Entrevista ABCR: Como o free flow, rede 4G e R$ 500 bilhões em rodovias vão mudar a gestão de frotas

Entrevista exclusiva com Marco Aurélio Barcelos, presidente da Associação Brasileira de Concessionárias de Rodovias (ABCR): O dirigente detalha os gargalos operacionais da transição tecnológica, os prazos de adaptação e os benefícios diretos na redução de custos logísticos

O setor de transporte rodoviário de cargas e passageiros no Brasil vive uma transição histórica. De um lado, a consolidação do modelo de pedágio eletrônico sem barreiras — o chamado free flow — promete eliminar gargalos operacionais, reduzir tempos de viagem e trazer equidade tarifária. De outro, a perspectiva de aportar até R$ 500 bilhões em concessões rodoviárias nos próximos anos desenha um novo cenário de produtividade, segurança e tecnologia nas estradas.

Para esclarecer as principais dúvidas dos gestores de frotas, transportadores e empresas de locação, a Frota News entrevistou Marco Aurélio Barcelos, presidente da Associação Brasileira de Concessionárias de Rodovias (ABCR). No centro do debate, estão a recente integração de dados de cobrança digital com o CNH do Brasil (ex-CNH Digital), os desafios de grandes frotas corporativas, a acurácia dos sistemas de leitura visual de eixos, a expansão da conectividade 4G e a criação de Pontos de Parada e Descanso (PPDs).

Gestão do Free Flow: CNH do Brasil vs. Portal da Senatran para CNPJ

Uma das maiores vitórias recentes para os usuários de rodovias foi a integração das passagens de pedágio eletrônico em um ambiente digital unificado. Até então, o motorista ou gestor precisava acessar individualmente o aplicativo ou site de cada concessionária para verificar débitos e passagens pendentes — um gargalo complexo em regiões como o estado de São Paulo, onde diferentes concessões se entrelaçam continuamente.

Contudo, Marco Aurélio Barcelos faz uma distinção fundamental para o setor corporativo: a visualização de passagens diretamente no aplicativo da CNH Digital é uma solução voltada principalmente ao condutor pessoa física. Para a gestão de frotas comerciais, empresas transportadoras e locadoras de veículos, o caminho correto e efetivo é o Portal da Senatran.

Para o frotista, existe a identificação do responsável por aquela frota ou veículo, que não necessariamente é o motorista que está passando naquele momento. Se você tem distintos motoristas trafegando por um determinado veículo, a CNH não é efetiva. O gestor responsável pelo veículo — o que se aplica também às locadoras — fará o acesso no próprio site da Senatran. Ali, com a assinatura GOV do CNPJ, ele visualiza todos os veículos vinculados e mapeia passagens pretéritas, vencidas, pendentes e pagas.” Marco Aurélio Barcelos, presidente da ABCR

Questionado sobre a operacionalização em grandes empresas — como frotas com mais de 2.000 caminhões e comerciais leves distribuídos por 50 filiais, onde a verificação de cobranças e multas costuma ser descentralizada —, o presidente da ABCR ressaltou que a procedimentalização de múltiplos acessos e cadastros é gerida via sistema e-Frota pela Senatran. A matriz pode autorizar que cada gerente de filial acesse o portal com perfil específico para acompanhar a fatia da frota sob sua responsabilidade.

A indispensabilidade das TAGs na frota comercial

Apesar da conveniência do portal público para pagamentos avulsos, Barcelos é categórico: para o frotista, a utilização de TAGs de pagamento automático permanece sendo o método mais eficiente e indispensável de controle por excelência.

“A despeito da disponibilização das informações no ambiente digital da Senatran, a TAG continua sendo a forma mais eficaz de controle de pedágio por excelência. Ela viabiliza o pagamento automático, a gestão por um único contrato corporativo e oferece múltiplos planos diferenciados para frotistas. A TAG prosseguirá por muito tempo como a principal facilitadora do setor.”

Dados apresentados pela ABCR revelam que 65% de todo o fluxo de veículos que trafegam pelas rodovias concedidas no Brasil já utilizam TAGs automáticas. Desse montante, a maioria esmagadora é composta por veículos comerciais. Em eixos logísticos e praças estratégicas do estado de São Paulo, o índice de veículos pesados e comerciais transitando com TAG atinge marcas entre 80% e 90%.

