou-se essencial para evitar desequilíbrios contratuais.

2. Piso mínimo sem margem de tolerância

A fiscalização eletrônica via MDF-e e CIOT pela Agência Nacional de Transportes Terrestres encerrou a prática de utilização de valores abaixo do piso mínimo estabelecido pela Lei 13.703/18.

A contratação de Transportadores Autônomos de Cargas (TACs) agora exige conformidade absoluta com a tabela da ANTT, eliminando margens comerciais anteriormente utilizadas para ajuste competitivo.

3. ADI 5322 e perda de produtividade

Decisões judiciais no âmbito da ADI 5322 alteraram a interpretação sobre tempos de espera e descanso, reduzindo a disponibilidade operacional da frota.

Na prática, menos viagens por veículo significam aumento do custo fixo por operação. Soma-se a isso a escassez de motoristas qualificados — problema que já afeta 88% das empresas, segundo levantamento da NTC — pressionando salários, benefícios e investimentos em retenção.

Evolução dos custos: o impacto acumulado

Embora 2025 tenha apresentado relativa estabilidade em alguns indicadores, a análise acumulada dos últimos 36 meses revela aumento significativo em itens estruturais:

  • Caminhão: +23,3%
  • Mão de obra: +20,2%
  • Combustível: -5,3%

A queda do diesel no período não foi suficiente para compensar a elevação nos demais componentes.

No acumulado de 12 meses, o INCTL (Carga Lotação) subiu 2,81%, enquanto o INCTF (Carga Fracionada) avançou 5,34%, superando o IPCA de 2025, que fechou em 4,44%. Ainda assim, o repasse efetivo ao mercado ficou aquém da necessidade real, consolidando a defasagem média de 10,1%.

Componentes tarifários: aplicação rigorosa é questão de sobrevivência

A NTC&Logística reforça que a aplicação correta de componentes como:

  • Frete-Valor
  • GRIS (Gerenciamento de Risco)
  • TSO (Taxa de Seguro Obrigatório)

é indispensável para cobrir riscos operacionais, sinistralidade, roubo de cargas e exigências de segurança (PDSI).

Além disso, a correta cobrança de cubagem e o monitoramento permanente das taxas adicionais tornam-se instrumentos fundamentais para manter a viabilidade econômica das operações.

2026: ano decisivo para o equilíbrio do setor

O início de 2026 combina pressão inflacionária, reoneração tributária e juros elevados. O desafio não é apenas recompor margens, mas preservar a estrutura produtiva de um setor que sustenta cadeias industriais, o agronegócio, o varejo e o comércio exterior.

A mensagem da NTC é clara: a sobrevivência das transportadoras depende da eliminação imediata da defasagem tarifária.

Sem a recomposição dos fretes, o risco é a redução de investimentos, perda de qualidade de serviço e, no limite, comprometimento da capacidade logística nacional.

Em um país continental como o Brasil, discutir sustentabilidade no transporte rodoviário de cargas deixou de ser pauta ambiental — tornou-se questão estratégica para a própria estabilidade econômica.

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Marcos Villela Hochreiter
Marcos Villela Hochreiterhttps://www.frotanews.com.br
Atuo como jornalista no setor da mobilidade desde 1989 em diversas redações. Também nas áreas de comunicação da Fiat e da TV Globo, e depois como editor da revista Transporte Mundial por 22 anos, e diretor de redação de núcleo da Motor Press Brasil. Desde 2018, represento o Brasil no grupo do International Truck of the Year (IToY), associação de jornalistas de transporte rodoviário de 34 países. Desde 2021, também atuo como colaborador na Fabet (Fundação Adolpho Bósio de Educação no Transporte, entidade educacional sem fins lucrativos). Em 2023, fundei a plataforma de notícias de transporte e logística Frota News, com objetivo de focar nos temas que desafiam as soluções para gestão de frotas.
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