Em entrevista exclusiva à Frota News, Braulio Lalau de Carvalho, CEO da Maxtrack, detalha a nova geração de inteligência artificial a bordo, demonstra o impacto no TCO e na redução de sinistros, e plano de investimentos para redefinir a tecnologia no transporte brasileiro
O setor de transporte rodoviário de cargas vive uma de suas transições tecnológicas mais profundas. Se há uma década a telemetria se limitava a indicar a posição geográfica do veículo ou avisar sobre excessos pontuais de velocidade, a nova fronteira do gerenciamento de frotas exige respostas preditivas e em tempo real dentro da própria cabine. À frente dessa transformação, a multinacional mineira Maxtrack concluiu um ciclo de investimentos de R$ 80 milhões previstos até 2026 e se prepara para colocar nas estradas uma tecnologia que promete mudar a relação entre o motorista, a inteligência artificial e o centro de controle operacional.
Com sede em Nova Lima (MG) e unidade fabril própria em Betim (MG), a Maxtrack contabiliza hoje mais de 180 mil equipamentos de telemetria em operação e ultrapassa a marca de 47 mil sistemas de imagem ativos apenas no Brasil. Em conversa exclusiva com o Frota News, o CEO da companhia, Braulio Lalau de Carvalho, revelou que a grande virada de chave do mercado reside na substituição de gravadores e câmeras passivas por ecossistemas completos de visão computacional e processamento de dados na ponta (o chamado Edge Computing).
“Câmeras gravando passivamente são sistemas ‘burros’. A grande evolução é tornar todas as lentes inteligentes, operando com visão computacional e inteligência artificial proprietária dentro do próprio equipamento, sem depender de sinal de internet para agir.” — Braulio de Carvalho, CEO da Maxtrack
Indústria proprietária, P&D e a Inteligência Artificial dedicada
Um dos principais gargalos enfrentados por frotistas ao adotar soluções de inteligência artificial é a rigidez de softwares genéricos ou a dependência de plataformas abertas e importadas. Segundo Braulio, o grande diferencial competitivo da Maxtrack está na integração vertical de sua estrutura: embora o desenvolvimento de placas ocorra em colaboração com sócios na China, toda a montagem industrial e a programação de algoritmos proprietários são feitas no Brasil, na fábrica de Betim.
Essa estrutura fabril permite que frotistas, principalmente embarcadores, acompanhem o processo de desenvolvimento e montagem dos equipamentos sob medida para suas operações. A empresa prepara o lançamento da nova geração de hardware — batizada internamente de linha MTC-1K —, que substituirá a consolidada série MTC-800. A novidade traz visão computacional embarcada em todas as lentes e capacidade de processamento local.
“O gravador tradicional de DVR apenas registra o vídeo. O novo equipamento analisa o entorno do caminhão em tempo real. Ele detecta se alguém está se aproximando do tanque de combustível, se há pessoas rondando o veículo ou se o condutor está cumprindo o rito de checagem ao redor da frota antes de dar a partida”, explica o executivo.

| Indicador Operacional / Estratégico | Métrica / Projeção Registrada |
| Equipamentos de Telemetria Ativos | 180 mil unidades (Brasil e México) |
| Equipamentos com Câmeras e IA Ativos | Mais de 47 mil unidades no Brasil |
| Plano de Investimento (P&D e Fábrica) | R$ 80 milhões concluídos (meta até 2026) |
| Meta de Crescimento Anual | 50% ao ano com metas de vendas mantidas |
| Economia no Consumo de Combustível (Smart Drive) | Redução de 5% a 15% (com casos de 10% consolidados) |
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Interação por voz, “Edge Computing” e rotogramas dinâmicos
Um dos maiores desafios logísticos nas rodovias brasileiras é a constante oscilação ou ausência completa de sinal de internet móvel. A arquitetura Edge Computing do novo hardware foi projetada para resolver esse problema mantendo a IA totalmente operacional dentro do próprio veículo, dispensando a conexão em nuvem para tomada de decisões urgentes e imediatas.
Essa autonomia permite a introdução de rotinas de interação humanizada por áudio com o motorista. Em vez de digitar ou clicar em botões, o condutor pode registrar comandos de macro, início de viagem e pausas para refeição apenas conversando com a cabine. Além disso, o sistema utilizará algoritmos avançados de análise de voz e tom para mensurar o nível de fadiga ou estresse.
Se o condutor demonstrar cansaço pela modulação vocal ou desvio de olhar, a própria cabine emitirá um alerta preventivo e sugerirá a parada no posto seguro mais próximo ao longo do trecho. A tecnologia também aperfeiçoa a criação de rotogramas digitais.
