Entrevista: Presidente da ANFIR defende regulamentação de tecnologias pelo Contran e políticas de longo prazo

O presidente da ANFIR, José Carlos Sprícigo, avalia que a indústria de implementos rodoviários vive um momento decisivo, marcado por transformações tecnológicas, desafios regulatórios e a necessidade urgente de políticas públicas estáveis. Em entrevista à Frota News, ele destacou que o setor tem capacidade produtiva, demanda reprimida e tecnologia disponível — mas ainda esbarra em entraves que impedem o avanço pleno da competitividade logística do país.

A renovação do Move Brasil, agora com R$ 21,2 bilhões, foi recebida com entusiasmo pela entidade, especialmente pela inclusão dos implementos rodoviários na nova fase do programa. Para Sprícigo, essa mudança corrige uma lacuna histórica e fortalece a segurança no transporte de cargas. “A inclusão de implementos rodoviários é uma medida importante a favor da indústria e da melhoria contínua da segurança.”

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Ele lembra que a primeira etapa do programa beneficiou principalmente a indústria de caminhões, mas alerta que ações pontuais não resolvem os gargalos estruturais: “Esses voos de galinha não são bons para o setor. Causam uma alta demanda em um mês e no outro uma queda muito grande.”

Segundo ele, o país precisa de políticas de Estado, com visão de longo prazo, para dar previsibilidade à indústria e permitir planejamento de investimentos.

Tecnologia e segurança: suspensão pneumática parada no Contran

Entre os principais pleitos da ANFIR está a aprovação da ampliação da tolerância de peso para veículos com suspensão pneumática, tema que permanece travado no Contran. Sprícigo afirma que a entidade já apresentou estudos técnicos demonstrando que seria possível aumentar em 5% a tolerância de carga sem comprometer o pavimento. “Temos estudos provando que poderíamos ter 5% a mais de tolerância… mas infelizmente isso está parado no Contran.”

A tecnologia da suspensão pneumática, explica Sprícigo, oferece ganhos diretos e imediatos para o transporte rodoviário. Ela aumenta a segurança, garantindo maior estabilidade e melhor capacidade de frenagem; reduz o desgaste das estradas, já que as bolsas de ar absorvem impactos e distribuem a carga de forma mais uniforme sobre o pavimento; e ainda estimula a renovação da frota, pois uma vantagem regulatória desse tipo levaria transportadores a substituir equipamentos antigos por modelos mais modernos. Para ele, a tecnologia está pronta, é segura e já é amplamente utilizada em outros países — falta apenas a decisão regulatória para que o Brasil colha esses benefícios.

Caminhões 11 toneladas: Mercedes-Benz Accelo 1117 x VW Delivery 11.180 x Iveco Tector 11-190

Freio a disco x freio a tambor: mudança cultural em andamento

A adoção do freio a disco no transporte rodoviário brasileiro avança de forma lenta, apesar de já ser amplamente utilizada em operações europeias e em aplicações específicas no Brasil. José Carlos Sprícigo explica que a transição não é apenas técnica, mas sobretudo cultural: muitos transportadores e frotistas ainda preferem o freio a tambor por familiaridade, disponibilidade de manutenção e tradição operacional. O freio a disco, porém, oferece vantagens comprovadas em testes realizado pelas montadoras — como maior eficiência térmica, resposta mais rápida e melhor desempenho em frenagens repetidas — características especialmente valorizadas em operações de alta exigência.

Mesmo com esses benefícios, a migração enfrenta desafios. O freio a disco é mais “sensível” a contaminações típicas das estradas brasileiras, como poeira, lama e resíduos, o que exige manutenção mais especializada e condições de operação mais controladas. Além disso, a renovação da frota é um fator determinante: caminhões e implementos mais antigos foram projetados para sistemas a tambor, e a substituição completa envolve custos que muitos operadores ainda evitam assumir. “É uma construção cultural… em certo momento deve acontecer”, resume Sprícigo.

Para o presidente da ANFIR, a evolução é inevitável, mas depende de três pilares: educação técnica, para que operadores entendam as vantagens e limitações de cada sistema; renovação de frota, que permitirá a entrada de veículos já preparados para tecnologias mais modernas; e condições adequadas de operação, garantindo que o freio a disco entregue todo o seu potencial de segurança e eficiência. A transição, portanto, não é apenas tecnológica — é estrutural, gradual e alinhada ao amadurecimento do setor.

Renovação de frota: mito derrubado

Sprícigo também faz questão de corrigir uma percepção comum no mercado: a de que implementos permanecem longos períodos em operação sem renovação. Segundo ele, ocorre justamente o contrário. “É um mito que não há renovação de frota de implementos. A idade média é de 7 a 9 anos, enquanto a do caminhão é de 20 anos.”

O motivo é econômico: a manutenção de um implemento antigo rapidamente se aproxima do valor de uma prestação de financiamento, tornando a troca mais vantajosa.

Desempenho do quadrimestre: retração, mas com perspectiva de recuperação

Embora o foco do setor esteja no futuro, os números do primeiro quadrimestre ajudam a contextualizar o cenário atual. Entre janeiro e abril, foram comercializadas 42.608 unidades, queda de 11,24% em relação ao mesmo período de 2025. O segmento Pesado recuou 12,81%, enquanto o Leve caiu 9,62%.

Sprícigo lembra que o início de 2026 foi afetado pelo efeito pós‑Fenatran, com retração de 30% nos dois primeiros meses, mas destaca que março já mostrou reação. Ele mantém otimismo: “Geralmente fazemos 60% das vendas no segundo semestre e 40% no primeiro.”

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Marcos Villela Hochreiter
Marcos Villela Hochreiterhttps://www.frotanews.com.br
Atuo como jornalista no setor da mobilidade desde 1989 em diversas redações. Também nas áreas de comunicação da Fiat e da TV Globo, e depois como editor da revista Transporte Mundial por 22 anos, e diretor de redação de núcleo da Motor Press Brasil. Desde 2018, represento o Brasil no grupo do International Truck of the Year (IToY), associação de jornalistas de transporte rodoviário de 34 países. Desde 2021, também atuo como colaborador na Fabet (Fundação Adolpho Bósio de Educação no Transporte, entidade educacional sem fins lucrativos). Em 2023, fundei a plataforma de notícias de transporte e logística Frota News, com objetivo de focar nos temas que desafiam as soluções para gestão de frotas.
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