Rotina nas estradas e sobrecarga materna evidenciam lacunas legais para pais e mães que cuidam sozinhos de crianças com deficiência
A rotina dos motoristas profissionais que passam longos períodos fora de casa tem exposto um conjunto de dificuldades enfrentadas por famílias atípicas, especialmente aquelas que cuidam de crianças com deficiência ou neurodivergência. A ausência prolongada do pai, somada à sobrecarga materna, reacende o debate sobre a criação de uma legislação específica que reconheça e proteja essas famílias, cuja realidade ainda não é contemplada pelas normas brasileiras.
Em lares onde há crianças com transtorno do espectro autista (TEA), síndromes raras ou outras condições que exigem acompanhamento contínuo, a dinâmica familiar se torna ainda mais complexa. Mães relatam jornadas exaustivas entre terapias, consultas, deslocamentos e cuidados diários, enquanto os pais — caminhoneiros, motoristas de ônibus ou profissionais autônomos — permanecem dias ou semanas nas estradas, impossibilitados de participar da rotina de tratamento dos filhos.
O empresário e ex-caminhoneiro Tomio Yano, candidato a deputado federal, afirma que essa realidade é comum entre famílias do setor. Casado há mais de 25 anos e pai atípico de duas meninas gêmeas de 8 anos, ambas diagnosticadas com TEA — uma nível 3 e outra nível 2 — e com a Síndrome de Bainbridge Ropers, Yano relata que a vivência pessoal o levou a compreender a dimensão do problema. “Nossa luta diária é em busca dos direitos pelos tratamentos básicos delas, e nessa rotina diária em clínicas, conhecemos dezenas de pais e mães atípicas, e muitas passam por situações realmente críticas devido à falta de apoio para os tratamentos e deslocamentos”, afirma.
Segundo Yano, a ausência de políticas específicas deixa essas famílias desamparadas. “Nossa vivência nos dá propriedade para saber dos direitos básicos para melhorar a situação dessas famílias”, diz o empresário, que defende a criação de mecanismos legais que facilitem o acesso a terapias, diagnósticos precoces, suporte multiprofissional e programas de assistência voltados à rotina de quem cuida sozinho de crianças com deficiência.

Especialistas em políticas sociais apontam que, embora existam leis gerais de proteção às pessoas com deficiência, elas não contemplam as particularidades das famílias de motoristas que vivem sob o impacto direto da ausência prolongada. A falta de uma rede de apoio estruturada, aliada às dificuldades financeiras e logísticas, compromete o desenvolvimento das crianças e sobrecarrega emocionalmente as mães.
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A defesa por uma legislação específica inclui propostas como prioridade em atendimentos especializados, flexibilização de agendas, ampliação de acesso a terapias e criação de programas de suporte familiar. Para entidades do setor, reconhecer oficialmente a condição dessas famílias é essencial para reduzir desigualdades e garantir direitos básicos.
O debate, antes restrito a grupos de apoio e profissionais das estradas, ganha força ao evidenciar que a vida nas rodovias não afeta apenas o trabalhador, mas toda a estrutura familiar que depende dele. A expectativa é que o tema avance no Congresso e que famílias atípicas de motoristas tenham, enfim, sua realidade reconhecida e protegida por lei.
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