A colisão entre dois helicópteros sempre causa mais comoção do que um acidente entre caminhões. Há razões óbvias para isso — o inusitado, o impacto visual, a sensação de que “não deveria acontecer”. Mas este artigo não é sobre a espetacularização de tragédias. É sobre o fato de que elas não deveriam existir.
A perda de vidas é sempre devastadora. O que mais choca, porém, é saber que muitas dessas tragédias eram evitáveis. E mais grave ainda é ouvir o prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes, minimizar o ocorrido chamando-o de “fatalidade”.
Fatalidade, prefeito, foi o que aconteceu em 1815 na ilha de Sumbawa, na Indonésia, quando o vulcão Tambora entrou em erupção e matou cerca de 92 mil pessoas. Aquilo era imprevisível, incontrolável, inevitável.
Acidentes aéreos e rodoviários não são.
Espero que o “had news” reflita sobre isso em vez de tratar o tema como fatalidade. Não é fatalidade.
Escrevemos diariamente sobre tecnologias de rastreamento, telemetria, roteirização, prevenção. Uma colisão entre aeronaves era imaginável há 100 anos — imagine em 2026. Tratar uma tragédia como essa como “fatalidade” é, no mínimo, ignorância. No máximo, falta de caráter.
A tragédia já aconteceu. Agora, o mínimo que se espera é humildade para reconhecer falhas e corrigir processos, para que novas mortes não ocorram — como acontece todos os dias no asfalto brasileiro por má gestão, falta de fiscalização e descaso com a segurança.
Esta tragédia, como tantas outras, tem a ver com gestão. Não é premonição dizer que novas encostas no Rio de Janeiro vão ceder. É apenas constatar o óbvio: quando o poder público trata o previsível como inevitável, o resultado é sempre o mesmo — vidas perdidas que poderiam ter sido salvas.
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