Dossiê: Os 50 anos da indústria de motocicletas e expansão da mobilidade elétrica no Brasil

Setor de duas rodas registra faturamento acumulado de R$ 16,5 bilhões no primeiro quadrimestre de 2026 e impõe uma operação de alta complexidade para conectar o Polo de Manaus a milhares de cidades e fornecedores

No ano em que comemora cinco décadas de fundação sob o lema “Conectando o Brasil em Duas Rodas”, a Associação Brasileira dos Fabricantes de Motocicletas, Ciclomotores, Motonetas, Bicicletas e Similares (Abraciclo) apresentou um balanço altamente positivo sobre o desempenho industrial do setor. Durante o Encontro de Imprensa realizado em 13 de julho de 2026, o presidente da entidade, Marcos Bento, destacou a consolidação do Polo de Duas Rodas em Manaus como o maior polo de produção de motocicletas fora do eixo asiático, tendo superado a histórica marca de 40 milhões de motocicletas produzidas desde o início de suas operações.

Os dados financeiros e operacionais apontam para um período de forte expansão na indústria nacional. O faturamento acumulado entre janeiro e abril de 2026 atingiu R$ 16,5 bilhões, o que representa um crescimento de 11,5% em comparação aos R$ 14,8 bilhões registrados no mesmo período de 2025O faturamento total do ano de 2025 fechou em R$ 44,8 bilhões.

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Esse dinamismo reflete diretamente na geração de empregos na região amazônica, onde as vagas diretas saltaram de 20,9 mil em 2025 para uma projeção de 21,9 mil em 2026. Em âmbito nacional, o impacto socioeconômico da cadeia produtiva é expressivo, totalizando mais de 154 mil empregos diretos, 1,5 mil empresas fornecedoras de componentes e 7,8 mil pontos de vendas de bicicletas e concessionárias de motocicletas.

Essa magnitude de mercado impõe uma operação logística de alta complexidade no Brasil, estruturada em um modelo de fluxo bidirecional de grande escala. Para manter o ritmo de fabricação na Zona Franca, a cadeia produtiva depende do transporte massivo e pontual de componentes (logística inbound) fornecidos por essas 1,5 mil empresas parceiras localizadas em diferentes partes do território nacional, principalmente nas regiões Sul e Sudeste.

Os insumos precisam cruzar milhares de quilômetros por rodovias e rotas de cabotagem até os portos de transbordo, de onde seguem em balsas fluviais pelos rios amazônicos para abastecer continuamente as linhas de montagem.

A capacidade produtiva instalada no Polo Industrial de Manaus (PIM) alcançou o patamar de 2,1 milhões de motocicletas por ano e 500 mil bicicletas anuais. No segmento de motocicletas, a produção acumulada no primeiro semestre de 2026 alcançou 1.063.397 unidades, um avanço de 6,3% em relação às 1.000.749 unidades fabricadas na primeira metade de 2025.

A projeção da Abraciclo para o encerramento de 2026 estima uma produção total de 2.070.000 motocicletas, um acréscimo de 4,5% sobre as 1.980,5 mil unidades de 2025, dando continuidade à tendência de alta verificada no ano anterior, que registrou evolução de 13,3% sobre 2024.

O escoamento de toda essa produção finalizada (logística outbound) demanda uma frota massiva e especializada de carretas e embarcações para cruzar as hidrovias do Norte e alcançar a malha rodoviária federal. O mercado de varejo e emplacamentos de motocicletas estabeleceu um recorde histórico de vendas no primeiro semestre de 2026, com 1.174.344 unidades comercializadas, um aumento de 14,1% perante o volume de 1.029.549 verificado no mesmo intervalo do ano anterior.

Essa gigantesca distribuição pressiona diretamente a infraestrutura logística nacional, direcionando o tráfego pesado majoritariamente para as regiões Nordeste (líder de varejo com 384,4 mil unidades e share de 32,7%) e Sudeste (com 383,6 mil motocicletas e idênticos 32,7%), além de movimentar rotas de longo curso para abastecer o Sul (155 mil), o Norte (141,3 mil) e o Centro-Oeste (110 mil unidades).

Na análise técnica por cilindrada de janeiro a junho de 2026, os modelos de até 160 cilindradas continuam dominantes, com 831,2 mil unidades produzidas e participação de 78,2%. Os modelos de 161 a 449 cilindradas registraram 199,9 mil unidades, enquanto a categoria acima de 450 cilindradas somou 32,3 mil motocicletas, apresentando a maior taxa de variação percentual com uma alta de 37,4%.

