Com uma frota jovem e foco em operações dedicadas, a Anacirema exemplifica o esforço do transportador brasileiro em manter a eficiência em um cenário de margens comprimidas. No entanto, para José Alberto Panzan, diretor da empresa e vice-presidente do Sindicamp (Sindicato das Empresas de Transportes e Cargas de Campinas e Região), a modernização esbarra em obstáculos que vão além dos muros das transportadoras.
Em entrevista exclusiva à Frota News, Panzan faz um alerta crítico sobre o impacto do biodiesel (B15) na manutenção dos motores, projeta uma descarbonização lenta, abaixo de 1% ao ano devido a gargalos de infraestrutura, e analisa o déficit de 120 mil motoristas no país.
A seguir, uma radiografia completa dos bastidores da gestão de frota, do abastecimento, da transição energética e da crise de mão de obra — sob a perspectiva de quem está no centro das decisões.
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A frota como espelho da operação
A Anacirema opera com uma frota diversificada, moldada para atender operações dedicadas. São VUCs (incluindo elétricos), tocos, trucks, baús, carretas sider e conjuntos cavalo-carreta 4×2, todos selecionados conforme as exigências de cada cliente.
A idade média dos veículos automotores é de 4,4 anos, enquanto os implementos — carretas baú e sider — têm média de 7 anos.
Essa diversidade também se reflete nas marcas. A empresa trabalha com frota multimarcas, e isso não é por acaso:
“A escolha leva em conta as características de cada operação. Trabalhamos com soluções próprias que atendam as necessidades dos nossos clientes, baseado em produtividade e resultado.”
O planejamento de renovação é anual e acompanha contratos, custos operacionais, condições de mercado e disponibilidade de crédito. A empresa não possui oficina própria: toda a manutenção é feita via contratos com concessionárias e oficinas terceirizadas.

Combustível: controle, tecnologia e volatilidade
A matriz da Anacirema possui posto interno de abastecimento, abastecido por uma distribuidora com contrato fixo — embora outras sejam consultadas com frequência, dada a volatilidade do mercado.
Além disso, a empresa utiliza abastecimento externo em postos homologados, integrando tudo por meio de tecnologia de gestão, o que permite unificar dados e controlar consumo, desvios e custos.
A diferença de preço entre abastecimento interno e externo pode ultrapassar 10%, dependendo da região. Sobre qualidade, Panzan afirma:
“Prezamos pela qualidade do combustível, tanto interno como externo, não tendo desvios com relação ao consumo por km rodado.”
O impasse do biodiesel: entre a agenda verde e a realidade das oficinas

O debate sobre o aumento da mistura obrigatória de biodiesel — impulsionado pela AliançaBiodiesel e por pressões geopolíticas — preocupa o setor. Embora montadoras afirmem que motores Euro 6 estão preparados para B20, a prática no Brasil é outra.
Panzan explica:
“O biodiesel absorve água com facilidade, criando ambiente ideal para proliferação de bactérias e formação de borra que obstrui filtros e danifica injetores e bombas de alta pressão.”
A vida útil do combustível caiu de 60 para 30 dias, o que penaliza frotas com tanques próprios. O custo real, segundo ele, não aparece na bomba — aparece na oficina.
Descarbonização: avanço lento, mas possível
Mesmo com investimentos crescentes em biometano, biodiesel de segunda geração e HVO, Panzan avalia que a descarbonização da frota ficará abaixo de 1% ao ano.
Já a redução de emissões por quilômetro rodado pode superar esse índice, desde que: o biometano escale rapidamente, o HVO seja regulamentado, e haja infraestrutura de abastecimento.
“O gargalo não é tecnológico, é infraestrutura, custo de capital e velocidade regulatória.”
A crise dos motoristas: um problema global, agravado pela estrutura brasileira

O déficit de 120 mil motoristas profissionais no país é resultado de fatores que se retroalimentam: Envelhecimento da categoria (média de 48 anos), alto custo da CNH profissional (até R$ 6 mil), jornadas longas e riscos nas estradas, baixa progressão de carreira, e margens comprimidas que impedem melhores salários.
Além disso, o setor é extremamente pulverizado:
- 113 mil transportadoras, com média de 5,4 veículos
- 631 mil autônomos, com média de 1,3 veículo
- 536 cooperativas, com média de 14,2 caminhões
- 84% das empresas têm até 5 veículos
Esse perfil limita investimentos em formação de novos motoristas.
“A profissão perde a disputa com carreiras digitais e de serviços urbanos, e o ciclo se fecha sem reposição geracional.”
O que está sendo feito?
O Sindicamp atua em parceria com Fetcesp, CNT e SEST/SENAT para capacitar novos motoristas e valorizar a profissão. Mas o desafio é estrutural e de longo prazo.
Respeito nos pontos de carga e descarga: o problema nº 1
Pesquisa da Fundação Elizabeth Randon com mais de 1.500 motoristas mostra que a principal queixa é o desrespeito em ambientes de carga e descarga — locais fora do controle das transportadoras.
Panzan afirma que há diálogo com representantes da indústria e do comércio para conscientização e melhoria desses ambientes, mas reconhece que ainda há muito a avançar.
Conclusão: um setor que se reinventa enquanto roda
A entrevista com José Alberto Panzan revela um setor que opera sob forte pressão: custos elevados, transição energética incerta, falta de motoristas e desafios regulatórios. Ainda assim, transportadoras como a Anacirema buscam eficiência, tecnologia e planejamento para seguir entregando resultados.
A transformação está em curso — mas, como Panzan deixa claro, ela não acontece na velocidade dos discursos, e sim na velocidade possível para quem precisa manter o país em movimento todos os dias.
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