sexta-feira, abril 3, 2026

JAC acelera na América do Sul, mas amplia portfólio inicialmente na Argentina. Brasil segue sem novidades

Enquanto a JAC Motors desenha uma ofensiva clara e estruturada para o mercado argentino a partir de 2026, o cenário brasileiro segue sem novidades. Na Argentina, a montadora chinesa aposta em diversidade de powertrains, eletrificação em múltiplos segmentos e presença institucional forte junto ao consumidor. No Brasil, porém, a marca mantém uma atuação discreta, sem anúncios relevantes de novos produtos em comerciais leves, picapes e automóveis ou estratégias equivalentes no curto prazo. A exceção fica somente para a JAC Caminhões.

Na prática, a operação argentina da JAC avança em três frentes estratégicas: ampliação do portfólio, incorporação de novas tecnologias de propulsão e fortalecimento de marca. O anúncio de novas versões do utilitário Sunray — incluindo opções elétrica e a combustão — sinaliza foco no transporte profissional, segmento sensível a custos operacionais e cada vez mais atento a soluções de menor emissão. Já a família JACT9 evolui para um patamar mais sofisticado, com a confirmação de versões híbrida plug-in (PHEV) e 100% elétrica (EV), algo ainda raro no competitivo mercado de picapes médias da região.

A chegada do JS9, um SUV 4×4 premium com proposta claramente voltada ao uso off-road, completa a estratégia de cobertura de nichos específicos, reforçando a imagem da marca como fornecedora de soluções variadas — do trabalho pesado ao lazer e ao uso familiar. Essa abordagem contrasta com o Brasil, onde a JAC, apesar de ter sido uma das pioneiras na oferta de veículos elétricos, perdeu protagonismo justamente no momento em que a eletrificação ganha tração no mercado.

Outro ponto que diferencia as duas operações é a comunicação e a presença física junto ao público. Na Argentina, a marca confirmou um espaço próprio em Cariló, na Costa Atlântica, durante toda a temporada de verão, exibindo modelos estratégicos como o JS6 PHEV, o EV 30X e a JACT9 em versões mais sofisticadas. Trata-se de uma ação de branding relevante, que aproxima a tecnologia do consumidor final em um ambiente aspiracional.

JS6 PHEV

Do ponto de vista técnico, os produtos anunciados reforçam a ambição da JAC no país vizinho. O JS6 PHEV, com potência combinada de 310 cv e autonomia total declarada de até 1.150 km, posiciona-se como uma alternativa competitiva frente a SUVs híbridos de marcas tradicionais, com preço agressivo. O EV 30X, por sua vez, mira a mobilidade urbana elétrica, enquanto a JACT9 turbodiesel mantém uma proposta clássica para quem ainda depende do diesel no uso intensivo. A coexistência de combustão, híbridos e elétricos no mesmo portfólio evidencia uma leitura pragmática do mercado argentino, ainda marcado por desafios econômicos, mas aberto à diversificação tecnológica.

O movimento da JAC na Argentina reforça uma tendência regional: marcas chinesas estão dispostas a ocupar espaços deixados por fabricantes tradicionais, especialmente na transição energética. Se, no país vizinho, a estratégia é de avanço e diversificação, no Brasil o desafio será não perder relevância em um mercado mais disputado por novas marcas chinesas, ainda que lentamente, para novas soluções de mobilidade.

Acompanhe notícias selecionadas que importam para o setor de transporte de carga e logística:
➡️ Acompanhe nossas redes sociais: LinkedInInstagram e Facebook
➡️ Inscreva-se no canal do Videocast FrotaCast

Um cliente na França compra mais comercial elétricos do que todo o mercado brasileiro

A distância entre Europa e Brasil na adoção de veículos elétricos para o transporte de carga deixou de ser apenas conceitual e passou a ser estatística. Os números mais recentes de emplacamentos escancaram uma assimetria que vai muito além da oferta de produtos.

Na França, apenas um único cliente — o Grupo Petit Forestier, especializado em locação de veículos refrigerados — já colocou cerca de 300 unidades do Iveco eDaily em operação. No Brasil, em sentido oposto, a Iveco emplacou apenas duas unidades do eDaily no acumulado de 2025, segundo dados da Fenabrave.

O contraste fica ainda mais evidente quando se observa o mercado como um todo: a soma das vendas de comerciais leves elétricos de carga e passageiros de 15 marcas diferentes totalizou 351 unidades nos 11 primeiros meses de 2025 — pouco mais do que o volume adquirido por uma única empresa europeia.

Iveco
Dados de emplacamentos de comerciais leves elétricos. Fonte: Fenabrave

Um abismo que vai além do preço

À primeira vista, a explicação poderia recair apenas sobre fatores conhecidos no Brasil: custo elevado dos veículos elétricos, infraestrutura de recarga limitada e ausência de incentivos consistentes. No entanto, o caso do Grupo Petit Forestier mostra que a diferença está também na forma como o veículo elétrico é inserido no ecossistema logístico.

Em setembro de 2022, o grupo francês assinou um acordo que prevê a encomenda de 2.000 chassis-cabine Iveco eDaily, equipados com carrocerias frigorificadas da Lecapitaine. O contrato não se limita à compra de veículos; ele integra uma estratégia ampla de descarbonização, alinhada às zonas de baixa emissão (ZFE) que se multiplicam nas cidades europeias e restringem cada vez mais o acesso de veículos a diesel.

Nesse contexto, o caminhão ou furgão elétrico deixa de ser um “ativo caro” e passa a ser um instrumento de viabilidade operacional, garantindo acesso a áreas urbanas, entregas silenciosas e previsibilidade regulatória.

Locação como catalisador da eletrificação

Outro ponto-chave é o papel do modelo de locação. Ao assumir o investimento inicial e oferecer o veículo como serviço, o Grupo Petit Forestier dilui riscos para seus clientes e acelera a adoção da tecnologia. A eletrificação, assim, não depende da decisão individual de cada operador logístico, mas de uma estratégia centralizada, com escala e padronização.

“Para enfrentar os desafios ambientais, nosso objetivo é oferecer aos clientes meios para operar ativos com menores emissões. Por isso, apoiamos ativamente a descarbonização de suas frotas”, afirma Yann Leriche, diretor de Ativos e Suprimentos do Grupo Petit Forestier.

No Brasil, onde a locação de veículos comerciais ainda avança de forma mais tímida no segmento de carga urbana especializada, essa alavanca praticamente não existe. A decisão de compra segue concentrada no operador final, que enfrenta margens apertadas, insegurança regulatória e ausência de incentivos fiscais robustos.

