Uso do diesel B15 preocupa frotistas e leva setor a discutir armazenamento e qualidade do combustível

Pesquisa com transportadoras aponta aumento nas paradas de manutenção; entidades do setor vão promover evento em Belo Horizonte para discutir armazenamento e manuseio do combustível

O uso do diesel B15, combustível composto por 15% de biodiesel misturado ao diesel fóssil, está no centro de discussões entre integrantes do transporte rodoviário de cargas, oficinas mecânicas e representantes da cadeia de combustíveis. O tema ganhou relevância após relatos de aumento nas intervenções de manutenção em veículos comerciais e resultados de uma pesquisa da Federação das Empresas de Transporte de Cargas do Estado de São Paulo (FETCESP). Nesse contexto, entidades ligadas ao setor promoverão, em 7 de novembro, no SENAI BH Horto, em Belo Horizonte (MG), o workshop “Tanque em Dia: Boas Práticas em Foco”, voltado à discussão de procedimentos de armazenamento, conservação e manuseio do combustível.

Levantamento realizado pela FETCESP com 126 transportadoras indica que 62,7% das empresas perceberam alterações no funcionamento e no desempenho dos veículos após a ampliação da mistura de biodiesel. Segundo a pesquisa, 64,3% relataram aumento nas paradas para manutenção preventiva e corretiva, com reflexos nos custos operacionais das frotas.

Saiba mais:
Transportadoras relatam impactos operacionais após aumento do teor de biodiesel, aponta FETCESP

Impactos observados nas operações

Entre os principais apontamentos apresentados por transportadores e oficinas estão a substituição precoce de filtros de combustível, obstruções em componentes do sistema de injeção e dificuldades relacionadas ao armazenamento do produto por períodos prolongados.

De acordo com informações do setor, o biodiesel possui características higroscópicas, absorvendo água presente na umidade do ar, além de propriedades detergentes. Essas características podem favorecer o desprendimento de resíduos acumulados em tanques de armazenamento e abastecimento, contribuindo para a formação de borras e depósitos orgânicos.

Entre as ocorrências relatadas estão a saturação antecipada de filtros de combustível, que em alguns casos passam a exigir substituição antes da quilometragem prevista, além de acúmulo de resíduos em bicos injetores e bombas de alta pressão. Também são mencionados processos de oxidação mais acelerados em combustíveis armazenados por períodos de inatividade e questionamentos sobre cobertura de garantias e necessidade de aditivação preventiva em determinados veículos.

Evento reúne representantes da cadeia de abastecimento

Diante desse cenário, a AliançaBiodiesel, iniciativa da APROBIO e da ABIOVE, juntamente com Sindirepa-MG, SENAI BH Horto, Actioil e UBRABIO, realizará o workshop “Tanque em Dia: Boas Práticas em Foco – Edição Diesel”. O encontro reunirá profissionais de postos de combustíveis, oficinas, transportadoras, gestores de frota e técnicos para discutir práticas de armazenamento e conservação do combustível.

Segundo Jerônimo Goergen, presidente da APROBIO, a manutenção da qualidade do combustível depende da atuação coordenada de todos os elos da cadeia. “A indústria entrega um combustível dentro da especificação, e a distribuição e a revenda trabalham para que ele chegue assim ao consumidor. O passo seguinte é dar a quem usa as condições e a informação para que essa qualidade se mantenha até o motor. É um compromisso compartilhado, e cada elo tem uma parte, inclusive a nossa, de levar conhecimento técnico para a ponta. Prevenção custa muito menos do que descobrir o problema quando o motor já parou”, afirmou.

Na mesma linha, André Nassar, presidente executivo da ABIOVE, destacou a importância da disseminação de procedimentos operacionais ao longo da cadeia de abastecimento. “A excelência do biodiesel produzido no Brasil é atestada com rigor, mas o zelo com esse insumo precisa ser contínuo. Nosso papel institucional também abrange disseminar as melhores práticas operacionais para garantir que a qualidade do nosso processo produtivo seja percebida integralmente no rendimento lá na ponta. Avançamos para o uso de proporções maiores de biocombustíveis com total segurança e previsibilidade, contudo, o êxito dessa transição passa diretamente pela qualificação de quem manuseia o produto”, declarou.

Divergência entre percepção do mercado e posicionamento do setor

Enquanto produtores de biodiesel afirmam que o B15 atende aos padrões de qualidade estabelecidos pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), transportadores, mecânicos e gestores de frota continuam relatando problemas operacionais relacionados ao combustível em diferentes canais de comunicação e redes sociais.

O debate inclui publicações sobre substituição de filtros, limpeza de tanques, custos de manutenção e uso de aditivos para controle de umidade. Segundo o setor, os momentos de alteração nos percentuais obrigatórios de mistura costumam aumentar o volume de questionamentos e relatos sobre desempenho e conservação do combustível.

Apesar das divergências, representantes da cadeia produtiva, do transporte e da manutenção convergem em um ponto: a necessidade de controle da umidade, limpeza periódica dos tanques de armazenamento, cuidados nos processos de transferência do combustível e capacitação dos profissionais envolvidos no abastecimento e na operação das frotas.

Serviço

O workshop “Tanque em Dia: Boas Práticas em Foco – Edição Diesel” será realizado em 7 de novembro, a partir das 8h, no SENAI BH Horto, em Belo Horizonte (MG). O evento é promovido pela AliançaBiodiesel (APROBIO e ABIOVE), Sindirepa-MG, SENAI BH Horto, Actioil e UBRABIO.

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Marcos Villela Hochreiter
Marcos Villela Hochreiterhttps://www.frotanews.com.br
Atuo como jornalista no setor da mobilidade desde 1989 em diversas redações. Também nas áreas de comunicação da Fiat e da TV Globo, e depois como editor da revista Transporte Mundial por 22 anos, e diretor de redação de núcleo da Motor Press Brasil. Desde 2018, represento o Brasil no grupo do International Truck of the Year (IToY), associação de jornalistas de transporte rodoviário de 34 países. Desde 2021, também atuo como colaborador na Fabet (Fundação Adolpho Bósio de Educação no Transporte, entidade educacional sem fins lucrativos). Em 2023, fundei a plataforma de notícias de transporte e logística Frota News, com objetivo de focar nos temas que desafiam as soluções para gestão de frotas.
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