Da recente sociedade com a Ford na Espanha ao histórico resgate da Volvo, o conglomerado de Li Shufu redefiniu o mapa das alianças globais por meio de joint ventures, aquisições e sinergia industrial
Enquanto grande parte das montadoras ocidentais enfrenta gargalos na transição energética, custos crescentes de P&D e ociosidade fabril, a chinesa Zhejiang Geely Holding Group consolida um modelo de expansão único no ecossistema automotivo global. Em vez de impor barreiras de entrada isoladas ou construir redes do zero, a companhia fundada por Li Shufu optou por infiltrar-se no coração da indústria ocidental por meio de aquisições cirúrgicas, compartilhamento de plataformas modulares e joint ventures estratégicas de ocupação industrial.
De fábricas de grande porte na Europa ao ecossistema de powertrain e componentes na América Latina, a trajetória recente da Geely evidencia uma estratégia pragmática: aportar arquiteturas elétricas avançadas, software e escala em troca de presença de mercado, capacidade produtiva e capilaridade de pós-venda.
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Abaixo, a Frota News reconstitui a cronologia dessa expansão ocidental, partindo das investidas mais recentes até os pilares históricos que consolidaram o império global da Geely.
1. Julho de 2026: Parceria industrial com a Ford em Valência
O movimento mais recente da Geely no tabuleiro europeu foi selado com a Ford Motor Company. As companhias constituíram uma joint venture estratégica para assumir a operação do polo fabril de Almussafes, em Valência (Espanha). Com 66% de capital da Ford e 34% da Geely Auto, a sociedade resolveu um dilema produtivo para ambas: viabilizou a ocupação da planta espanhola e concedeu à Geely sua primeira linha de montagem de veículos na Europa continental.
A partir dessa estrutura compartilhada, a fábrica produzirá modelos como o renovado Ford Kuga, um novo crossover da linha Bronco e dois SUVs 100% elétricos sob a marca Geely (com destaque para o modelo EX5). Para a chinesa, a montagem local em solo espanhol representa um trunfo crucial para contornar as barreiras tarifárias e protecionistas da União Europeia sobre veículos elétricos importados da China.
2. 2024: A frente brasileira e a sociedade global da Horse com a Renault
No Brasil e na América Latina, a Geely fincou bases sólidas por meio de uma estratégia dupla estruturada com o Renault Group. O pilar global dessa união consumou-se com a criação oficial da Horse Powertrain Limited — uma joint venture de participações iguais (50/50, com a posterior entrada da Saudi Aramco) dedicada ao desenvolvimento e fabricação de motores a combustão e sistemas híbridos de última geração.
No cenário nacional, esse arranjo resultou na transferência do complexo de motores de São José dos Pinhais (PR) para o guarda-chuva da Horse. Em paralelo, a Geely firmou acordos operacionais com a Renault do Brasil para utilizar a infraestrutura industrial e a rede logístico-comercial francesa no país, preparando o terreno para a produção e comercialização de veículos híbridos e elétricos baseados na engenharia geelyana, além do compartilhamento de plataformas para novos utilitários e crossovers.
3. 2021: Jidu / Jiyue com a Baidu e a ofensiva da cabine inteligente
Em 2021, de olho na convergência entre inteligência artificial e veículos elétricos, a Geely uniu forças com a gigante de tecnologia chinesa Baidu para criar a Jidu Auto (posteriormente renomeada para Jiyue). Na divisão de tarefas dessa JV, a Geely assumiu a responsabilidade pela plataforma física (SEA) e pela manufatura automotiva, enquanto a Baidu integrou seus sistemas de condução autônoma, cabine inteligente e ecossistema de software, demonstrando a capacidade da Geely de atuar também como fornecedora de manufatura avançada para empresas de tecnologia.
4. 2020: A reinvenção elétrica da smart com a Mercedes-Benz
Em janeiro de 2020, a Geely e a Mercedes-Benz oficializaram a criação da smart Automobile Co., Ltd., uma joint venture 50/50 destinada a transformar a tradicional marca de microcarros urbanos em uma fabricante global de SUVs compactos e crossovers premium 100% elétricos (como o Smart #1 e Smart #3).
O modelo adotado tornou-se referência de eficiência industrial: o design e a identidade visual permaneceram sob o comando do centro de estilo da Mercedes-Benz em Stuttgart, enquanto toda a engenharia, desenvolvimento de powertrain elétrico e produção foram transferidos para as plantas da Geely na China. (Vale lembrar que, em 2018, Li Shufu já havia adquirido individualmente cerca de 9,7% das ações da Mercedes-Benz AG, tornando-se o maior acionista individual do grupo à época).
5. 2017: A expansão na Ásia com a Proton e o salto para a Lotus e LEVC
O ano de 2017 marcou uma virada estratégica na expansão ocidental e global do conglomerado. A Geely adquiriu 49,9% da fabricante malaia Proton em uma joint venture com a DRB-HICOM, obtendo acesso direto ao mercado do Sudeste Asiático (ASEAN). O pacote da transação incluiu o controle majoritário (51%) da lendária marca de esportivos britânica Lotus Cars. Sob a gestão geelyana, a Lotus recebeu aportes bilionários para migrar de carros puramente analógicos para hipercarros e SUVs elétricos de altíssimo desempenho (como o Evija e o Eletre).
Na mesma época, a Geely assumiu o controle total da London Taxi Company, rebatizando-a como LEVC (London EV Company). A marca britânica responsável pelos icônicos táxis pretos londrinos foi transformada em referência de veículos comerciais leves e táxis elétricos de alcance estendido.
6. 2010: O Divisor de Águas com a Aquisição da Volvo Cars
Nenhuma análise sobre a Geely é completa sem retornar a agosto de 2010. A compra da Volvo Cars junto à Ford por US$ 1,8 bilhão foi, à época, vista com ceticismo pelo mercado financeiro internacional. Contudo, a gestão do grupo chinês preservou a autonomia criativa e de engenharia dos suecos em Gotemburgo, enquanto aportou o capital necessário para o desenvolvimento da plataforma modular CMA.
A aquisição da Volvo funcionou como a fundação de todo o império atual: permitiu a criação da marca global Lynk & Co (uma JV direta entre Geely Auto e Volvo Cars) e forneceu a base tecnológica para que a Geely saltasse de uma fabricante regional chinesa para uma das maiores forças de arquitetura automotiva do mundo.
A presença multipolar da Geely demonstra como a transição energética não está apenas mudando motores, mas reorganizando a geografia industrial e logística do transporte global. Ao combinar o know-how de manufatura elétrica da China com a força de marca e a capacidade instalada de gigantes ocidentais como Ford, Renault e Mercedes-Benz, a Geely consolida um ecossistema que vai muito além de vender carros: trata-se de fornecer a infraestrutura modular para a mobilidade de passageiros e frotas das próximas décadas.
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