Leia mais:

Iveco financia caminhões a juros zero na Argentina

Iveco
Fonte: Iveco Argentina

Em outra comparação, agora entre Brasil e Argentina, há um contraste marcante no acesso ao crédito para caminhões. Enquanto o Brasil opera com taxa Selic de 15% ao ano, encarecendo financiamentos e dificultando a renovação de frota, a Iveco Argentina conseguiu estruturar linhas de crédito muito mais competitivas, incluindo ofertas com juros nominais zero para prazos curtos. O cenário brasileiro reflete um ambiente macroeconômico restritivo, no qual o custo do dinheiro impacta diretamente transportadores, frotistas e o custo logístico do país.

Na Argentina, a Iveco Capital aposta em financiamentos em dólares e em pesos, com taxas fixas e prazos de até 36 meses, como estratégia para estimular o mercado. Há desde operações com TNA de 0% para contratos de até 11 meses até financiamentos mais longos com taxas ainda inferiores às praticadas no Brasil. Segundo a empresa, a combinação de previsibilidade, taxas competitivas e flexibilidade busca acompanhar o crescimento dos clientes e reforça como o crédito pode ser usado como ferramenta comercial, em contraste com a realidade enfrentada hoje pelo transportador brasileiro.

Acompanhe notícias selecionadas que importam para o setor de transporte de carga e logística:
➡️ Acompanhe nossas redes sociais: LinkedInInstagram e Facebook
➡️ Inscreva-se no canal do Videocast FrotaCast

Stellantis testa furgões Fiat e Citroën movidos a diesel verde HVO

A Stellantis avança para competir no segmento de frotistas que buscam soluções descarbonização do transporte ao já disponibilizar, no mercado europeu, seus furgões compatíveis com o diesel verde HVO (Hydrotreated Vegetable Oil). A iniciativa ganha destaque com a apresentação do Citroën Berlingo para teste com HVO Aurora, um projeto que busca comprovar, em condições reais de uso, a capacidade do combustível renovável de reduzir emissões de CO₂ sem a necessidade de trocar veículos ou investir em novas infraestruturas.

Desenvolvido em parceria com a empresa francesa SPH3, especializada em sensores inteligentes aplicados a combustíveis, o ensaio também conta com um Fiat Ducato. O objetivo central é demonstrar que frotas e usuários individuais podem obter ganhos ambientais imediatos, utilizando veículos a diesel já em circulação, apenas substituindo o combustível convencional pelo HVO.

Leia também

Redução de emissões sem troca de frota

O teste com HVO Aurora parte de um desafio concreto do setor de transportes: como reduzir emissões no curto prazo, considerando que milhões de veículos com motor a combustão continuarão ativos por mais anos. Nesse contexto, o HVO surge como uma solução de transição, capaz de reduzir de forma significativa as emissões de CO₂ ao longo de todo o ciclo de vida do combustível, sem exigir alterações técnicas nos veículos.

Produzido a partir de resíduos, como óleos de cozinha usados e gorduras animais, o diesel verde HVO está alinhado aos princípios da economia circular. Além da redução de emissões, o combustível apresenta total compatibilidade com os motores a diesel da Stellantis, podendo ser utilizado imediatamente, sem adaptações mecânicas ou logísticas.

Monitoramento em tempo real e dados verificáveis

Um dos diferenciais do projeto é o uso de tecnologia avançada de monitoramento. Por meio dos sensores desenvolvidos pela SPH3, o programa acompanha o consumo real do HVO, estima as emissões de CO₂ em tempo real e gera documentação que comprova os benefícios ambientais obtidos. A proposta é oferecer dados objetivos e auditáveis, reforçando a credibilidade do uso de combustíveis renováveis no transporte rodoviário europeu.

Esse acompanhamento técnico permite demonstrar que soluções mais limpas não precisam, necessariamente, estar associadas a altos investimentos iniciais em renovação de frota ou infraestrutura, fator considerado estratégico para operadores logísticos e empresas de transporte.

Inovação interna e colaboração industrial

O HVO Aurora nasceu dentro do programa Star*Up, uma plataforma interna da Stellantis voltada ao incentivo de ideias inovadoras propostas por seus próprios colaboradores. O projeto exemplifica como a articulação entre talentos internos, parceiros tecnológicos e a indústria pode acelerar a adoção de soluções sustentáveis em escala.

Nesse cenário, o Citroën Berlingo assume um papel simbólico e prático: além de banco de testes tecnológico, representa um modelo energético mais eficiente, circular e escalável, com aplicação direta no transporte urbano e de última milha.

A iniciativa seguirá em um giro por diferentes cidades da Europa, com dois objetivos principais: ampliar a coleta de dados em variados cenários de uso e compartilhar conhecimento técnico sobre o emprego de combustíveis renováveis. A proposta tem caráter pedagógico e técnico, buscando ampliar a compreensão do papel que soluções como o HVO podem desempenhar na transição energética do setor de transportes.

Compatibilidade imediata na gama Stellantis

Segundo a montadora, todos os automóveis e veículos comerciais leves da Stellantis atualmente vendidos na Europa são totalmente compatíveis com o diesel HVO, em conformidade com a norma EN15940. Além disso, uma parcela significativa dos veículos a diesel Euro 5 e Euro 6 já em circulação também pode utilizar o combustível sem qualquer modificação.

Acompanhe notícias selecionadas que importam para o setor de transporte de carga e logística:
➡️ Acompanhe nossas redes sociais: LinkedInInstagram e Facebook
➡️ Inscreva-se no canal do Videocast FrotaCast

HVO avança na Europa e expõe atraso do Brasil na corrida pelo diesel verde 

Com dados de uma reportagem técnica da revista espanhola de grande reputação “Camion Actualidad” sobre a expansão do HVO (Óleo Vegetal Hidrotratado) como a alternativa mais eficiente e econômica ao diesel em 2025, a Frota News abre o debate se o Brasil ainda patina na regulamentação e na produção desse biocombustível avançado. A comparação entre os dois países revela caminhos distintos e aponta oportunidades estratégicas para o setor de transporte brasileiro. 

Espanha: HVO já é realidade e lidera o TCO no transporte pesado 

Segundo o relatório “TCO y emisiones de CO₂ en España: camiones diésel y alternativos en 2025”, elaborado por IRU (União Internacional dos Transportes Rodoviários, entidade global que representa empresas de transporte e logística e produz estudos, dados e recomendações para o setor), o HVO se tornou a melhor alternativa ao diesel e biodiesel tradicional para o transporte pesado. O HVO é uma alternativa superior ao biodiesel brasileiro, considerado ainda de primeira geração e com muitos problemas de controle de qualidade em sua produção e logística de distribuição.  

