segunda-feira, maio 20, 2024

Mercado de caminhões 2023: análise com muitos fatos revelados pelos números

O resultado negativo do mercado de caminhões 2023 já era esperado. Em todos os anos que ocorre mudança de fase do Proconve (Programa de Controle da Poluição do Ar por Veículos Automotores), há antecipação de compra no ano anterior, prejudicando o ano seguinte. Isso sempre ocorreu.

Agora, com os números oficiais de emplacamentos divulgados pela Anfavea (associação dos fabricantes), podemos analisar outros fatos curiosos sobre os números e comportamento do mercado. Entre eles, a DAF Caminhões foi a única que cresceu em vez de cair, se diferenciando de todas as outras concorrentes. Outra notícia, mesmo que esperada, é a confirmação da liderança da Volkswagen Caminhões e Ônibus (VWCO) por mais um ano, mas com um distanciamento do segundo colocado. No entanto, fazemos uma análise de cada segmento.

As segmentações

O mercado de caminhões na sua totalidade teve queda de -14,7%. Agora, analisaremos quais foram as marcas que fecharam o ano com um índice melhor e pior do que a totalidade do mercado, considerando os segmentos de atuação (classificação de cada segmento na imagem abaixo).

mercado de caminhões 2023
Fonte: Carta da Anfavea

Montadoras que atuam, pelo menos, em quatro dos cinco segmentos de mercados de caminhões: Mercedes-Benz, Volkswagen e Iveco. Vale deixar claro que, nos rankings abaixo, são marcas com fábrica no Brasil. No total de emplacamento, estão também modelos importados.

Números da Carta da Anfavea

Marca 2023 2022 Diferença
Mercado na totalidade 108.024 126.643 -14,7%
VWCO 27.018 34.506 -21,7%
Mercedes-Benz 22.830 30.568 -25,3%
Iveco 9.350 10.609 -11,9%

 

Com esse recorte, a Iveco foi a marca, entre essas três, que teve o melhor resultado, ou seja, teve queda abaixo da totalidade. A Volkswagen manteve a liderança pela 20ª vez em seus 42 anos de existência no Brasil. Em 2023, a VWCO também aumentou a diferença para o segundo colocado, a Mercedes-Benz. Se essa diferença era de  3.938 unidades em 2022, aumentou para 4.188 caminhões.

Ainda dois fatos a serem considerados. Desde a separação global das divisões de automóveis e vans (Mercedes-Benz Cars &Vans), e caminhões e ônibus (Mercedes-Benz Caminhões e Ônibus), a Mercedes-Benz do Brasil (MBB) não participa mais do segmento de caminhões semileves com a linha Sprinter. Até antes dessa mudança, a MBB contaria com mais 2.369 Sprinter, mas esses números são computados para a Mercedes-Benz Cars & Vans Brasil.

O segundo fato é que a VWCO conta, também, com o modelo VW Express, classificado pelo Código de Trânsito Brasileiro (CTB) como caminhonete, portanto, ele entra em outra estatística, a de veículo comercial leve. Assim, aos números da VWCO somam mais 1.898 unidades, totalizando 28.816 veículos de cargas emplacados em 2023. O mesmo ocorre com a Iveco, que conta com Daily com PBT de 3.500 kg, com 1.737 unidades, totalizando 11.086.

Caminhões pesados

Marca 2023 2022 Diferença
Total de pesados 53.294 65.008 -18,0%
Volvo 15.687 18.747 -16,3%
Scania 11.619 13.204 -12,0%
Mercedes-Benz 10.311 15.405 -33,1%
DAF 7.512 6.500 +15,6%
Volkswagen 5.691 8.578 -33,7%
Iveco 2.452 2.564 -4,4%

 

No segmento de pesados, fica claro que a parte dos transportadores mais avançados e que atendem embarcadores mais exigentes com temas relacionados a segurança veicular e eficiência enérgica, investiram nos caminhões pesados premium.

Essa é a principal razão para os modelos com valores acima de R$ 1 milhão serem os mais vendidos em 2023, como o Volvo FH 540, líder do mercado total com 7.200 unidades vendidas. Segue imagem do ranking da Fenabrave com os 10 pesados mais vendidos abaixo:

mercado de caminhões 2023
Fonte: Fenabrave. Os números totais sempre foram diferentes entre a Fenabrave e Anfavea, por leitura diferentes dos dados que recebem do Denatran

Leia também: análise que já fizemos sobre a DAF Caminhões Brasil publicado em dezembro:

DAF Caminhões surpreende e cresce no mercado brasileiro e europeu

Outro fato é a retomada da Scania. Mesmo com um resultado negativo de -12% em relação a 2022, a Scania subiu do terceiro para o segundo lugar no ranking. Lógico que isso tem também a ver com a perda de mercado da Mercedes-Benz. Mas perdeu para quem?

Além disso, depois da DAF, a Iveco foi a que teve o segundo melhor resultado, principalmente, após o lançamento da linha S-Way.

