quarta-feira, julho 24, 2024
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Transpes: “os próximos 10 anos serão transformadores”

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A Transpes, criada no dia 16 de maio de 1966 em Belo Horizonte (MG), completou 57 anos. Em entrevista ao Frota News, o presidente de uma das maiores transportadoras de cargas especiais do Brasil, Alfonso Gonzalez, fala sobre diversos assuntos inspiradores.

Apaixonado e colecionador de caminhões, com grande conhecimento técnico sobre caminhões e demais equipamentos de transporte, Alfonso fala com transparência sobre a transição da gestão familiar para profissionalização com executivos e conselho de administração, evolução da frota até chegar ao desenvolvimento do primeiro caminhão extra pesado com CMT de 300 toneladas, desafios para contratação de motoristas especialistas em cargas indivisíveis, primeirização de frotas, entre outros assuntos, e mostra otimismo com o desenvolvimento da infraestrutura para o desenvolvimento do país. Confira:

Transpes
Alfonso Gonzalez, presidente da Transpes, com o autor desta entrevista

Transição e conselho de administração na Transpes

Frota News: primeiramente assim, só para explicar um pouco, a Transpes é uma empresa S. A. (Sociedade Anônima), mas continua na fase de transição da administração familiar, mas já conta com um conselho de administração e uma diretoria com executivos altamente profissionais. Conte um pouco sobre essa transição. 

Alfonso Gonzalez: bom, a segunda geração entrou na Transpes no final da década de 80 com os três irmãos. Entre 86 e 90, nós três entramos na gestão da empresa, no trabalho diretamente com nossos pais, fundadores da Transpes. A mãe se desligou da Transpes no início da década de 80. Entre 80 e 82, ela saiu do executivo. Então, a transportadora foi administrada durante alguns anos só pelo meu pai.

Quando entramos na empresa, no final da década de 80. Então, de lá para cá, a gente começou a desenvolver toda a empresa diretamente, como gestão familiar. E ficamos assim por entre 20 e 30 anos. Depois de 2010, começamos a ter as mudanças. A minha irmã, a Tarsia, desligou da diretoria executiva, em 2013 e criamos o conselho em 2015, quando também passamos a contratar diretores executivos, profissionalizando mais a gestão da empresa, pois a transportadora já vinha tomando outras proporções desde a virada do século, a partir dos anos 2000.

O meu irmão Sandro ficou como presidente executivo até o final de 2019, quando saiu para ir para presidir o conselho, até então, presidido pela Tarsia, que continua com cargo de conselheira. Eu assumi como presidente no início de 2020. Já com um corpo diretivo mais forte, eu sou o último da segunda geração da família no executivo. Então, sempre tivemos uma gestão muito participativa e transparente. 

Plano estratégico

Transpes
Sandro Gonzalez

Frota News: qual a diferença que a criação de um conselho fez para a Transpes?

Alfonso: o conselho veio para fortalecer as decisões. Quando tivemos nosso primeiro planejamento estratégico, em meados de 2010, foi feito para cinco anos. Então foi de 2010 e 2015, e depois entre 2015 e 2020. Devido às mudanças rápidas na sociedade e no mundo, o planejamento estratégico, agora, tem revisão anual. Então, nós montamos um planejamento estratégico principal e realizamos uma revisão anualmente. Nesse planejamento várias questões são abordadas, como o desenvolvimento socioeconômico do país, o desenvolvimento da cadeia logística, a geopolítica mundial, discutir novos negócios, entre outros temas. O último planejamento estratégico foi para entre 2020 e 2023, no entanto, com a revisão anual, já fizemos para entre 2023 e 2025, atualizando para este momento atual que estamos fazendo. 

Novos segmentos de atuação

Frota News: e como está sendo a entrada em novos segmentos?

Alfonso: buscamos novos negócios que tenham similaridade com a empresa ou não. Por exemplo, na primeira década deste século, nós entramos no segmento siderúrgico, sendo um setor muito forte atualmente. Depois, entramos no setor eólico e florestal. Ou seja, há o desenvolvimento para identificar oportunidades e caminho nós tomaremos. Nós também vislumbramos novos segmentos, mas o nosso forte é o que a gente sempre acredita: no desenvolvimento da infraestrutura do país. Temos hidrelétricas, termelétricas, agora, o desenvolvimento de infraestrutura para as fontes renováveis, como as fazendas de energia solar etc. E para isso tudo, a gente precisa de rodovias, ferrovias e o desenvolvimento portuário do país. Então a gente tem as ações em cima disso. A empresa determina os investimentos a cada ano para cada segmento.