Leia também
Principais destaques do cenário espanhol 
  • Emissões até 90% menores: caminhões a HVO emitem entre 94 e 105 gCO₂/km, contra mais de 900 gCO₂/km do diesel fóssil. 
  • Melhor TCO do mercado: 
  • HVO: 0,64 €/km (R$ 4,17/km) 
  • Diesel moderno: 0,66 €/km (R$ 4,30/km) 
  • GNC/GNL: 0,75 €/km (R$ 4,89/km) 
  • Elétricos: 0,80 €/km (R$ 5,22/km) 
  • Hidrogênio: 1,00 €/km+ (R$ 6,52/km+) 
  • Sem necessidade de adaptar veículos ou infraestrutura. 
  • Estratégia nacional clara: renovação da frota com motores modernos e uso imediato de combustíveis renováveis. 
  • Validação acadêmica: estudo revisado pela Graz University of Technology. 

A Espanha encara o HVO como solução imediata, enquanto eletrificação e hidrogênio avançam em paralelo, mas ainda com limitações de custo e infraestrutura. Aliás, em 2025, segundo publicado pela revista “Exame”, os 60 maiores projetos globais para produção de hidrogênio verde foram cancelados por problemas de viabilidade econômica.  

Brasil: potencial gigantesco, mas sem marco regulatório 

O Brasil possui uma das maiores capacidades do mundo para produzir HVO — graças à abundância de soja, sebo bovino, palma e outras matérias‑primas — mas ainda não transformou esse potencial em política pública ou escala industrial. 

Principais desafios brasileiros 
  • Ausência de regulamentação específica para HVO. 
  • Dependência do biodiesel FAME, que tem limitações técnicas para uso em motores pesados modernos. 
  • Produção nacional incipiente, com projetos ainda em fase de implantação. 
  • Custo elevado, já que parte do HVO disponível é importada. 
  • Falta de incentivos fiscais e metas de descarbonização para o transporte rodoviário. 

O que significa dependência do biodiesel FAME, que tem limitações técnicas para uso em motores pesados modernos? 

No Brasil, o principal biocombustível renovável usado hoje é o biodiesel FAME (Fatty Acid Methyl Ester), que é o biodiesel tradicional misturado ao diesel comum — atualmente na proporção B15. 

Mas o FAME tem limitações técnicas importantes, especialmente para caminhões modernos Euro 5 e Euro 6: 

FAME x HVO: Diferenças que o gestor de frotas precisa conhecer 

O que são 

  • FAME (Biodiesel tradicional)  
  • Éster metílico de ácidos graxos. É o biodiesel usado na mistura obrigatória do diesel brasileiro (B15). 
  • HVO (Óleo Vegetal Hidrotratado). Biocombustível avançado, quimicamente semelhante ao diesel mineral, produzido por hidrotratamento. 
Comparativo Técnico 
Critério  FAME (Biodiesel)  HVO (Diesel Renovável) 
Compatibilidade com motores modernos  Limitada acima de 15%  Total (pode ser usado puro – HVO100) 
Estabilidade térmica  Baixa (oxida e degrada)  Muito alta 
Risco de formação de borras  Alto  Praticamente zero 
Absorção de água  Alta  Quase nula 
Performance em clima frio  Pode gelificar  Excelente fluidez 
Densidade energética  Menor que o diesel  Igual ou superior ao diesel 
Emissões  Reduzidas, mas variáveis  Redução de até 90% de CO₂ 
Necessidade de adaptação  Nenhuma, mas com limites  Nenhuma, inclusive para uso 100% 

Impacto no Transporte Pesado 

FAME  

Funciona, mas traz riscos operacionais em motores Euro 5 e Euro 6, especialmente em frotas que não contam com uma manutenção rigorosa. 

HVO  

Entrega desempenho igual ou superior ao diesel, com emissões muito menores e sem impacto na manutenção. 

O FAME é importante para a matriz energética brasileira, mas não atende plenamente às exigências dos motores pesados modernos. 

O HVO, por sua vez, é um biocombustível avançado, mais estável, mais limpo e totalmente compatível com a frota atual — sendo a solução mais imediata para descarbonizar o transporte pesado sem alterar infraestrutura. 

Consumo atual de HVO na Europa e Estados Unidos

O consumo de HVO cresce rapidamente na Europa, que hoje é o maior mercado global desse biocombustível avançado. Em 2024, os países da União Europeia utilizaram cerca de 5,6 milhões de toneladas, impulsionados por metas rígidas de descarbonização e políticas como a RED III. O HVO já é o segmento mais dinâmico dentro do mercado europeu de biodiesel, com forte uso de matérias‑primas residuais e expansão contínua desde 2019.

Nos Estados Unidos, o cenário também é de forte expansão. O país produziu 10,2 milhões de toneladas de biodiesel em 2022 (somando FAME e HVO), e o diesel renovável vem ganhando participação rapidamente graças a programas como o RFS e o LCFS da Califórnia. Embora os dados oficiais não separem totalmente o HVO do biodiesel tradicional, o mercado norte‑americano já aponta para um crescimento acelerado do HVO, especialmente em estados com políticas ambientais mais rigorosas. 

Brasil precisa agir para não perder a janela de oportunidade 

A experiência espanhola mostra que o HVO pode ser a solução mais imediata, econômica e sustentável para o transporte pesado. O Brasil, com sua abundância de matéria‑prima e forte setor agroindustrial, tem condições de se tornar líder mundial na produção desse combustível — mas depende de decisões regulatórias e industriais urgentes. 

Enquanto isso, gestores de frotas brasileiros podem acompanhar de perto o avanço europeu e pressionar por políticas que permitam ao país acelerar sua própria transição energética. 

Acompanhe notícias selecionadas que importam para o setor de transporte de carga e logística:
➡️ Acompanhe nossas redes sociais: LinkedInInstagram e Facebook
➡️ Inscreva-se no canal do Videocast FrotaCast

Maria Caminhoneira Sertania: coragem feminina que corta as estradas do sertão

Na estreia literária de Samuel Britto, a trajetória de uma mulher preta, mãe solo e caminhoneira transforma dor em resistência e faz do caminhão-pipa um símbolo de sobrevivência e identidade no interior de Pernambuco.

Entre o pó das estradas sertanejas e o sol inclemente do Nordeste, uma mulher assume a boleia e muda o rumo da própria história. Em Maria Caminhoneira Sertania e seus Contos Heroicos, Românticos, Sertanejos, Samuel Britto estreia na literatura narrando a vida de Maria Sertania Ferreira da Conceição Ventura — personagem inspirada na realidade de tantas mulheres invisibilizadas pelo machismo, pelo racismo e pela pobreza estrutural. A obra nasce como manda a tradição do sertão: em forma de cordel, convidando o leitor a “escutar” uma prosa que carrega a verdade dura e bonita de seu povo.