Semipesados

Marca 2023 2022 Diferença
Total de semipesados 28.776 32.848 -12,4%
Volkswagen 12.472 14.413 -13,5%
Mercedes-Benz 6.461 8.112 -20,4%
Iveco 4.199 4.639 -9,5%
Volvo 3.960 5.346 -25,9%
DAF 832 293 +184,0%
Scania 824 19 +4.236,8%
Agrale 8 1 166,7%

 

No segmento de semipesados há alguns fatos curiosos. Primeiramente, é sobre ampla liderança da Volkswagen. Além da ampla gama de modelos e o BMB, empresa de customização dos caminhões VW, auxiliando a fabricante de Resende (RJ) a atender as mais variadas demandas de modelos vocacionais. Além disso, hoje está claro que a VW herdou grande parte dos ex-clientes da Ford Caminhões pela similaridade da origem dos produtos.

A Iveco, novamente, apesar do resultado negativo de -9,5%, ela cresce para ficar mais próxima da Mercedes-Benz. Entre os modelos premium temos mais dois fatos. O rápido crescimento da DAF, pois ela é recém-chegada neste segmento, e o retorno da Scania. Quando a Scania fez a virada de geração, por estratégia, ela se dedicou ao segmento de pesados, e agora volta investir também no de semipesados.

Outra curiosidade. Os números de emplacamento da Agrale desmentem boatos de que a fabricante brasileira teria deixado o segmento de caminhões.

Médios

Marca 2023 2022 Percentual
Total de médios 8.320 10.423 -20,2%
Volkswagen 5.774 7.654 -24,6%
Mercedes-Benz 1.174 1.501 -21,8%
Iveco 1.160 1.160 +0,1%
Agrale 12 16 -25,0%

 

Se tem um segmento perdido é o de caminhões médios. Eles concorrem com os semipesados, quando tem PBT a partir de 14 toneladas de PBT, e com os leves, abaixo deste peso, sendo modelos derivados de caminhões leves, como os VW Delivery e Mercedes-Benz Accelo. Se tirar esses dois modelos do segmento, sobram poucos, pois só o VW Delivery 11.180, líder do segmento emplacou 4.518 unidades.

Outro fato é o crescimento da Iveco, com a linha Tector, principalmente, do Tector 11-190, com 1.159 unidades licenciadas.

Leves

Marca 2023 2022 Percentual
Total de leves 9.040 10.811 -16,4%
Mercedes-Benz 4.884 5.550 -12,0%
Volkswagen 2.480 3.235 -23,3%
Iveco 968 1.163 -16,8%
Caoa-Hyundai 317 245 +29,4%
Agrale 66 51 +29,4%

 

Neste segmento, que atende, principalmente, a distribuição urbana, tem dois fatos curiosos. O crescimento do caminhão Hyundai HD 80, marca foco com automóveis, e o crescimento da Agrale. Outro fato é a concorrência de importados, principalmente, do elétrico da JAC Motors. A soma de importados é de 313 unidades emplacadas em 2023.

Semileves

Marca 2023 2022 Percentual
Total de semileves 8.594 7.553 +13,8%
Ram 4.850 3.262 +48,7%
Mercedes-Benz Vans 2.369 2.431 -2,6%
Volkswagen 601 626 -4,0%
Iveco 570 1.083 -47,4%
Peugeot 85 29 +193,1%
Citroën 33 26 +26,9%
Agrale 4 6 -33,3%

 

O segmento de semileves é uma miscelânea, pior do que o segmento de médios. Isso ocorre por causa das definições de veículos de carga no Código de Trânsito Brasileiro. O CTB defini como camionete todos os veículos de carga com PBT até 3.500 kg, o que inclui picapes, chassi cabine e furgões. Até aqui, todos os modelos podem ser conduzidos com CNH B e seguem as mesmas regras de circulação dos automóveis. A partir do PBT de 3.501 kg, é classificado como caminhões, mesmo que seja um furgão ou picape, como as Ram 2500 e 3500. Somente os motorhome contam com uma legislação específica.

Essa mistura de tipos de veículos criam situações bastante curiosas no mercado. Primeiramente, os fabricantes fazem homologação de caminhões semileves com PBT de 3.500 kg, para serem classificados como camionete. Dessa forma, atendem melhor o setor de distribuição urbana. Isso impede uma estatística do segmento. Cada marca faz a sua, conforme o interesse dela.

Assim, concluímos os dados de emplacamento de caminhões de 2023. Agora, com o fim do estoque de modelos Euro 5, a perspectiva é de que o mercado de 2024 seja bem melhor.

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Marcos Villela Hochreiter
Marcos Villela Hochreiterhttps://www.frotanews.com.br
Sou jornalista no setor da mobilidade desde 1988, com atuações em jornais, nas áreas de comunicação da Fiat e da TV Globo, como editor da revista Transporte Mundial entre 2002 e maio de 2023, e com experiência em cobertura na área de transporte no Brasil e em cerca de 30 países. Representante do Brasil como membro associado do ITOY (International Truck of the Year), para troca de experiências e conteúdos jornalísticos. Mais, recente começou como colaborador do corpo docente na Fabet (entidade educacional sem fins lucrativos).
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