Transição energética e TCO: o futuro sustentável das frotas comerciais no Brasil

Murilo Briganti, COO da Bright Consulting, detalha as perspectivas para a eletrificação e o uso de combustíveis alternativos no setor de transportes até 2035

A transição energética das frotas comerciais brasileiras avança em ritmos distintos entre veículos leves e pesados, mas já estabelece um novo padrão de competitividade no setor. Em entrevista à Frota News, Murilo Briganti, COO da Bright Consulting, detalha como o Custo Total de Propriedade (TCO) se tornou o eixo central das decisões de compra e como eletrificação, gás natural, biometano e hidrogênio devem conviver no mercado até 2035.

Briganti explica que, no segmento de comerciais leves, a eletrificação já desponta como solução dominante, especialmente nas operações de última milha. A pressão regulatória do Proconve L8 — que se tornará mais rígida entre 2029 e 2031 — torna a hibridização pouco atrativa, enquanto os elétricos oferecem previsibilidade operacional, ganhos ambientais e melhor retorno no TCO. “Esse carro que vai rodar em grandes centros urbanos tem trajeto extremamente previsível. O elétrico se paga”, afirma.

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A chegada de novos players chineses e parcerias regionais, como a planta da Kia no Uruguai — montadora multimarca Nordex que monta veículos para Kia, Ford e Stellantis —, reforça o avanço dos elétricos urbanos, enquanto a indústria nacional ainda não dispõe de portfólio compatível com essa transição.

Nos veículos pesados, o cenário é mais complexo. Caminhões são ativos produtivos, e a decisão de compra é “100% orientada pela confiabilidade e rentabilidade”. O diesel seguirá dominante até 2035, representando cerca de dois terços das vendas, mas perde espaço para tecnologias emergentes.

O gás natural e o biometano despontam como principais pontes de transição, impulsionados por menor CapEx e infraestrutura mais simples. Exemplos como a Natura, que já exige biometano em suas operações em São Paulo, mostram como embarcadores multinacionais moldam o mercado ao pressionar transportadores por metas de descarbonização.

A Bright Consulting projeta que, até 2030, veículos elétricos ou eletrificados alcançarão 5% de participação, enquanto soluções a gás terão protagonismo superior. Em 2035, o hidrogênio deve finalmente deixar os laboratórios e ganhar presença visível nas estradas, com gás e hidrogênio superando individualmente 10% das vendas. “Não haverá tecnologia única. Cada nicho terá sua solução”, afirma Briganti, destacando elétricos em trajetos urbanos fechados e gás em rotas rodoviárias.

O setor também é impulsionado por três tendências estruturais: conectividade, descarbonização e renovação de frota. Caminhões mais inteligentes, equipados com telemetria e manutenção preditiva, serão essenciais para eficiência operacional. A pressão ESG já afeta contratos — quem não se adequa perde espaço. E a renovação da frota, envelhecida, deve sustentar parte das vendas nos próximos anos, embora ainda haja desafios para reciclagem e destinação de veículos antigos.

Para os transportadores, o desafio é planejar a frota até 2030 e 2035 em meio a múltiplas tecnologias, exigências ambientais e mudanças regulatórias. A transição energética deixou de ser tendência e tornou-se uma necessidade estratégica — e o TCO, mais do que nunca, é quem dita o rumo das decisões.

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Marcos Villela Hochreiter
Marcos Villela Hochreiterhttps://www.frotanews.com.br
Atuo como jornalista no setor da mobilidade desde 1989 em diversas redações. Também nas áreas de comunicação da Fiat e da TV Globo, e depois como editor da revista Transporte Mundial por 22 anos, e diretor de redação de núcleo da Motor Press Brasil. Desde 2018, represento o Brasil no grupo do International Truck of the Year (IToY), associação de jornalistas de transporte rodoviário de 34 países. Desde 2021, também atuo como colaborador na Fabet (Fundação Adolpho Bósio de Educação no Transporte, entidade educacional sem fins lucrativos). Em 2023, fundei a plataforma de notícias de transporte e logística Frota News, com objetivo de focar nos temas que desafiam as soluções para gestão de frotas.
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