Ambientada no sertão de Pernambuco entre as décadas de 1970 e 1990, a narrativa acompanha Maria Sertania desde a infância marcada por um sonho improvável para a época: dirigir um caminhão. O desejo, grande demais para uma menina preta e de pouco estudo, ganha contornos dramáticos após a morte trágica do marido caminhoneiro e a perda do filho caçula durante o parto. Mãe solo, ela se vê obrigada a assumir o volante do velho caminhão-pipa Trovoada, que deixa de ser apenas ferramenta de trabalho para se tornar extensão de sua identidade.

Leia também

Pelas estradas poeirentas, Maria leva água a comunidades castigadas pela seca — um serviço essencial em tempos de escassez —, mas transporta também histórias, tradições e dores coletivas. Mesmo dependendo do frete para sustentar os filhos, frequentemente não consegue negar ajuda a quem nada tem. No Trovoada, decorado com objetos de devoção, enfrenta jornadas longas, humilhações silenciosas e a dureza do preconceito. Ainda assim, segue firme, orgulhosa da origem e do legado que constrói para a família e para o povo sertanejo.

Em passagens de forte carga poética, a personagem revela seus pensamentos mais íntimos. “Sonho qui vai chegá o dia qui todas as Maria Sertania do Sertão, do Nordeste, do Brasil e do mundo, vão chegá aondi quisé”, reflete, em linguagem simples e sertaneja, sintetizando o desejo de mobilidade, dignidade e futuro — não só para si, mas para tantas outras mulheres como ela.

A história se amplia com personagens que espelham as múltiplas faces do sertão: filhos que crescem e constroem seus próprios caminhos; relações atravessadas por preconceitos históricos; e a chegada do poderoso fazendeiro árabe Zayn Al-Madini, símbolo das estruturas de poder que tentam se impor sobre a sertaneja. Maria resiste. Sua postura expõe desigualdades sociais profundas e reafirma a força feminina em um ambiente tradicionalmente masculino.

Autor de cerca de 23 mil produções e roteiros para a televisão, com quase 700 histórias nordestinas exibidas em programas nacionais, Samuel Britto aposta no regionalismo linguístico como escolha estética e política. Ao valorizar a oralidade e a cultura local, o jornalista pernambucano reforça a identidade do sertão sem estigmas. “Meu objetivo na escrita é promover, acima de tudo, o respeito à diversidade e a inclusão regional sem estigmas do nosso povo”, afirma.

Mais do que a história de uma personagem específica, Maria Caminhoneira Sertania se apresenta como representação coletiva. É a narrativa de mulheres que resistem, sonham e seguem em frente apesar das adversidades — no sertão, no Nordeste, no Brasil e no mundo. Não por acaso, o livro já deu origem a um roteiro de longa-metragem aprovado pela Lei Federal de Incentivo Cultural Paulo Gustavo, ampliando o alcance de uma história que nasceu na estrada e ecoa muito além dela.

Ficha técnica

Título: Maria Caminhoneira Sertania e seus Contos Heroicos, Românticos, Sertanejos
Autor: Samuel Britto
Editora: Viseu
ISBN: 6528019592
Páginas: 314
Onde encontrar:

  • Amazon e-book (R$ 31,95) | Livro físico (R$ 63,90)
  • Estante Virtual (R$ 63,90)
  • Mercado Livre (R$ 63,90)
  • Livraria Martins Fontes – livro digital (R$ 31,95)
Maria Caminhoneira
Samuel Britto

Sobre o autor:
Samuel Britto é jornalista pernambucano, natural de Petrolina, no sertão do Vale do São Francisco, e pós-graduado em Letras pela Universidade de Pernambuco (UPE). Ao longo da carreira, produziu e roteirizou cerca de 23 mil conteúdos jornalísticos e de entretenimento, com mais de 50 mil personagens. A obra marca sua estreia na literatura e já está presente em livrarias e plataformas digitais de mais de 15 países.

Acompanhe notícias selecionadas que importam para o setor de transporte de carga e logística:
➡️ Acompanhe nossas redes sociais: LinkedInInstagram e Facebook
➡️ Inscreva-se no canal do Videocast FrotaCast

Cotrasa expande operações em Guarapuava com nova oficina e mais de 300 empregos

A Cotrasa reinaugurou sua unidade de Guarapuava (PR) com uma estrutura ampliada para atender ao aumento da demanda na região, por onde circulam mais de 3 mil veículos Scania mensalmente. A nova instalação, às margens da BR‑277, conta com 2.557 m² de área construída, 16 boxes de atendimento e capacidade estimada para realizar entre 400 e 500 serviços por mês, incluindo manutenção preventiva e corretiva, diagnósticos avançados e reparos diversos. A expansão também resultou no aumento do quadro de funcionários, totalizando mais de 300 empregos diretos e indiretos.

A unidade passou a oferecer infraestrutura de apoio aos motoristas, como refeitório, banheiros com duchas, lavanderia e sala de descanso. A reinauguração reforça a presença da Cotrasa no Paraná, onde opera nove unidades, e integra a rede nacional da Scania, que soma 246 pontos de atendimento distribuídos pelo país.

“Esse investimento reforça o compromisso da Cotrasa com a experiência do cliente. Estamos muito felizes pela oportunidade de escrever um novo capítulo para a história da Cotrasa e de Guarapuava. Após 40 anos, entregamos um presente aos nossos clientes, à cidade e região. Temos orgulho de sermos paranaenses e de oferecer um atendimento ainda melhor, sem dúvida, superando as expectativas”, afirma Cristiano Locatelli, diretor comercial da Casa Scania Cotrasa.

Eletra ultrapassa 400 ônibus elétricos em operação em São Paulo

Leia também:
últimas notícias
Mais 40 ônibus elétricos da Eletra entregues em São Paulo

A Eletra Industrial superou a marca de 400 ônibus elétricos em operação em São Paulo e já possui cerca de 600 novas unidades encomendadas, reforçando sua liderança no transporte coletivo de baixa emissão no país. Durante evento com o prefeito Ricardo Nunes, a empresa entregou mais 40 veículos — 25 para a Transunião, na zona Leste, e 15 para a A2 Transportes, na zona Sul — todos com piso baixo, ar-condicionado, Wi-Fi e USB.

Responsável por cerca de 64% da frota nacional de ônibus elétricos, a Eletra projeta ultrapassar mil unidades apenas na capital nos próximos anos e destaca sua capacidade de personalização dos modelos, além do serviço Eletra Consult, que apoia operadores em todo o processo de eletrificação, da infraestrutura ao pós-venda.