O equipamento realiza a leitura em tempo real das placas de sinalização e faz a varredura da infraestrutura viária. Como a solução reconhece as especificações cadastradas do veículo (altura, número de eixos e peso), o sistema adapta automaticamente os limites de velocidade e alertas de curva conforme a geometria do caminhão — eliminando a necessidade tradicional de enviar carros de apoio com antecedência para mapear a pista.
As câmeras computacionais identificam ainda condições climáticas adversas, como chuva intensa, neblina ou falta de pavimentação, sem a necessidade de intervenção do motorista.
Saúde mental do condutor, NR-1 e conscientização sem punição
À medida que as tecnologias de monitoramento de cabine se expandem, cresce a preocupação dos gestores com o excesso de alarmes sonoros e o estresse gerado nos motoristas. Ciente dos impactos humanos e das exigências da Norma Regulamentadora 1 (NR-1) referente aos riscos psicossociais no trabalho, a Maxtrack reformulou a dinâmica dos alertas internos.
Para despoluir o ambiente sonoro do cockpit, desvios leves de atenção são sinalizados visualmente no terminal de dados da cabine. O áudio é reservado exclusivamente para situações de risco iminente. “A implementação de câmeras exige uma catequização da operação. Não se trata de uma ferramenta punitiva, mas de um instrumento de proteção da vida do motorista e de respaldo jurídico para o frotista em caso de acidentes causados por terceiros”, reforça o CEO.
A metodologia de conscientização da empresa utiliza imagens reais de acidentes gravadas em operações parceiras — com atores recriando as cenas para preservar a identidade dos condutores —, demonstrando o impacto crucial de quatro segundos de distração ao volante. Os resultados práticos comprovam a eficácia do treinamento: frotas que iniciam a operação registrando entre 16 e 20 eventos de risco a cada mil quilômetros rodados reduzem esse índice para marcas inferiores a 0,5 evento por mil quilômetros após três a seis meses de acompanhamento contínuo.
eficiência energética, TCO e a plataforma Smart Drive
Além da preservação de vidas e da redução de sinistros, o ecossistema de dados reflete diretamente no Custo Total de Propriedade (TCO) das transportadoras. A plataforma Smart Drive, desenvolvida pela Maxtrack, atua como um instrutor de dirigibilidade em tempo real, orientando o condutor sobre o uso correto do pedal do acelerador, momento ideal de troca de marchas e frenagens antecipadas.
O sistema avalia o motorista de forma contínua e atribui pontuações de desempenho ao final do trecho. Essa mecânica fomenta uma competição saudável entre os condutores da própria frota, estimulando melhores práticas de direção. Em frotas de grande porte, como a Transportadora Veronese — com mais de 600 caminhões —, o acompanhamento analítico próximo da equipe garantiu uma economia de 10% no consumo de diesel ao longo de nove meses. No ecossistema geral da Maxtrack, os ganhos em eficiência energética oscilam entre 5% e 15%.
“A telemetria avançada aliada ao coaching de direção na cabine transforma o motorista em um parceiro de eficiência. Conseguimos entregar reduções diretas de 5% a 15% no consumo de combustível, gerando ganho financeiro imediato e abatimento real de emissões.” — Braulio de Carvalho
Educação digital, acompanhamento PDCA e atuação multissetorial
Um desafio recorrente apontado por gestores no transporte rodoviário é a subutilização da tecnologia disponível nos veículos novos. Frequentemente, pacotes tecnológicos avançados de montadoras ou sistemas de telemetria acabam limitados a funções básicas por falta de treinamento contínuo das equipes operacionais e dos condutores.
Para contornar essa barreira, a Maxtrack monitora o nível de engajamento do cliente na plataforma por meio de métricas de uso e navegação. Com base nesses dados, a equipe de pós-venda aplica treinamentos presenciais recorrentes direcionados às funcionalidades não exploradas.
Adicionalmente, a empresa produz boletins informativos e materiais educativos distribuídos diretamente nos aplicativos dos motoristas e grupos corporativos. Todos os clientes passam por reuniões mensais de PDCA (Plan-Do-Check-Act), nas quais analistas avaliam indicadores operacionais, identificam pontos de melhoria e colhem demandas para novos desenvolvimentos de software e hardware.
Essa abordagem consultiva e customizável permite à Maxtrack expandir sua atuação para diversos segmentos da economia. A empresa atua na automação logística completa de embarcadores, controle de tempo de permanência em pátios e estimativas de chegada. Suas soluções estão presentes no setor de celulose (em frotas da Klabin e da Suzano), na mineração, no agronegócio, na distribuição de combustíveis e no transporte público de passageiros — equipando milhares de ônibus da frota da cidade de São Paulo.
“Nosso papel é agir como um camaleão tecnológico. Chegamos ao embarcador, entendemos as particularidades da operação — seja o reflexo do sol nos óculos do motorista em uma mina ou o controle de tempo de pátio na celulose — e adaptamos o software e o hardware exatamente àquela necessidade”, conclui Braulio.
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