Transpes

Pós-pandemia

Frota News: você assumiu a presidência da empresa em pleno início de pandemia. E dentro dessa visão estratégica, o que mudou de 2020 para 2023? 

Alfonso: em março estourou pandemia. Então a nossa grande preocupação era como que o mercado iria reagir com essa volatilidade, atividade econômica e o impacto social, quando começou o isolamento. Começamos a trabalhar em home office em vários cargos, mas o transporte em si não parou e a gente continuou mantendo todos os nossos serviços. Não teve nenhum contrato que paralisou. Em alguns momentos poderiam causar algum tipo de contaminação. Era paralisado durante uma semana, duas semanas ou mais que isso. Então Florestal continuou rodando 24 horas, e tomando todas as atenções e seguindo todas as regulamentações do Ministério da Saúde. Dentro disso, a transformação para 2023, que muda esse cenário, sócio econômico e político do Brasil.

Acredito que podemos ter uma retomada de grandes obras de infraestrutura. Devido a toda questão do passado ano de 2015 para cá, que fez parte das operações de polícia e operações Lava-Jato, todas as grandes construtoras ficaram paradas. Agora, eu vejo que estamos passando por um novo momento, no qual há a retomada de grandes obras de infraestrutura. Temos necessidade de efetuar corredores de escoamento. Temos necessidade de fazer novos corredores de abastecimento. Ou seja, há estados que ligam aos portos e portos que ligam aos estados e isso são por rodovias ou ferrovias. Isso, tirando portos e aeroportos, que também existe um plano de desenvolvimento muito grande para duplicação. Então, nessas obras que a Transpes sempre trabalhou. E isso movimenta não só as indústrias de grandes empresas, de grandes construtoras, como a indústria metalmecânica também. Então temos grandes fábricas vindo para o Brasil.

Fábrica da Suzano

Alfonso: o Brasil, por exemplo, é um grande polo de celulose. Então, as últimas três grandes fábricas transportamos e agora a nova fábrica está sendo montada pela Suzano, em Ribas do Rio Pardo (MS). Após pronta, ela vai produzir celulose para exportação. Ou seja, todo o volume de produção dela tem que ser exportado e transportado para os portos. Cerca de 90% da produção de celulose no Brasil é exportada. Então, os nossos pensamentos estão no futuro para termos a nossa entrada na indústria, na infraestrutura. Seja para o abastecimento ou escoamento, na construção das indústrias e no escoamento da produção delas.

Transpes
Fábrica da Suzano Papel e Celulose em construção em Ribas do Rio Pardo (MS)

Frota News: agora vão estar expandindo para a carga em geral?

Alfonso: sim! No entanto, é sempre no sentido de abastecimento da indústria. Então, quando a gente fala a carga geral, é somente carga fechada. Não vamos transportar com cargas fracionadas. Se você tiver uma mesa, não vamos transportar. Mas se você tiver 50 meses em um contêiner, nós vamos transportar.  Há um cliente que estamos importando 300 contêineres de matéria-prima. Então, sempre com esse foco de carga fechado, não importa o produto. Pode ser de 12 toneladas a 74 toneladas.

Volvo FH 540 com CMT de 300 toneladas

Frota News: ouvi muito aqui dentro que o presidente é um apaixonado por caminhões, inclusive, é um colecionador. E como você faz o planejamento estratégico da sua frota, considerando haver uma variedade muito grande de tipos de veículos?

Alfonso: bom montar, isso é, realmente, muitos anos de trabalho e conhecimento técnico. Então, hoje, quando você viu o que o Volvo FH com 300 toneladas de capacidade de tração, foram os primeiros de 300 toneladas que a Volvo fez no Brasil. 

Frota News: Há quanto tempo vocês estão trabalhando no projeto deste caminhão?

