Estudo aponta que pressão do trânsito aumenta comportamentos de risco entre motoristas brasileiros

Pesquisa da Fundación Mapfre, com participação da Poli-USP e da UFPR, mostra que pressa, influência social e características das vias afetam o respeito aos limites de velocidade no trânsito

A pressão do trânsito, o medo de atrasos e as demandas do cotidiano influenciam diretamente os comportamentos de risco dos motoristas brasileiros, segundo o estudo Velocidade em áreas urbanas e segurança viária: evidências sobre comportamentos, percepções e atitudes. A pesquisa foi realizada pela Fundación Mapfre, com desenvolvimento da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (Poli-USP) e da Universidade Federal do Paraná (UFPR), e contou com apoio institucional da Secretaria Nacional de Trânsito (Senatran). O levantamento ouviu 1.540 condutores de diferentes regiões do país para identificar fatores que influenciam decisões relacionadas à velocidade e ao cumprimento das normas de trânsito.

O estudo foi apresentado em evento realizado na Poli-USP, com participação do Prof. Dr. Cassiano Isler, da Poli-USP, do Prof. Dr. Jorge Tiago Bastos, da UFPR, e de Sirlei Kuiava, coordenadora de articulação institucional da Senatran. Os resultados mostram que mais de 90% dos entrevistados associam o respeito aos limites de velocidade à preservação da vida e ao exercício da cidadania. Apesar disso, cerca de um terço dos participantes afirma que fatores externos reduzem sua disposição em seguir as regras.

Entre os fatores apontados estão a pressão para acompanhar o ritmo dos demais veículos, a preocupação com atrasos, a percepção de aumento do tempo de viagem e a avaliação de que alguns limites de velocidade não correspondem às condições reais das vias. Segundo os pesquisadores, esses elementos contribuem para que motoristas, mesmo conscientes da importância da segurança viária, adotem comportamentos que aumentam os riscos de sinistros.

Mortes no trânsito reforçam preocupação com excesso de velocidade

O estudo foi desenvolvido em um cenário de alta mortalidade no trânsito brasileiro. Em 2025, a cidade de São Paulo registrou 1.038 mortes em sinistros de trânsito, o segundo maior número da série histórica. Em todo o Estado de São Paulo, foram contabilizadas 6.134 vítimas fatais, segundo dados do Infosiga e do Detran-SP.

Além das perdas humanas, os impactos econômicos também são significativos. De acordo com o Banco Mundial, o Brasil perde aproximadamente US$ 61 bilhões por ano em decorrência dos sinistros de trânsito, valor equivalente a 3,8% do Produto Interno Bruto (PIB). Nesse contexto, o levantamento buscou compreender quais fatores influenciam a escolha da velocidade pelos condutores e quais medidas podem contribuir para ampliar a segurança viária.

Família, fiscalização e ambiente urbano influenciam o comportamento

A pesquisa constatou que a influência social tem papel relevante no comportamento dos condutores. Para 80% dos entrevistados, a motivação para respeitar as normas de trânsito é maior quando parte de familiares próximos, como cônjuges, mães e filhos. O estudo também indica que os motoristas tendem a adequar a velocidade quando associam a condução segura à proteção de pessoas próximas.

Ao mesmo tempo, o receio de punições aparece como um dos principais fatores de moderação do comportamento. Cerca de 90% dos participantes afirmaram que a possibilidade de receber multas é a principal razão para reduzir a velocidade. O levantamento identificou ainda que, em vias locais e cruzamentos com presença de pedestres, a sinalização pode reduzir a velocidade praticada em até 10 km/h.

Segundo os pesquisadores, essa diferença pode ser decisiva para diminuir a gravidade dos sinistros. Como referência, o estudo utilizou evidências de pesquisa realizada no Reino Unido que apontam que a redução da velocidade de 48 km/h para 32 km/h diminui de 50% para 10% a probabilidade de vítimas fatais.

Características das vias afetam o respeito aos limites de velocidade

Os resultados também mostram que a eficácia da sinalização varia conforme as características da via. Em ruas locais e cruzamentos, as placas de velocidade tendem a ter maior influência, especialmente quando associadas a dispositivos de moderação de tráfego, como lombadas e mini rotatórias.

Já em vias expressas e mais largas, os motoristas demonstram menor adesão aos limites regulamentados. Segundo o estudo, fatores como maior fluxo de veículos e velocidades naturalmente mais elevadas contribuem para que os condutores desconsiderem com mais frequência a sinalização existente. Outro aspecto apontado pelos pesquisadores é a presença de pedestres. Pessoas circulando pelas calçadas funcionam como um moderador natural da velocidade, levando os motoristas a reduzir voluntariamente o ritmo e reforçando a adoção de velocidades mais seguras.

Resultados podem contribuir para políticas públicas

Para a representante da Fundación Mapfre no Brasil, Fátima Lima, as conclusões podem contribuir para o desenvolvimento de campanhas educativas e medidas baseadas em evidências. Já o Prof. Dr. Cassiano Isler destacou a importância de alinhar os limites de velocidade à função das vias e fortalecer a legitimidade social das medidas de segurança adotadas nas cidades.

Entre as recomendações apresentadas estão a ampliação da sinalização em áreas com circulação de pedestres e a adequação das velocidades regulamentadas às características de cada via. As conclusões também podem apoiar o cumprimento das metas do Plano Nacional de Redução de Mortes e Lesões no Trânsito (Pnatrans), que prevê reduzir em 50% o número de mortes no trânsito até 2030. O estudo completo está disponível gratuitamente no Centro de Documentação da Fundación Mapfre.

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