Reciclagem automotiva ganha escala no Brasil, e iniciativas do Iveco Group simbolizam nova fase da economia circular

 

Ações do Iveco Group ilustram a transformação estrutural da cadeia automotiva, que avança em desmontagem, remanufatura, logística reversa e metas de circularidade

A agenda de circularidade do Iveco Group em Sete Lagoas, marcada pelo reaproveitamento de materiais, pela logística reversa de lubrificantes e pelo reúso de água industrial, pode ser considerado um dos exemplos da nova fase da reciclagem automotiva no Brasil. Mas o movimento vai muito além de uma única empresa: ele reflete uma reorganização profunda da cadeia automotiva, que passa a tratar resíduos como ativos industriais e incorpora a economia circular como eixo estratégico de competitividade, inovação e sustentabilidade.

A reciclagem deixou de ser um tema periférico e passou a influenciar decisões de engenharia, manufatura, pós-venda e gestão do fim de vida dos veículos. A pressão por circularidade, somada ao avanço regulatório e às metas técnicas que apontam para 80% de conteúdo reciclável ou reutilizável e 85% de recuperabilidade a partir de 2027, acelera a transformação do setor. Cadeias como aço, alumínio e óleo lubrificante já operam em modelos mais maduros, enquanto outras ainda enfrentam gargalos estruturais.

No caso do Iveco Group, a empresa identificou a possibilidade de reaproveitar cerca de 24 mil placas de poliondas por ano, mantendo 24 toneladas de material em circulação por mais tempo. O programa NEXPRO Infinity, desenvolvido em parceria com PETRONAS e Lwart, reforça a maturidade do rerrefino de óleo lubrificante no país. No mesmo complexo, um sistema de osmose reversa permite reutilizar água antes descartada, garantindo economia superior a 10,6 mil metros cúbicos por ano e reaproveitamento mensal de aproximadamente 6 milhões de litros em diferentes aplicações industriais.

A lógica da economia circular amplia o escopo da reciclagem ao prolongar a vida útil de peças, reduzir perdas no design e estruturar cadeias reversas capazes de trazer de volta insumos e veículos para reaproveitamento.

No último dia 9 de junho, o Iveco Group enviou comunicado reafirmado com a adesão ao Movimento Conexão Circular, iniciativa do Pacto Global da ONU – Rede Brasil que reúne organizações comprometidas com o avanço da economia circular no país. A assinatura simbólica da Carta Compromisso foi realizada durante o 4º Fórum Ambição 2030, em São Paulo.

Segundo Lucilene Carvalho, gerente de sustentabilidade do Iveco Group para a América Latina, a participação fortalece a troca de experiências e o desenvolvimento de ações alinhadas à estratégia de sustentabilidade da empresa. Para ela, o uso dos recursos e com o desenvolvimento de novos modelos de negócios justificam participar desse Movimento para aprender com outras organizações, compartilhar experiências e acelerar iniciativa.

Desmanche legal

Entre as montadoras, a Stellantis se destaca com o Centro de Desmontagem Veicular Circular Autopeças, em Osasco, considerado pioneiro na América do Sul. A estrutura recebe veículos em fim de vida ou sinistrados, desmonta componentes com rastreabilidade, reaproveita peças aptas ao reúso e destina o restante à reciclagem ou remanufatura. Com capacidade para processar até 8 mil veículos por ano, o centro utiliza códigos de barras e certificação do Detran-SP para assegurar origem legal das peças. Motores e câmbios seguem para parceiros de remanufatura, enquanto fluidos e materiais são segregados conforme protocolos específicos. A estratégia reduz custos, amplia a oferta de peças acessíveis e combate a informalidade.

A Toyota do Brasil também avança ao combinar reciclagem veicular, prevenção de contaminação ambiental e reaproveitamento criativo de resíduos. Em parceria com a Green Way for Automotive, a montadora desenvolve métodos de desmontagem e reciclagem com foco na descontaminação de óleo residual, fluidos e gases. A meta é reciclar 100 mil toneladas de resíduos automotivos até 2030 e reaproveitar até 85% de um veículo. Internamente, o Projeto ReTornar transforma airbags, tecidos, uniformes e cintos de segurança em mochilas e acessórios produzidos por cooperativas, reaproveitando mais de 24 toneladas de resíduos e impactando mais de 1.700 pessoas.

No aftermarket, a Bosch reforça que a circularidade não depende apenas das montadoras. O programa Recicla Auto Partes já recolheu 76 toneladas de resíduos automotivos, gerou saving de 164 toneladas de CO₂ e opera em 34 oficinas, evidenciando que grande parte dos resíduos nasce na manutenção e reparação. A Volvo Cars, por sua vez, reforça a pressão global ao informar que reciclou 94% dos resíduos de produção em 2022 e mantém meta de chegar a 99% até 2030, sinalizando que sustentabilidade se tornou requisito de competitividade.

Apesar dos avanços, o Brasil ainda enfrenta obstáculos como heterogeneidade regulatória, infraestrutura insuficiente, informalidade no desmanche, dificuldade de rastrear materiais e desafios técnicos na descontaminação de fluidos e separação de materiais complexos. Muitos projetos funcionam bem como pilotos, mas ainda precisam ganhar escala nacional. A Lei de Incentivo à Reciclagem, no entanto, cria ambiente mais favorável ao investimento, enquanto o debate técnico sobre reciclabilidade e recuperabilidade começa a influenciar o desenvolvimento dos veículos desde a origem.

O impacto econômico é crescente. O mercado de reciclagem automotiva e peças usadas certificadas é visto como oportunidade bilionária, capaz de reduzir custos de reposição, diminuir dependência de insumos virgens e abrir novos negócios em remanufatura, triagem, certificação e serviços ambientais. Para o país, o avanço dessa agenda significa maior produtividade, inovação e formalização.

O setor caminha para uma combinação de cinco vetores: expansão da desmontagem legalizada, crescimento da remanufatura, profissionalização da logística reversa, integração entre reciclagem e projeto do produto e pressão regulatória por conteúdo reciclável. A reciclagem deixa de ser apêndice e passa a integrar a arquitetura de negócios. O veículo em fim de vida deixa de ser resíduo e se torna estoque de materiais e componentes. O avanço é real, ainda que desigual, e marca o início de um novo ciclo em que reciclar não é apenas destinar melhor, mas redesenhar a cadeia para produzir, reparar, reaproveitar e descartar com menos perdas e mais valor.

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Marcos Villela Hochreiter
Marcos Villela Hochreiterhttps://www.frotanews.com.br
Atuo como jornalista no setor da mobilidade desde 1989 em diversas redações. Também nas áreas de comunicação da Fiat e da TV Globo, e depois como editor da revista Transporte Mundial por 22 anos, e diretor de redação de núcleo da Motor Press Brasil. Desde 2018, represento o Brasil no grupo do International Truck of the Year (IToY), associação de jornalistas de transporte rodoviário de 34 países. Desde 2021, também atuo como colaborador na Fabet (Fundação Adolpho Bósio de Educação no Transporte, entidade educacional sem fins lucrativos). Em 2023, fundei a plataforma de notícias de transporte e logística Frota News, com objetivo de focar nos temas que desafiam as soluções para gestão de frotas.
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