Alfonso: Pode-se dizer que a gente estava trabalhando de seis a oito anos. Começamos quando fui para Europa visitar a matriz da Volvo. Então visitei a fábrica e lá já tinha o caminhão de 700 cavalos para 250 toneladas. Aí a Volvo do Brasil importou 10 caminhões, já com 750 cv para as 250 toneladas. Até então, era o modelo com maior capacidade de carga. Das 10 unidades importadas, compramos seis deste modelo. Ficamos com os FH 750 entre 2014 e 2021. No longo prazo, a manutenção do FH 750 começou a ficar difícil, pois, por ser importado, motor de 16 litros, e os componentes eram comprados com base na cotação do dólar. Aí percebemos que também não precisávamos de tanta potência, mas de capacidade de tração. No Brasil, já existia o Volvo FH para 200 toneladas.

Substituto do FH 750

Alfonso: foi quando entramos em contato com a Volvo e falamos: ‘nós precisamos de um caminhão novo, que seja nacional e que cubra o 750, mas que até que diminua o consumo, que melhore o desempenho e a gente desenvolva o melhor plano’. Foi quando a gente começou a avaliar o novo trem de força, que é motor, caixa e diferencial. A partir do desenvolvimento do novo chassi e de ter um motor, a caixa, um diferencial com melhor desempenho, foi onde conseguimos chegar às 300 toneladas de tração. Então, conseguimos fazer esse projeto, e, em 2022, nós fechamos a compra dos caminhões, e agora, eles já estão em operação. Então, tiramos os FH 750 de 250 toneladas e colocamos os FH 540 8×4 de 300 toneladas de tração no lugar. Normalmente, eles podem trabalhar em conjunto, transportando até 600 toneladas, com dois FH.

Scania x Volvo

Frota News: a frota sempre foi de Volvo?

Alfonso: quando eu entre aqui na Transpes, era uma empresa tradicionalmente com caminhões Scania. Foi quando comecei a avaliar as questões técnicas para a aplicação de cada caminhão. Somente em 99 que a Scania tinha um caminhão maior capacidade de tração, mas limitada em 150 toneladas. A Scania sempre foi muito conservadora sobre essa questão. E isso me limitava a utilização dos caminhões dela. Depois vieram outras questões técnicas, e aí que encontramos a solução da Volvo.

Os caminhões dela têm “free reverse” (recurso na transmissão para engate da ré) e uma sincronização muito grande para carga extra pesada. Esses recursos nos ajudam muito. Então, a partir de 2005, passamos a comprar somente Volvo, inclusive os modelos da linha mais leves, e todos os nossos caminhões plataformas agora são VM e os pesados e extra pesados 6×4 e 8×4 FH. Ainda temos na frota Scania 6×2 e 4×2 que nos atendem para outros tipos de transporte que nós temos.

Primeirização de frotas

Frota News: alguns embarcadores estão fazendo a primeirização das frotas, ou seja, tendo frota própria. Como é visto isso no seu segmento, mais especializado?

Alfonso: acho que esse é um movimento mundial. A questão da primeirização é uma estratégia de cada empresa. É preciso ter capacidade de entender o que é o negócio dela e como ela pode economizar fazendo a primeirização do transporte. Existem empresas que isso é uma coisa natural. Por exemplo, falar da própria Transpes. Temos aqui serviços primeirizados, como a nossa oficina. Temos aqui 60 mecânicos e uma estrutura maior do que muitas concessionárias. Aqui eu atende linha da frota, incluindo implementos rodoviários e outros tipos de veículos. Temos conhecimento e capacidade para isso. No entanto, eu não deixo de trabalhar com terceiros. Pelo nosso volume de serviços, temos concessionárias e outros fornecedores cadastrados para nos atender em todo o Brasil.

Frota de escolta

Alfonso: outra área que é primeirizada é a frota de carros de escolta. Temos 80 automóveis, uma das maiores frota do país, caracterizada para escolta. E somos a maior contratadora de carros para escolta do Brasil, cerca de 120 carros, pois a nossa necessidade chega a 200 automóveis. Temos o mínimo que precisamos, sendo 80 para operações especiais que preciso que seja primeirizada e contratamos o restante de terceiros.