VWCO inaugura três novas concessionárias no Brasil

A Volkswagen Caminhões e Ônibus ampliou sua presença no Brasil com a inauguração de três novas concessionárias, chegando a 148 pontos de atendimento entre lojas plenas e PATs.

No Maranhão, a nova unidade Tocauto VW Caminhões, em Balsas, construída do zero, reforça o atendimento a uma região marcada pelo agronegócio.

Em Minas Gerais, o Grupo Bravo abriu concessionárias em Governador Valadares e Coronel Fabriciano, passando a operar quatro lojas no estado, onde suas operações já representam mais de 30% do faturamento, resultado de investimentos guiados por estudos de mercado e infraestrutura.

Acompanhe notícias selecionadas que importam para o setor de transporte de carga e logística:
➡️ Acompanhe nossas redes sociais: LinkedInInstagram e Facebook
➡️ Inscreva-se no canal do Videocast FrotaCast

Segurança embarcada: o que a indústria brasileira de implementos rodoviários pode aprender com o movimento global

A indústria global de fabricação de reboques atravessa um período de consolidação acelerada. Mas, paralelamente à busca por escala e eficiência produtiva, um novo eixo estratégico vem ganhando protagonismo: a segurança dos ativos ao longo de toda a cadeia logística. Do chão de fábrica aos pátios de cargas, garantir integridade, rastreabilidade e proteção de reboques e mercadorias de alto valor tornou-se uma prioridade industrial — e não apenas operacional. É nesse ponto que surgem lições relevantes para a indústria brasileira de implementos rodoviários.

Os dados internacionais ajudam a dimensionar o problema. Segundo a Transported Asset Protection Association (TAPA), o crime relacionado a cargas custa mais de € 8,2 bilhões por ano — algo em torno de R$ 53,4 bilhões — às empresas na Europa. Apenas na Alemanha, as perdas ultrapassam € 2,2 bilhões anuais, o equivalente a cerca de R$ 14,3 bilhões, associadas a aproximadamente 26 mil ataques a caminhões. No Brasil, o cenário também é crítico: foram registrados 10.478 roubos de carga em 2024, gerando prejuízos estimados em R$ 1,2 bilhão.

Esse cenário explica por que a segurança deixou de ser um “acessório” e passou a ser tratada como atributo de projeto pelos grandes OEMs globais de reboques.

Leia também

Segurança desde o design: uma mudança de paradigma

No mercado internacional, a resposta tem sido clara: incorporar tecnologias de segurança diretamente no processo de fabricação do implemento. Fechaduras inteligentes, controle de acesso digital, sensores embarcados, telemática integrada e geofencing já não são diferenciais — caminham para se tornar padrão.

As fechaduras inteligentes comerciais para trailers utilizam conectividade sem fio (Bluetooth, Wi-Fi ou redes celulares), permitindo travamento e destravamento remoto, autenticação por PIN, RFID ou biometria, além do registro de eventos e tentativas de violação. Integradas a plataformas telemáticas, essas soluções substituem sistemas mecânicos tradicionais — como lacres descartáveis e cadeados — reconhecidamente vulneráveis à adulteração.

De acordo com a Market Intelo, o mercado global de fechaduras inteligentes para trailers foi avaliado em US$ 1,2 bilhão em 2024, o que corresponde a cerca de R$ 6,65 bilhões, e pode chegar a US$ 4,3 bilhões até 2033, equivalente a aproximadamente R$ 23,8 bilhões, considerando a cotação atual. A digitalização dos negócios, o avanço da IoT, o aumento do roubo de cargas e exigências regulatórias mais rígidas estão entre os principais vetores dessa expansão.

Casos globais: quando o trailer vira um ativo conectado

Fabricantes europeus ilustram bem essa tendência. A Schmitz Cargobull, por exemplo, lançou o sistema eletrônico de travamento TL4, integrado à plataforma telemática TrailerConnect. A solução permite configurar geofences de embarque e desembarque, destravando ou travando automaticamente as portas conforme a localização do reboque. Todos os eventos ficam documentados, criando uma trilha digital de custódia da carga.

Já a Krone aposta em digitalização ampla da operação com o KRONE Smart Assistant e a plataforma mykrone.blue. Cada trailer recebe um QR Code individual, permitindo que motoristas, via smartphone e aplicativos de mensagens, reportem avarias, realizem checklists legais de saída e acessem documentos técnicos em tempo real. O foco declarado é reduzir tempo de inatividade e melhorar o custo total de propriedade (TCO).

Empresas como TIP Group e Idem Telematics reforçam essa abordagem ao tratar a telemática como núcleo do gerenciamento de implementos, integrando sensores de portas, temperatura, pneus e unidades de refrigeração sem necessidade de hubs intermediários. Para esses players, conectividade e dados em tempo real são a base para uma gestão proativa, e não reativa, da frota.

América do Norte e Ásia aceleram — e pressionam padrões globais

Os Estados Unidos lideram a adoção de fechaduras inteligentes para implementos, com cerca de 38% da participação global. Já a Ásia-Pacífico deve registrar o maior crescimento até 2033, impulsionada pelo comércio eletrônico, urbanização e investimentos em infraestrutura. Esse avanço tende a pressionar cadeias globais por maior padronização tecnológica, interoperabilidade e segurança “by design”.

Para a indústria brasileira de implementos rodoviários, que já disputa mercados externos e atende operadores logísticos cada vez mais sofisticados, essa mudança de padrão global é um alerta claro: segurança embarcada e conectividade deixarão de ser opcionais.

E no Brasil? Há sinais de convergência

Embora o mercado brasileiro ainda esteja em estágio menos avançado em comparação à Europa e aos EUA, já existem exemplos relevantes de tecnologias alinhadas a esse movimento global. Fabricantes nacionais de implementos e sistemistas vêm ampliando a oferta de soluções telemáticas embarcadas, sensores de portas, rastreamento via GPS e integração com plataformas de gestão de frotas.

Empresas brasileiras de rastreamento e telemetria oferecem hoje soluções com monitoramento em tempo real, alertas de abertura indevida de portas, geofencing e integração com TMS e ERPs logísticos. No segmento de implementos frigorificados, sensores de temperatura e abertura de portas já são utilizados por grandes operadores para atender exigências de seguradoras e embarcadores.

Além disso, iniciativas voltadas à serialização de componentes, uso de QR Codes para rastreabilidade de chassi e peças, e integração com sistemas antifurto mostram que o ecossistema nacional começa a absorver conceitos semelhantes aos adotados por OEMs globais — ainda que, em muitos casos, como soluções adicionadas após a fabricação, e não incorporadas desde o projeto.