Quanto ao tipo de combustível, os motores Flex lideram com 664,2 mil unidades, seguidos pelos modelos exclusivamente a gasolina, com 399,2 mil unidades. Por categoria, as motos Street encabeçam a lista de produção com 543,6 mil unidades, seguidas por Trail, Motoneta e Scooter. Esse transporte de veículos de alto valor agregado e a distribuição pulverizada de peças de reposição e pós-venda exigem das transportadoras sistemas robustos de gerenciamento de risco e contêineres fechados.

As exportações de motocicletas também demonstraram forte aceleração no primeiro semestre de 2026, somando 24.084 unidades enviadas ao exterior, uma alta de 29,4% frente às 18.611 unidades registradas na primeira metade de 2025. A Argentina manteve-se como o principal destino marítimo e rodoviário dos produtos brasileiros, absorvendo 41,9% do volume exportado, seguida pelos Estados Unidos, Colômbia, Austrália e Guatemala. Entre as categorias exportadas, os modelos Trail responderam por 60,4% dos negócios, enquanto os veículos Off-Road representaram 38,7%.

Segundo Marcos Bento, o mercado usufrui de uma demanda consistente impulsionada pelas vantagens de economia, mobilidade urbana e utilização profissional, além da diversificação trazida pelos consórcios e lançamentos tecnológicos. Contudo, o setor mapeia desafios macroeconômicos e ambientais complexos que afetam diretamente o planejamento de frotas, incluindo o risco de estiagem severa na região amazônica decorrente do fenômeno climático Super El Niño.

A seca extrema compromete a navegabilidade dos rios e reduz a capacidade de carga das balsas, forçando as empresas de logística a adotarem planos de contingência dispendiosos, que se somam às discussões sobre tarifas alfandegárias protecionistas e à volatilidade cambial e de juros condicionada pelo calendário de eleições no Brasil e nos Estados Unidos.

No segmento de bicicletas, conduzido pelo diretor-executivo Sergio Oliveira, a produção totalizada de janeiro a junho de 2026 somou 163.158 unidades. A distribuição geográfica e o transporte de saída dessa produção concentram-se na região Sudeste, responsável por 92,3 mil unidades, seguida pelo Sul, Nordeste, Centro-Oeste e Norte.

O grande destaque do período foi a consolidação da bicicleta elétrica, que registrou um aumento de 100% no volume produzido, subindo de 18,2 mil unidades em 2025 para 34,1 mil em 2026. A categoria de e-bikes expandiu seu market share para 20,9% do total, aproximando-se da categoria Urbana/Lazer e diminuindo o espaço das tradicionais Mountain Bikes (MTB), que caíram de 52,3% para 37,8% de participação.

Para estruturar e orientar essa rápida transição tecnológica nas cidades brasileiras, a Abraciclo anunciou o lançamento do “Caderno Técnico de E-Bikes”, focado em subsidiar prefeituras, órgãos de trânsito estaduais e municipais, além de centros comerciais e universidades, com diretrizes sobre classificação de produtos, circulação viária, desenho de sinalização, infraestrutura de recarga e estratégias de fiscalização e educação.

O mercado de bicicletas enxerga oportunidades no interesse crescente do consumidor por mobilidade elétrica e no aquecimento do mercado de manutenção e serviços, enfrentando desafios operacionais relacionados à concorrência com produtos importados e à necessidade de assegurar isonomia competitiva nas certificações.

O avanço desse mercado urbano é impulsionado ainda por políticas governamentais estruturadas, como o programa Move Brasil do Governo Federal, voltado a entregadores e usuários de aplicativos de transporte. O programa oferece linhas de crédito facilitadas por meio da Caixa Econômica Federal, Banco do Brasil e demais entidades financeiras habilitadas, permitindo a aquisição de ciclomotores, motonetas e motocicletas flex de até 165 cilindradas fabricadas no país, além de versões elétricas de até 7.500W, bicicletas e autopropelidos elétricos de até 1.000W.

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Marcos Villela Hochreiter
Marcos Villela Hochreiterhttps://www.frotanews.com.br
Atuo como jornalista no setor da mobilidade desde 1989 em diversas redações. Também nas áreas de comunicação da Fiat e da TV Globo, e depois como editor da revista Transporte Mundial por 22 anos, e diretor de redação de núcleo da Motor Press Brasil. Desde 2018, represento o Brasil no grupo do International Truck of the Year (IToY), associação de jornalistas de transporte rodoviário de 34 países. Desde 2021, também atuo como colaborador na Fabet (Fundação Adolpho Bósio de Educação no Transporte, entidade educacional sem fins lucrativos). Em 2023, fundei a plataforma de notícias de transporte e logística Frota News, com objetivo de focar nos temas que desafiam as soluções para gestão de frotas.
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