Outros exemplos: a própria Suzano Papel e Celulose optou pela primeirização da frota. A Bracell São Paulo tem mais de 200 caminhões terceirizados, mas ela tem 150 caminhões próprios para garantir o fornecimento mínimo de madeira para as suas fábricas. Ela quis fazer isso por uma questão estratégica. Então vejo que esse movimento de primeirização, que seja de indústria, área farmacêutica, supermercado, agronegócio, entre outros setores, para ter segurança e controle no escoamento da produção e abastecimento de matérias-primeiras, e para ter um controle do custo. Mas ele tem que ter gestão e mão de obra eficientes. O que ele passar da capacidade dele de atendimento de transporte, ele faz as devidas contratações de terceiros, mas ele tem que ter conhecimento do custo e do trabalho. Isso são, normalmente, nos serviços contínuos, e de extrema necessidade de atendimento.

Turnover de motoristas na Transpes

Frota News: escutamos também casos de primeirização devido aos problemas de turnover de motoristas nas transportadoras. Com a frota própria, a empresa consegue oferecer mais benefícios e manter o condutor profissional.

Alfonso: a empresa tem capacidade de gestão de pessoas e equipamentos de transporte, pode ocorrer por esta razão também. Vemos muitos casos de empresas fazerem a primeirização e, por falta de especialização, voltar para terceirização após dois ou três anos de dificuldades.

Motoristas profissionais

Frota News: é como é esta questão de falta de motoristas qualificados?

Alfonso: temos também uma grande dificuldade de motoristas, principalmente, devido ao nosso segmento muito especializado em cargas especiais. O condutor precisa ter um conhecimento técnico enorme, muito acima dos motoristas dos outros segmentos para conduzir caminhões com grandes dimensões peso. Vivemos com esse desafio há mais de 10 anos, nós temos, aqui dentro da Transpes, a nossa faculdade corporativa. E temos os nossos treinamentos para capacitação técnica de motoristas. Já o transporte florestal, ele é muito regional e normalmente os motoristas dessa região já vão se capacitando para aquele segmento, sendo o transporte com bitrem e tritrem.

Fazemos a capacitação em relação à evolução tecnológica. Isso ocorre, principalmente, quando chega um caminhão mais moderno, quando a fábrica efetua o treinamento em relação à tecnologia embarcada. Às vezes o motorista não tem conhecimento técnico, ele a fábrica, faz entrega, até os motoristas fazem esse treinamento de capacitação, onde temos que buscar sempre educação, o máximo da tecnologia embarcada nos caminhões. Então, para o nosso segmento de carro especial, que a gente fala em peso e dimensão, os motoristas também aqui são treinados, passam por essa capacitação. Mas temos uma dificuldade enorme de conseguir hoje que seja um motorista ou um operador de guindaste.

Frota News: a Transpes tem mulheres condutoras?

Alfonso: sim. Já tem temos seis mulheres, entre batedoras e carreteiras. Foram contratadas após uma campanha. Chegamos a ter quatro caminhões pintados na cor rosa, e mulheres que dirigiam esses caminhões. E tentamos contratar mais mulheres, mas temos dificuldades em encontrar candidatas.

Infraestrutura

Frota News: uma mensagem final?

Temos uma história com o desenvolvimento do Brasil e nós acreditamos muito no país. Acreditamos muito que, nesses próximos 10 anos, serão transformadores. Nós sempre estivemos e queremos continuar presente no desenvolvimento da infraestrutura do Brasil. Na construção dos corredores para o escoamento da produção, construção de estradas, ferrovias, aeroportos e portos. E a melhoria da infraestrutura vai gerar empregos e fazer com o que o custo das mercadorias fique barato. Tudo isso vai favorecer toda a população brasileira.

Ademais, leia também a história da Transpes!

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Marcos Villela Hochreiter
Marcos Villela Hochreiterhttps://www.frotanews.com.br
Sou jornalista no setor da mobilidade desde 1988, com atuações em jornais, nas áreas de comunicação da Fiat e da TV Globo, como editor da revista Transporte Mundial entre 2002 e maio de 2023, e com experiência em cobertura na área de transporte no Brasil e em cerca de 30 países. Representante do Brasil como membro associado do ITOY (International Truck of the Year), para troca de experiências e conteúdos jornalísticos. Mais, recente começou como colaborador do corpo docente na Fabet (entidade educacional sem fins lucrativos).
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