O desafio brasileiro: ir além do “acessório”

A principal lição da indústria global não está apenas na tecnologia em si, mas na forma como ela é tratada. No exterior, segurança, conectividade e cibersegurança são pensadas desde o design do implemento, integradas à arquitetura elétrica, eletrônica e de dados do semirreboque.

No Brasil, o desafio é avançar desse modelo “plug-and-play” para uma abordagem mais estrutural, em que implementos já saiam de fábrica preparados para integração telemática, controle de acesso digital e atualização remota de sistemas. Isso inclui, necessariamente, atenção à cibersegurança — tema que ganha peso à medida que trailers se tornam ativos conectados.

Relatórios recentes da Maersk, da NMFTA e da Gartner apontam que ataques cibernéticos, phishing com uso de IA e exploração de vulnerabilidades em sistemas conectados serão um dos maiores riscos logísticos nos próximos anos. Para fabricantes de implementos, isso significa adotar o conceito de secure by design, com maior transparência sobre dispositivos embarcados, controle de acesso e proteção de dados.

Um novo posicionamento estratégico

A indústria brasileira de implementos rodoviários tem tradição em engenharia, adaptação a condições severas e competitividade de custos. Ao observar o movimento global, fica claro que o próximo passo estratégico passa pela incorporação da inteligência digital e da segurança como atributos centrais do produto.

Mais do que atender exigências de seguradoras ou grandes embarcadores, investir em trailers conectados, seguros e integrados pode se tornar um diferencial competitivo — inclusive para exportação. O exemplo internacional mostra que, em um mercado cada vez mais orientado por dados, quem vende apenas aço e solda tende a perder espaço para quem entrega ativos inteligentes, rastreáveis e seguros ao longo de todo o ciclo logístico.

Acompanhe notícias selecionadas que importam para o setor de transporte de carga e logística:
➡️ Acompanhe nossas redes sociais: LinkedInInstagram e Facebook
➡️ Inscreva-se no canal do Videocast FrotaCast

Acidentes nas rodovias federais atingem recorde e ampliam demanda por resposta emergencial no país

0

O Brasil voltou a registrar o maior número de acidentes, mortes e feridos graves nas rodovias federais desde 2018, segundo o estudo mais abrangente já produzido sobre o tema pela Fundação Dom Cabral (FDC). Elaborado pela Plataforma de Infraestrutura em Logística de Transporte (PILT/FDC), o levantamento analisa a evolução das ocorrências entre 2018 e 2024 e traça um retrato detalhado da dinâmica dos acidentes em trechos com maior intensidade de tráfego, evidenciando riscos persistentes à segurança viária e impactos diretos sobre a logística nacional.

Com base em dados do DNIT sobre volume de tráfego e da Polícia Rodoviária Federal (PRF) sobre acidentes, a pesquisa considera apenas rodovias com fluxo mínimo de mil veículos por dia. O estudo reúne 72 análises que permitem recortes por tipo de acidente, classe de veículo, traçado viário, horário, dia da semana e condições climáticas, entre outros fatores. Os acidentes foram classificados em três grupos: sem vítimas, com feridos e com vítimas fatais.

Após a retração observada em 2020, primeiro ano da pandemia, o número total de acidentes voltou a crescer de forma consistente. Foram 51.420 registros em 2018 e 51.753 em 2019, caindo para 48.416 em 2020. A partir de 2021, a curva se inverteu: 49.256 ocorrências em 2021, 49.175 em 2022, 52.080 em 2023 e 56.117 em 2024, o maior volume da série histórica.

Para garantir comparabilidade entre rodovias com diferentes fluxos, a FDC utilizou indicadores técnicos que neutralizam o efeito do volume de tráfego. A Taxa de Acidentes (TAc) variou entre 1,97 e 2,34 no período, enquanto a Taxa de Severidade de Acidentes (TSAc) oscilou entre 9,02 e 9,88, atingindo o pico em 2024. O avanço simultâneo desses indicadores indica não apenas mais acidentes, mas também maior gravidade média das ocorrências.

Rodovias com mais acidentes

As rodovias BR-101, BR-116 e BR-381 concentram o maior número de acidentes no país, reflexo do elevado fluxo de veículos e da relevância logística desses corredores. O estudo também aponta padrões recorrentes: 54,3% das ocorrências acontecem durante o dia e 35,3% à noite, proporções que se mantiveram praticamente estáveis em 2024. Em média, 74,8% dos acidentes resultaram em vítimas feridas, 17,8% não tiveram vítimas e 7,4% foram fatais — índice que subiu para 7,5% no último ano analisado.

Outro dado relevante para gestores de infraestrutura e transporte é o tipo de via: mais da metade dos acidentes (52,4%) ocorre em rodovias de pista simples, seguidas pelas de pista dupla (39,5%) e múltipla (8,1%). Entre os tipos de colisão, a frontal responde pela maior parcela da taxa de severidade, com 18,3%, seguida pela colisão traseira, com 15,6%, reforçando a relação entre traçado viário, fluxo misto e gravidade dos impactos.

Esse cenário de alta incidência de acidentes não se restringe às rodovias. Dados oficiais indicam que o país também enfrenta ocorrências relevantes em outros modais. No primeiro semestre de 2025, os acidentes ferroviários somaram 328 casos, majoritariamente causados por imprudência de terceiros, segundo a Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT). Já as rodovias federais registraram cerca de 6.100 mortes em 2024, com custo econômico estimado em R$ 16 bilhões, de acordo com a Confederação Nacional do Transporte (CNT).

Dados de atendimentos da Ambipar

É nesse contexto que cresce a demanda por estruturas capazes de responder rapidamente a emergências. Em 2025, a Ambipar registrou mais de 50 mil atendimentos em todo o país, atuando em rodovias, ferrovias, áreas industriais e regiões portuárias. A empresa mantém operações em todos os estados, com atuação 24 horas e equipes distribuídas estrategicamente. Apenas em acidentes rodoviários, foram cerca de 49 mil vítimas atendidas em aproximadamente 6.500 quilômetros de vias sob sua cobertura, em estados como São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Paraná, Rio Grande do Sul, Goiás e Tocantins.

Segundo Dennys Spencer, head global de prevenção e resposta a emergências da Ambipar, o volume de ocorrências reforça a importância de respostas ágeis e padronizadas. “Os números nacionais mostram que os acidentes continuam acontecendo em grande escala”, afirma. Embora a empresa atue apenas após o acidente, os atendimentos seguem protocolos técnicos internacionais, aplicados de acordo com as características de cada cenário.

Para especialistas em logística e infraestrutura, os dados da FDC e o aumento da demanda por respostas emergenciais apontam para um desafio duplo: reduzir a incidência e a gravidade dos acidentes por meio de investimentos em infraestrutura, fiscalização e gestão do tráfego, ao mesmo tempo em que se fortalece a capacidade de resposta a eventos inevitáveis. Em um país de dimensões continentais e forte dependência do transporte rodoviário, a segurança nas estradas segue como um dos principais gargalos econômicos e sociais.

