Crescimento do tamanho dos navios porta-contêineres exige investimentos em canais, terminais e acessos logísticos para manter a competitividade do comércio exterior brasileiro
Cerca de 95% do comércio internacional brasileiro é realizado por via marítima, segundo dados do Ministério de Portos e Aeroportos. Diante da ampliação do tamanho dos navios porta-contêineres em operação no mundo, especialistas apontam a necessidade de investimentos na infraestrutura portuária e logística do país para garantir eficiência operacional e competitividade. A avaliação é de Baudilio Gonzalez Regueira, sócio da Reis, Braun e Regueira Advogados Associados e especialista em Direito Marítimo e Direito dos Transportes.
De acordo com Regueira, o Brasil ampliou sua capacidade de receber embarcações de grande porte nos últimos anos, mas ainda enfrenta limitações para atender os maiores navios atualmente em operação. Segundo ele, alguns dos principais portos brasileiros já recebem embarcações com cerca de 366 metros de comprimento e capacidade próxima de 15 mil TEUs, enquanto os maiores porta-contêineres do mundo alcançam aproximadamente 400 metros e capacidade superior a 24 mil TEUs.
O especialista ressalta que a adaptação não envolve apenas a capacidade de atracação. A operação de grandes embarcações depende de uma estrutura integrada, composta por canais de acesso, berços de atracação, equipamentos de movimentação, pátios e terminais preparados para processar grandes volumes de carga com eficiência.
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Infraestrutura e acessos são desafios
Além da estrutura portuária, a chegada de navios de maior capacidade pode gerar impactos nos sistemas de transporte terrestre. Isso ocorre porque uma única escala concentra milhares de contêineres, aumentando a demanda sobre rodovias e ferrovias responsáveis pelo escoamento das cargas.
O Porto de Santos, principal complexo portuário do país, movimentou 5,9 milhões de TEUs e 186,4 milhões de toneladas em 2025. Nesse contexto, a capacidade dos acessos logísticos passa a ser considerada parte fundamental da eficiência das operações portuárias.
Outro fator apontado por Regueira é a profundidade dos canais de navegação, que influencia diretamente o calado das embarcações. O calado corresponde à distância entre a linha d’água e a parte mais profunda do navio, determinando o volume de carga que pode ser transportado em segurança.
Em Santos, o canal possui profundidade de referência de 15 metros. Em junho de 2026, foi contratado um investimento de aproximadamente R$ 618 milhões para ampliar essa profundidade para 16 metros por meio de obras de dragagem, processo que consiste na retirada de sedimentos do fundo do canal.
Competitividade e custos logísticos
Segundo o advogado, restrições relacionadas à profundidade dos canais, limitações operacionais, horários de acesso ou dependência das condições de maré podem reduzir a eficiência das operações portuárias. Nesses casos, armadores podem ser obrigados a operar com menos carga ou optar por escalas em outros portos.
Para importadores e exportadores, as limitações de infraestrutura também podem resultar em aumento de custos. Entre os possíveis efeitos estão o uso de embarcações menores, a concentração de escalas em outros portos e a ampliação das operações de transbordo, procedimento em que a carga é transferida de uma embarcação para outra ao longo da rota.
Regueira avalia que, sem acompanhar a evolução da frota global, o Brasil pode ampliar sua dependência de hubs internacionais para conexão com os principais mercados mundiais. Para ele, a expansão física dos portos deve ocorrer em conjunto com o planejamento e a integração dos diferentes modais de transporte, de forma a garantir maior eficiência logística ao comércio exterior brasileiro.
Sobre Baudilio Regueira
Baudilio Gonzalez Regueira é advogado e sócio da Reis, Braun e Regueira Advogados Associados. Atua há 25 anos nas áreas de Direito Marítimo e Direito dos Transportes, possui pós-graduação em Processo Civil, especialização em Direito Marítimo pela Universidade Católica de Santos e formação em Comunicação pela PUC-SP.
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