sexta-feira, janeiro 23, 2026

Pedágio eletrônico em debate: especialista explica desafios de comunicação do Free Flow

A modernização do pedágio no Brasil avança em tecnologia, mas ainda enfrenta velhos dilemas: falta de transparência, desequilíbrio tarifário e insegurança jurídica. O tema ganhou contornos de batalha judicial entre o Ministério Público Federal (MPF), a Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) e as concessionárias de rodovias, em torno da legalidade e da forma de punição de quem não paga as tarifas em dia do sistema Free Flow — modelo de pedágio eletrônico sem praças físicas.

Para aprofundar o debate, a Frota News conversou com a advogada Letícia Queiroz de Andrade, sócia-fundadora do escritório Queiroz Maluf Reis, especialista em Direito Público e em projetos de infraestrutura, concessões e Parcerias Público-Privadas (PPPs). Letícia atua há mais de duas décadas na modelagem de contratos de concessão e acompanha de perto a transição tecnológica do setor.

“Free Flow é avanço, mas exige regras claras e comunicação
eficiente”, diz Letícia Queiroz

Para a especialista, o pedágio eletrônico é um passo inevitável e bem-vindo, mas precisa ser implementado com transparência, proporcionalidade e segurança jurídica.

“A ideia do Free Flow é excelente: tornar a tarifa mais proporcional ao uso, ampliar a base de pagantes e reduzir custos operacionais. Mas o sistema precisa de regras claras para evitar judicialização e distorções tarifárias”, afirma.

Segundo a advogada, o modelo permite que o motorista pague apenas pelo trecho efetivamente percorrido, o que corrige uma das distorções históricas do pedágio tradicional — o pagamento integral mesmo em deslocamentos curtos. “Se a tarifa fica mais proporcional, ela tende a ser mais equilibrada. Com mais gente pagando, menos gente tenta fugir do sistema, e o custo unitário cai”, explica.

Batalha jurídica e falta de padronização

A advogada reconhece, contudo, que a transição tem sido marcada por incertezas contratuais e divergências na interpretação da lei. “A grande dúvida é como implantar o Free Flow em contratos antigos, que não previam esse tipo de tecnologia. Como ficam as cláusulas de cobrança? Como ajustar o reequilíbrio econômico-financeiro?”, questiona.

Essas lacunas jurídicas abriram espaço para ações e manifestações de órgãos de controle. O MPF tem cobrado das concessionárias e da ANTT explicações sobre o modelo de cobrança e a destinação dos valores arrecadados.

Evasão, inadimplência e custo de cobrança

Outro ponto sensível é o tratamento da inadimplência — principalmente quando o usuário passa pelo pórtico e não efetua o pagamento. Letícia diferencia evasão (uso da via sem pagar) de inadimplência involuntária (por falta de informação ou problemas no sistema).

O problema é que, em muitos casos, o custo para cobrar o não pagante é maior do que o valor da tarifa. Mandar carta, notificar, acionar
judicialmente — tudo isso onera o sistema e, no fim, quem paga é o usuário que cumpre suas obrigações
”, observa.

Ela defende soluções tecnológicas e administrativas que ampliem os meios de pagamento e reduzam a judicialização. “O motorista precisa conhecer o sistema antes de ser multado. A comunicação deve vir antes da penalidade.”

Lições internacionais e peculiaridades brasileiras

Letícia compara a experiência brasileira à europeia. “Na Alemanha, as rodovias são fechadas, com poucos acessos. Lá é possível controlar a cobrança de forma integral. No Brasil, seria inviável fechar acessos — encravaria municípios e prejudicaria a mobilidade local. Temos uma malha continental, com trechos urbanos e rurais, e isso exige um modelo adaptado à nossa realidade”, explica.

Por isso, o Free Flow, na visão dela, não deve replicar modelos estrangeiros, mas sim incorporar princípios de proporcionalidade e eficiência. “É uma solução moderna e justa, desde que implantada com cuidado e sem transferir riscos indevidos ao usuário.”

Comunicação e confiança: o maior desafio

Mais do que tecnologia ou legislação, Letícia acredita que o desafio central do Free Flow será comunicar bem o novo modelo. “O usuário precisa entender o que está pagando, quanto está pagando e como pagar. A pior forma de conhecer o sistema é através de uma multa”, adverte.

Ela defende que concessionárias e órgãos públicos lancem campanhas de esclarecimento. “Quando o sistema é transparente e bem comunicado, a adesão cresce e a evasão diminui. Esse é o caminho para o pedágio eletrônico se consolidar como uma política pública eficiente.”

A transição para o Free Flow representa um avanço inevitável, mas também um teste de maturidade institucional. Como resume Letícia Queiroz, o sucesso do modelo dependerá menos da tecnologia e mais da coordenação entre governo, concessionárias, órgãos de controle e sociedade.

“O Free Flow é uma inovação necessária. Mas sem clareza nas regras e confiança do usuário, ele corre o risco de começar da pior forma possível — judicializado.”

 

Análise Frota News

As concessionárias de rodovias estão prontas, do ponto de vista tecnológico, para adotar o pedágio eletrônico. O Free Flow é uma realidade inevitável — e positiva — que aproxima o Brasil das melhores práticas internacionais. Mas, enquanto investem em pórticos e sensores, muitas delas esquecem o essencial: comunicar-se com a sociedade.

O setor fala de inovação, mas ainda se comporta como se bastasse instalar a tecnologia e esperar adesão automática. Não basta modernizar o sistema; é preciso conquistar a confiança dos usuários, sendo grande parte prestadores de serviços logísticos. E isso se faz com campanhas educativas.

Da mesma forma, as empresas que operam as tags eletrônicas precisam sair da invisibilidade. Elas são parte da solução — e deveriam disputar espaço no imaginário do usuário com clareza e serviço.

Em resumo, a tecnologia não é o problema; o desafio agora é de comunicação e relacionamento. O sucesso do Free Flow dependerá menos da eficiência dos pórticos e mais da capacidade do setor de falar com quem realmente sustenta o sistema: o usuário da rodovia, incluindo os transportadores.

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Marcos Villela Hochreiter
Marcos Villela Hochreiterhttps://www.frotanews.com.br
Atuo como jornalista no setor da mobilidade desde 1989 em diversas redações. Também nas áreas de comunicação da Fiat e da TV Globo, e depois como editor da revista Transporte Mundial por 22 anos, e diretor de redação de núcleo da Motor Press Brasil. Desde 2018, represento o Brasil no grupo do International Truck of the Year (IToY), associação de jornalistas de transporte rodoviário de 34 países. Desde 2021, também atuo como colaborador na Fabet (Fundação Adolpho Bósio de Educação no Transporte, entidade educacional sem fins lucrativos). Em 2023, fundei a plataforma de notícias de transporte e logística Frota News, com objetivo de focar nos temas que desafiam as soluções para gestão de frotas.
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