Acompanhe notícias selecionadas que importam para o setor de transporte de carga e logística:
➡️ Acompanhe nossas redes sociais: LinkedInInstagram e Facebook
➡️ Inscreva-se no canal do Videocast FrotaCast

Gestão de combustível: A ciência por trás da redução de custos na frota 

0

Para o gestor de frota, o óleo diesel não é apenas um insumo, mas o item que mais consome o orçamento operacional. Recentemente, a ascensão do biodiesel (B15) trouxe desafios químicos que, se ignorados, elevam drasticamente o Custo Total de Propriedade (TCO). A análise técnica de Gilles Laurent Grimberg aponta que a solução não está em “produtos milagrosos”, mas no rigoroso controle da física e da química do combustível. 

  1. O Mito do enxofre e a realidade dalubrificação

Um erro comum entre frotistas é acreditar que o enxofre possui funções “antissépticas” ou de limpeza. Tecnicamente, o enxofre foi reduzido (Diesel S10) para diminuir emissões, mas sua retirada afetou a lubricidade do combustível. 

Análise: O foco do gestor deve estar em garantir que o combustível mantenha as propriedades lubrificantes necessárias para proteger bicos injetores e bombas de alta pressão, que são sensíveis à falta de oleosidade. 

  1. Oinimigo Nº 1: A água no diesel 

A afirmação de Grimberg de que “queimar água no motor é impossível” toca no ponto mais crítico para o transporte de carga: a higroscopia do biodiesel (sua capacidade de atrair umidade). 

Quando a água se mistura ao diesel, ocorrem três problemas graves: 

Oxidação: Corrosão prematura de componentes metálicos. 

Proliferação Bacteriana: A água na interface com o combustível permite o surgimento de colônias de fungos e bactérias (a “borra”). 

Cavitacão: Explosão de microgotas de água sob alta pressão, que pode “escavar” o metal dos injetores. 

  1. Ahierarquia daprevenção: drenagem e filtragem 

A recomendação técnica para gestores é o retorno ao básico com rigor industrial. Omissão de drenagem é apontada como a principal falha de gestão em garagens. 

Drenagem diária: Essencial para remover a água decantada no fundo do tanque antes que ela seja sugada pelo sistema. 

Controle de tanques de estocagem: O cuidado deve começar no tanque da transportadora (TRR). Um diesel que já chega contaminado anula qualquer filtro de alta performance no caminhão. 

  1. O Impacto nobiodiesel (B15)

Com o aumento da porcentagem de biodiesel, o combustível tornou-se mais instável quimicamente. Ele degrada mais rápido (oxidação) se ficar parado. 

Dica para o gestor: Frotas com baixa rotatividade de estoque ou veículos que ficam muito tempo parados devem ter atenção redobrada com a estabilidade do combustível para evitar que o diesel “vença” dentro do tanque, gerando depósitos de polímeros. 

Tabela de verificação técnica para o gestor 

Problema Identificado  Causa Provável  Ação Recomendada 
Filtros obstruídos com frequência  Proliferação microbiana (borra)  Limpeza de tanques e controle de umidade. 
Perda de potência e fumaça preta  Carbonização de bicos injetores  Revisão da qualidade do diesel e filtragem final. 
Corrosão no sistema de injeção  Presença de água livre  Drenagem rigorosa e uso de separadores de água. 

 

Conclusão Técnica 

A análise das informações demonstra que a eficiência da frota depende menos de “aditivos de prateleira” e mais de uma cultura de higiene do combustível. Para o gestor, a transparência técnica significa entender que a química do biodiesel exige processos de filtragem, drenagem e armazenamento muito mais rigorosos do que o diesel puro de décadas atrás. 

Gilles-Laurent Grimberg, CEO da Actioil do Brasil e CTO da Actioil Internacional, é um executivo francês com mais de 32 anos de experiência no Brasil e referência no setor de combustíveis. Com trajetória marcada por inovação e compromisso com a qualidade, Grimberg é membro do Conselho Diretor da AEA (2024–2026), já foi vice-coordenador da Comissão Técnica de Diesel/Biodiesel, lançou a primeira IA sobre combustíveis via WhatsApp e tem contribuído para a formação técnica do setor com cursos pioneiros e palestras em eventos estratégicos.

Leia mais sobre diesel e biodiesel 

Queda externa não garante diesel mais barato no Brasil

A U.S. Energy Information Administration (EIA) projeta que o preço médio do diesel nos Estados Unidos cairá para US$ 3,50 por galão em 2026, cerca de 4% abaixo de 2025, acompanhando a tendência de queda do petróleo. A agência também estima recuo de aproximadamente 20% no preço médio do barril de Brent, para US$ 55, impulsionado pelo aumento dos estoques globais, desaceleração da demanda e ampliação da oferta liderada pela OPEP+. Apesar desse cenário internacional mais favorável, a redução dos preços externos não implica, necessariamente, queda automática do diesel no mercado brasileiro. 

No Brasil, a formação de preços depende de fatores adicionais, com destaque para a política da Petrobras, que desde 2023 abandonou a paridade internacional e adotou critérios próprios, menos previsíveis, incluindo um mecanismo de amortecimento sem regras públicas. Além do petróleo, câmbio, impostos, mistura de biodiesel, estoques, riscos geopolíticos e margens de refino influenciam o valor final ao consumidor. A proximidade do ano eleitoral em 2026 amplia as incertezas sobre possíveis interferências nos preços, reforçando a avaliação de que, mesmo com a tendência de queda internacional, o diesel no Brasil pode não acompanhar esse movimento — e já começa o ano pressionado por um aumento de R$ 0,05 por litro em função do reajuste do ICMS. Fonte: Vitor Sabag, especialista em combustível da Gasola by nstech.

Entidades defendem participação do agro na transição energética

A ABIOVE, a APROBIO e a UBRABIO encaminharam nesta quarta-feira (17) um ofício à Presidência da República defendendo a inclusão do Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA) e do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) na elaboração do mapa do caminho para uma transição energética justa e planejada, em resposta ao despacho publicado no Diário Oficial da União em 8 de dezembro de 2025. No documento, as entidades destacam que a experiência brasileira com biocombustíveis demonstra alto potencial de geração de segurança energética, segurança alimentar e desenvolvimento econômico distribuído, reforçando a necessidade de integrar o setor produtivo primário, a ciência e a inovação no processo.

