Tensões econômicas entre grandes potências, mudanças logísticas, transição energética e acordos multilaterais vêm alterando a dinâmica geopolítica global de negócios e exigindo maior preparo estratégico e jurídico das empresas brasileiras
A reorganização da economia global deixou de ser apenas um debate diplomático ou restrito às relações entre governos. O avanço das tensões comerciais entre Estados Unidos e China, o fortalecimento de políticas protecionistas, a disputa por cadeias produtivas estratégicas e a crescente busca por segurança econômica passaram a impactar diretamente empresas, contratos, logística e decisões de investimento em diferentes partes do mundo — incluindo o Brasil.
Nos últimos anos, expressões como “friendshoring”, “nearshoring” e “desglobalização parcial” passaram a ganhar espaço no mercado internacional para explicar um movimento cada vez mais evidente: empresas globais vêm priorizando previsibilidade, estabilidade regulatória e redução de dependência comercial em suas operações.
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Segundo dados da Organização Mundial do Comércio (OMC), o comércio global de mercadorias cresceu abaixo do esperado em 2025, refletindo justamente o aumento das incertezas econômicas e geopolíticas. Paralelamente, relatórios da UNCTAD (Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento) apontam que a reorganização das cadeias globais de produção deve continuar acelerando nos próximos anos, principalmente em setores considerados estratégicos, como tecnologia, infraestrutura, alimentos e energia.

A transição energética passou a ocupar um papel central nessa nova geopolítica. Países e blocos econômicos vêm ampliando investimentos em energias renováveis, hidrogênio verde e descarbonização industrial, não apenas por razões ambientais, mas como estratégia de segurança econômica e competitividade global.
Para o advogado Rodrigo Bueno Prestes, especialista em Direito Internacional Econômico, muitas empresas brasileiras ainda analisam o comércio exterior apenas sob uma perspectiva operacional, sem compreender que o ambiente internacional passou a exigir também leitura estratégica, jurídica e geopolítica.
“O comércio internacional ficou muito mais complexo. Durante muitos anos, a lógica predominante era custo e eficiência produtiva. Hoje, empresas e governos passaram a priorizar também a previsibilidade, estabilidade e segurança econômica. Isso muda completamente a dinâmica das relações comerciais internacionais”, afirma.
Segundo ele, o atual cenário global exige das empresas brasileiras um acompanhamento mais profundo das transformações internacionais, principalmente em relação a regulações, acordos multilaterais e posicionamento estratégico dos países.
“As decisões tomadas por grandes potências econômicas afetam cadeias produtivas inteiras. Tarifas comerciais, disputas regulatórias, sanções econômicas e mudanças diplomáticas acabam gerando impactos diretos em contratos, investimentos e operações empresariais no mundo inteiro”, explica Rodrigo.
O especialista destaca que o próprio conceito de competitividade internacional vem passando por mudanças importantes.
“Hoje, a competitividade não depende apenas de preço ou produtividade. Questões como segurança jurídica, estabilidade regulatória, capacidade logística e inserção estratégica nos acordos internacionais passaram a ter um peso muito maior nas decisões empresariais”, diz.
No campo da energia, essa transformação se torna ainda mais evidente. Cadeias globais ligadas a minerais críticos, infraestrutura de transmissão, tecnologias limpas e combustíveis de baixo carbono estão sendo reorganizadas, criando novas oportunidades — mas também novos riscos regulatórios e comerciais.
Nesse contexto, o Mercosul volta a ganhar relevância dentro das discussões sobre integração regional e posicionamento econômico internacional. O avanço das negociações envolvendo o acordo entre MERCOSUL e União Europeia, por exemplo, vem sendo acompanhado com atenção por setores ligados à indústria, agronegócio, logística, energia e comércio exterior.
Para Rodrigo Bueno, apesar do potencial econômico da integração regional, o Brasil ainda enfrenta desafios estruturais importantes para ampliar sua competitividade internacional.
“O Brasil possui relevância econômica, capacidade produtiva e posição estratégica importante. Mas ainda enfrenta gargalos relacionados à burocracia, insegurança jurídica, complexidade tributária e baixa previsibilidade regulatória. Em um ambiente global mais competitivo, esses fatores passam a ter impacto ainda maior”, analisa.
Além das relações comerciais, outro ponto que vem ganhando destaque é a chamada “segurança econômica”, conceito que passou a ser adotado por diversos países para reduzir dependências consideradas estratégicas em áreas como tecnologia, energia, semicondutores, alimentos e infraestrutura.
Segundo relatório recente do Fundo Monetário Internacional (FMI), a fragmentação geoeconômica pode gerar impactos significativos no crescimento global nos próximos anos, especialmente em países emergentes que dependem fortemente de fluxos internacionais de comércio e investimento.
Para Rodrigo, esse cenário exige das empresas brasileiras uma postura mais preparada diante das transformações internacionais.
“Muitas empresas ainda enxergam a internacionalização apenas como exportar ou importar produtos. Mas o ambiente internacional atual exige compreensão jurídica, regulatória e estratégica muito mais sofisticada. O cenário global se tornou mais técnico, mais sensível e muito mais interdependente”, conclui.
A transição energética aparece, nesse contexto, como uma das principais forças por trás dessa reconfiguração das cadeias globais.
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