Em entrevista exclusiva à Frota News, Antonio Almeida, diretor de Vendas On-Highway da Cummins Brasil, detalha o avanço dos motores movidos a gás/biometano, os desafios do biodiesel e o papel da engenharia local no desenvolvimento de ecossistemas sustentáveis
A transição energética no transporte rodoviário de cargas e passageiros é uma realidade que começa ganhar escala com demandas que vão crescer nos próximos anos e com premissas pautadas pela vocação energética de cada região. No Brasil, o caminho para a descarbonização passa inevitavelmente pela matriz de biocombustíveis e gases renováveis. É o que defende Antonio Almeida, diretor de Vendas On-Highway da Cummins Brasil, em conversa com a Frota News.
Segundo o executivo, a visão global da companhia para a descarbonização é pautada pela diversidade de caminhos. No cenário brasileiro, a combinação entre a produção de biocombustíveis e a engenharia local tem provado ser a rota mais viável e econômica para os frotistas.
Biometano e ecossistemas de economia circular
Um dos principais destaques do portfólio da Cummins para a transição energética é o propulsor B6.7N, um motor de 6,7 litros concebido nativamente para operar a gás (GLP/GNV/Biometano). O modelo equipa o caminhão Volkswagen Constellation 26.280 6×2 e foi rigorosamente validado no Brasil para operações de uso severo, como a coleta de resíduos urbanos e o transporte de biomassa.
“Nosso motor de 6,7 litros nasceu originalmente com o conceito de gás. As adequações que fizemos aos padrões brasileiros passaram pelo conhecimento profundo do mercado e das aplicações reais, focando no rendimento de consumo e no ganho de produtividade.” — Antonio Almeida.
Almeida ressalta que o biometano encontra um terreno extremamente fértil em ecossistemas de economia circular. Usinas de cana-de-açúcar (com o aproveitamento da vinhaça) e aterros sanitários urbanos surgem como grandes geradores do combustível limpo. Além disso, a recente iniciativa da Associação Brasileira de Municípios (ABM) em catalogar quase 3 mil lixões com potencial de transformação em aterros sanitários e usinas de biometano reforça a escala potencial dessa fonte no país.
Tabela de Especificações Técnicas
| PLATAFORMA DE MOTOR | CILINDRADA | COMBUSTÍVEL / CONCEITO | APLICAÇÕES PRINCIPAIS |
| B6.7N | 6.7 Litros | Nativamente a Gás / Biometano | Leves, médios e semipesados |
| X15N | 15 Litros | Gás Natural / Biometano (HELMCTM) | Pesados e extrapesados (Longo curso) |
| Plataforma HELMCTM | Diversas | Multi-combustível (Gás, H2, Diesel) | Arquitetura global com troca de cabeçotes |
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Outros mercados x Brasil: O paradigma do GNL e do biometano
Ao comparar a adoção do gás no Brasil com grandes mercados globais, o executivo citou o exemplo impressionante da China, que registrou a venda de cerca de 200 mil caminhões heavy-duty a gás em um único ano — volume impulsionado pela expressiva malha de Gás Natural Liquefeito (GNL) e pela paridade econômica favorável perante o diesel.
No Brasil, a estratégia ganha contornos próprios. A grande aposta recai sobre o biometano de produção local e a expansão de ecossistemas regionais, contornando gargalos de infraestrutura rodoviária de longa distância por meio de frotas dedicadas ou rotas do agronegócio.
A Cummins investe cerca de R$ 50 milhões por ano no Brasil em fábrica e desenvolvimento tecnológico. Parte fundamental desse investimento está no BTC (Brazilian Technical Center), localizado na planta de Guarulhos.
O centro técnico conta com certificações internacionais para rodar testes Euro, EPA (EUA) e CARB (Califórnia). No BTC, a engenharia valida o comportamento do gás e do biometano nacional — controlando teores de enxofre e variações químicas — para garantir que o desgaste de componentes de combustível e ignição seja mantido nos padrões globais de durabilidade.
No que diz respeito aos diferenciais técnicos e à sua validação no mercado brasileiro, o motor destaca-se por sua elevada capacidade para uso com PTO (tomada de força). Quando aplicado em caminhões compactadores de lixo, o propulsor passa por uma calibração exclusiva desenvolvida pela engenharia local, garantindo um rendimento otimizado e uma tomada de força que superam a produtividade média dos concorrentes do segmento.
Outro ponto forte dessa motorização é a eficiência do seu sistema de pós-tratamento, que opera sob a tecnologia de ciclo Otto a gás e dispensa totalmente o uso do reagente Arla 32. Além de simplificar a operação diária e reduzir custos com insumos adicionais, todo esse conjunto de pós-tratamento é montado localmente na planta da própria Cummins, localizada em Guarulhos (SP).
Biodiesel: O avança do biocombustível e os desafios logísticos
A Cummins confirma que suas plataformas a diesel atuais (Euro 6) no Brasil já estão 100% homologadas para operar com até 20% de biodiesel (B20) mantendo total confiabilidade operacional.
No entanto, diante da pressão do mercado para elevação da mistura obrigatória para B25 ou B30, a equipe técnica da fabricante faz ressalvas importantes. O grande obstáculo para essa transição não reside na estrutura mecânica dos motores, mas sim nos desafios da cadeia logística do combustível, com foco nos processos de conservação e estocagem, visto que o biodiesel apresenta uma tendência elevada à oxidação e à absorção de água.
Além disso, a contaminação microbiológica surge como um ponto crítico de atenção. A proliferação descontrolada de fungos e bactérias nos tanques de armazenamento provoca a formação de borra, resultando no entupimento frequente de filtros e em severos danos aos componentes do sistema de injeção. Os produtos químicos (biocidas) atuais ainda não possuem eficácia total comprovada para neutralizar os efeitos do envelhecimento do combustível estocado.
Motores de 15 litros e o cauteloso caminho do hidrogênio
Para o segmento pesado e extrapesado de longo curso, a Cummins projeta a introdução do motor a gás de 15 litros (X15N). Trata-se de uma tecnologia amplamente testada nos Estados Unidos e na América Latina, voltada a operações que exigem alta capacidade de tração, atendendo a nichos do agronegócio e rotas com logística de biometano já estabelecida, como o ecossistema da Copersucar.
Já em relação ao hidrogênio e às soluções de retrofit, Antonio Almeida adota uma postura realista. Embora a fabricante conte com a tecnologia pronta dentro da arquitetura HELMC™ — plataforma global com bloco comum e troca de cabeçotes para operar a diesel, gás ou hidrogênio —, a adoção do H₂ no Brasil ainda enfrentará um longo período restrito a early adopters. O custo elevado do quilo do combustível e a ausência de uma rede de postos colocam o biometano anos à frente na viabilidade comercial.
Pós-venda, parcerias estratégicas e preparação da rede
Questionado sobre a aplicação do motor Cummins 2.5L no caminhão leve Foton Aumark S 315, o executivo explicou o modelo de atuação da marca com novas fabricantes chinesas no país. Presente na China há mais de 50 anos por meio de joint ventures — com Dongfeng, Foton, Sinotruk, JAC, Guangxi e Shacman —, a Cummins adaptou sua estrutura de suporte para o mercado brasileiro sob o modelo Dealer Affiliate.
Nesse formato, a rede própria — composta por 6 distribuidores e cerca de 100 pontos de atendimento — atua homologando e certificando as concessionárias parceiras. Os canais foram capacitados para fornecer ferramental, diagnóstico ágil e suporte de garantia em campo, acompanhando a expansão das marcas parceiras em solo nacional.
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