“É fundamental que o agronegócio, a tecnologia e a inovação estejam representados”, afirmou o presidente da APROBIO, Jerônimo Goergen. As associações também se comprometeram a apresentar propostas e projetos estruturantes baseados no desenvolvimento científico e tecnológico para contribuir com o desenho da transição energética justa no país. 

Acompanhe notícias selecionadas que importam para o setor de transporte de carga e logística:
➡️ Acompanhe nossas redes sociais: LinkedInInstagram e Facebook
➡️ Inscreva-se no canal do Videocast FrotaCast

 

 

Pesquisa CNT de Rodovias 2025: logística ainda paga alto custo com infraestrutura deficiente

A Pesquisa CNT de Rodovias 2025, que completa 30 anos como principal diagnóstico da infraestrutura viária brasileira, revela uma melhora no Estado Geral das rodovias do país, custo elevado e deficiências que persistem.

O levantamento, financiado pelo SEST SENAT e realizado desde 1995, avaliou 114.197 quilômetros de vias pavimentadas e mostra que os investimentos recentes começam a refletir positivamente na qualidade das estradas.

Segundo a CNT, 37,9% da malha analisada passou a ser classificada como Ótima ou Boa em 2025, ante 33,0% em 2024. Em termos práticos, são quase 6,5 mil quilômetros a mais em melhores condições de trafegabilidade. Ao mesmo tempo, os trechos Ruins ou Péssimos recuaram de 26,6% para 19,1%, reduzindo gargalos operacionais que historicamente elevam custos e aumentam o risco de atrasos e avarias no transporte de cargas.

Leia também:

Para o setor logístico, os números indicam um cenário de leve alívio, mas ainda distante do ideal. A categoria Regular segue predominante, respondendo por 43,0% da extensão avaliada, o que significa que grande parte das rotas estratégicas do país continua exigindo atenção redobrada das transportadoras no planejamento de viagens, consumo de combustível e manutenção da frota.

Pavimento melhora, mas traçado segue como entrave logístico

A análise técnica da pesquisa considera pavimento, sinalização e geometria da via. O pavimento apresentou o melhor desempenho em 2025: 43,5% dos trechos foram classificados como Ótimos ou Bons. Ainda assim, quase 20% seguem em condição Ruim ou Péssima, afetando diretamente o consumo de diesel, o desgaste de pneus, suspensões e componentes mecânicos.

Já a geometria da via permanece como um dos principais entraves à produtividade logística. Apenas 37,8% dos trechos receberam classificação Ótima ou Boa, enquanto 33,9% foram considerados Ruins ou Péssimos. Problemas como ausência de acostamento, pistas simples predominantes, curvas perigosas e traçados inadequados reduzem a velocidade média operacional, ampliam o tempo de viagem e aumentam o risco de acidentes — fatores que pressionam prazos e custos do transporte rodoviário de cargas.

Rodovias
Fonte: CNT

Concessões impulsionam qualidade e previsibilidade operacional

A Pesquisa CNT 2025 reforça a diferença de desempenho entre rodovias concedidas e aquelas sob gestão pública. Nas vias concedidas, os trechos classificados como Ruins despencaram 61,6% em um ano, passando de 1.609 km para apenas 618 km. Nas rodovias públicas, a redução também ocorreu, mas em ritmo menor: queda de 23,3%, de 21.630 km para 16.594 km.

Para operadores logísticos, esse dado é relevante porque rodovias concedidas tendem a oferecer maior previsibilidade operacional, com melhor padrão de manutenção, sinalização e atendimento ao usuário. Embora o custo do pedágio entre no cálculo do frete, a CNT avalia que a melhora da infraestrutura reduz perdas indiretas com consumo excessivo de combustível, quebras, acidentes e atrasos.

Infraestrutura ruim ainda encarece o frete no Brasil

Mesmo com os avanços, a CNT estima que a qualidade do pavimento eleva, em média, em 31,2% os custos operacionais do transporte rodoviário no Brasil. Nas rodovias públicas, onde 64,4% dos trechos apresentam algum problema no pavimento, o impacto médio chega a 35,8%. Já nas concedidas, o aumento médio é de 18,4% em relação a pavimentos classificados como Ótimos.

O efeito direto aparece no consumo de combustível. A má qualidade das rodovias gera um desperdício anual estimado em 1,2 bilhão de litros de diesel, o equivalente a R$ 7,2 bilhões por ano em custos adicionais para o setor de transporte. Esse valor, segundo a CNT, poderia ser direcionado para renovação de frota, adoção de tecnologias mais eficientes e investimentos em soluções de baixo carbono, como caminhões elétricos ou combustíveis renováveis.

Rodovias
Fonte: CNT

Segurança viária também impacta a logística

Entre 2016 e julho de 2025, foram registrados 697.435 acidentes nas rodovias federais monitoradas pela Polícia Rodoviária Federal (PRF), com custo econômico acumulado estimado em R$ 149,67 bilhões. Além das perdas humanas, os acidentes geram impactos diretos na logística, como interrupções de tráfego, perda de cargas, aumento do valor do seguro e redução da confiabilidade das operações.

Em 2024, os acidentes consumiram R$ 16,79 bilhões da economia brasileira, valor superior ao total investido pelo governo federal em obras de infraestrutura rodoviária no mesmo período. Para a CNT, a comparação evidencia que investir em conservação e modernização das estradas é também uma estratégia de redução de custos logísticos sistêmicos.

Outro dado positivo para o setor é a redução dos pontos críticos mapeados pela pesquisa, que passaram de 2.446 em 2024 para 2.144 em 2025. A queda indica melhora na conservação das vias e tende a reduzir interrupções inesperadas, desvios forçados e riscos operacionais em rotas estratégicas de escoamento de cargas .

Planejamento de longo prazo é decisivo para a competitividade

Para a CNT, a continuidade da melhora depende de investimentos regulares, planejamento de longo prazo e maior uso de tecnologias como pavimentos mais duráveis e o BIM (Building Information Modeling). Essas soluções podem elevar a eficiência das obras, reduzir custos ao longo do ciclo de vida das rodovias e ampliar a competitividade logística do país.

Ao completar 30 anos, a Pesquisa CNT de Rodovias reforça que a infraestrutura viária continua sendo um dos principais determinantes do custo Brasil. Os avanços registrados em 2025 sinalizam uma retomada positiva, mas o desafio logístico permanece: transformar a melhora pontual em um padrão consistente de qualidade capaz de reduzir o custo do frete, aumentar a previsibilidade das operações e sustentar o crescimento econômico.

Acompanhe notícias selecionadas que importam para o setor de transporte de carga e logística:
➡️ Acompanhe nossas redes sociais: LinkedInInstagram e Facebook
➡️ Inscreva-se no canal do Videocast FrotaCast