Free flow: tecnologia reduz filas, mas exige nova disciplina operacional dos gestores, alerta especialista

Em entrevista à Frota News, advogado especialista em concessões rodoviárias, destaca que, com expansão gradual do pedágio eletrônico, transportadoras precisam reforçar a gestão de tags, manter cadastros atualizados, cobranças e prazos para evitar autuações e custos adicionais

A implantação do sistema de pedágio eletrônico sem praças físicas — popularmente conhecido como free flow — muda mais do que a forma de passagem dos veículos pelas rodovias. Para as empresas de transporte, a tecnologia exige uma nova camada de controle operacional e financeiro, especialmente na gestão de grandes frotas.

Em entrevista à Frota News, o advogado Luis Baeta, sócio do Aroeira Salles Advogados e especialista em Direito Público e Infraestrutura, afirma que a principal diferença está no momento da cobrança. No modelo convencional, o pagamento ocorre na praça de pedágio. No free flow, a identificação do veículo é automática e o pagamento é realizado posteriormente, por meio de tag, aplicativo, site ou outros canais disponibilizados pelas concessionárias.

É uma mudança relevante na relação entre usuário e concessionária. A cobrança deixa de ser concluída no momento da passagem e passa a se prolongar no tempo”, explica.

Para os gestores de frota, isso significa que a passagem pelo pórtico não encerra o processo. É preciso garantir que os veículos estejam corretamente identificados, que as tags estejam ativas e que os pagamentos sejam conciliados dentro dos prazos previstos.

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Tag funcional é o primeiro passo

Embora a leitura de placas por câmeras seja uma alternativa disponível, Baeta recomenda que as transportadoras priorizem o uso de tags com ampla aceitação nas rodovias. Além de simplificar a cobrança, o recurso reduz o risco de falhas no reconhecimento do veículo e facilita a centralização dos pagamentos.

“O primeiro ponto é verificar se os sistemas de tag estão atualizados, funcionando adequadamente e se há interoperabilidade para uso em praticamente todas as rodovias”, orienta.

O cuidado é especialmente importante em operações com muitos veículos, filiais e motoristas. Uma tag inativa, um para-brisa substituído ou um cadastro desatualizado podem deslocar a cobrança para outros canais e aumentar a chance de perda de prazo.

Prazo de pagamento entra no radar da operação

No free flow, o não pagamento da tarifa dentro do prazo pode gerar cobrança de encargos e resultar em autuação por evasão de pedágio. Segundo o especialista, o usuário deve acompanhar também as notificações e exercer o direito de questionar eventuais cobranças indevidas antes do vencimento.

“Os gestores precisam estar atentos às comunicações recebidas e aos prazos de manifestação. Em uma frota grande, muitas vezes a gestão é centralizada na matriz e a informação se perde no fluxo interno”, observa Baeta.

A recomendação é integrar os dados de rota, passagem pelos pórticos, saldo de tags e pagamentos realizados a uma rotina de conferência. Para transportadoras que operam cargas de terceiros, esse controle deve caminhar junto à gestão do vale-pedágio obrigatório, cuja responsabilidade é do contratante do frete.

Tecnologia traz eficiência, mas exige regulação e segurança

A adoção do free flow elimina as barreiras físicas e tende a reduzir filas, consumo de combustível, emissões e tempo improdutivo dos veículos. Por outro lado, amplia a dependência de tecnologias de identificação, como tags e sistemas de leitura automática de placas.

Baeta ressalta que novas soluções, inclusive aquelas baseadas em sinais de dispositivos móveis, precisam passar por avaliação regulatória e observar requisitos de proteção de dados. No transporte de cargas, o tema é ainda mais sensível, pois informações de deslocamento podem envolver riscos operacionais e de segurança.

“A evolução tecnológica é constante, e a regulamentação precisa acompanhar. É necessário ter um grau de certeza suficiente para identificar o usuário, notificá-lo e permitir que ele pague ou conteste a cobrança”, afirma.

Transição será gradual nas concessões

Os novos contratos de concessão rodoviária já tendem a prever o pedágio eletrônico desde sua origem. Nos contratos antigos, a migração das praças físicas para os pórticos depende de análise técnica, aprovação regulatória e, quando necessário, de termo aditivo.

O processo envolve testes, homologação dos equipamentos, comunicação aos usuários e início programado da cobrança. Por isso, a expansão do free flow deve ocorrer de forma gradual, mas a preparação das transportadoras não deve esperar a chegada do sistema à rota habitual.

Para o gestor de frota, a mensagem é direta: o free flow reduz atritos na estrada, mas aumenta a importância da gestão fora dela. Tags ativas, cadastros corretos, processos de conciliação e acompanhamento diário das cobranças serão determinantes para transformar a nova tecnologia em ganho de eficiência — e não em uma nova fonte de custos.

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Marcos Villela Hochreiter
Marcos Villela Hochreiterhttps://www.frotanews.com.br
Atuo como jornalista no setor da mobilidade desde 1989 em diversas redações. Também nas áreas de comunicação da Fiat e da TV Globo, e depois como editor da revista Transporte Mundial por 22 anos, e diretor de redação de núcleo da Motor Press Brasil. Desde 2018, represento o Brasil no grupo do International Truck of the Year (IToY), associação de jornalistas de transporte rodoviário de 34 países. Desde 2021, também atuo como colaborador na Fabet (Fundação Adolpho Bósio de Educação no Transporte, entidade educacional sem fins lucrativos). Em 2023, fundei a plataforma de notícias de transporte e logística Frota News, com objetivo de focar nos temas que desafiam as soluções para gestão de frotas.
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