Leitura de eixos no free flow: tecnologia, validação e contestação

Um ponto de grande preocupação trazido pelos frotistas diz respeito à assertividade da leitura de eixos no Free Flow, especialmente no que tange a eixos suspensos e ao risco de cobranças incorretas.

Barcelos explicou que nas praças físicas a verificação é essencialmente visual. No Free Flow, por não haver parada do veículo, a operação baseia-se em um rigoroso encadeamento de tecnologias e processos de controle divididos em três barreiras:

  1. Rigor contratual e metas de precisão: Os contratos das concessionárias com as agências reguladoras exigem um indicador de desempenho (KPI) de assertividade técnica superior a 95%. Por sua vez, nos contratos comerciais privados firmados entre as concessionárias e os provedores de tecnologia, a exigência é ainda mais severa: mínimo de 98% de precisão geral (a cada 100 leituras, no máximo 2 podem apresentar qualquer margem de dúvida).
  2. Validação manual humana (segunda barreira): Quando os leitores de radiofrequência, sensores corporais e câmeras com Inteligência Artificial não conseguem determinar com 100% de certeza se um eixo está suspenso ou levantado (status de “em processamento” visível no sistema), as imagens são enviadas instantaneamente para uma central de auditores e validadores manuais. Esses profissionais analisam visualmente as fotos e vídeos para confirmar a regularidade antes de lançar a cobrança.
  3. Direito de contestação pelo usuário: Caso algum erro passe pelas duas primeiras barreiras — mesmo para veículos que utilizam TAG —, o gestor ou motorista pode acessar o portal e contestar a passagem solicitando a correção da cobrança do eixo suspenso.

Impacto econômico: Redução do custo operacional e ganho de tempo

O avanço do free flow e a ampliação das concessões prometem melhorar a planilha de custos dos transportadores. Dados citados pela ABCR com base em estudos da Confederação Nacional do Transporte (CNT) mostram uma disparidade gritante entre rodovias públicas e concedidas:

  • Rodovia exclusivamente pública: O estado da infraestrutura representa em média 36,7% do custo operacional total do caminhão (combustível, pneu, manutenção e desgaste mecânico).
  • Rodovia exclusivamente concedida: Devido ao pavimento de alta qualidade e à fluidez, o impacto da via no custo operacional caiu para 17% — ou seja, reduz-se a menos da metade.

Além da redução direta com combustível e manutenção provocada pelo fim de frenagens e acelerações bruscas em praças físicas, Barcelos lembra que o ganho de tempo reflete-se na jornada do trabalhador: cálculos da ABCR apontam que, pela maior velocidade média e fluidez, o caminhoneiro ganha em média dois dias livres por mês, tempo antes perdido em engarrafamentos e filas.

No quesito segurança viária, levantamentos da Fundação Dom Cabral (FDC) indicam que trafegar por uma rodovia concedida é 300% mais seguro do que por uma rodovia pública. Nos últimos dez anos, a média de redução de fatalidades nas rodovias concedidas alcançou 65%, resultando em menor sinistralidade, preservação de vidas e redução de perdas de cargas.

Equidade tarifária

Outro ponto ressaltado pelo presidente da ABCR é o conceito de equidade tarifária. Na praça física tradicional, a cobrança é concentrada e estática, penalizando desproporcionalmente o frotista de longo curso que percorre grandes distâncias e atravessa estados, enquanto motoristas locais usam trechos curtos sem pagar nada.

Com a substituição e proliferação dos pórticos digitais de free flow, a cobrança torna-se fracionada e distribuída. 

Mais pessoas passam a pagar, o valor individual cai. Trata-se da máxima: mais pessoas pagando menos. O free flow permite redistribuir os custos com justiça tarifária, aliviando justamente a conta do transportador de longo curso“, ressalta Barcelos.

O “Ciclo de Ouro” das rodovias: R$ 500 bilhões em investimentos

A transição tecnológica do Free Flow ocorre simultaneamente ao maior ciclo de investimentos em infraestrutura rodoviária da história recente do país. Atualmente, existem 57 pórticos de Free Flow em operação por 15 concessionárias em 7 estados brasileiros.

Nos próximos meses, novas operações entrarão em funcionamento em estados como Paraná, Mato Grosso e São Paulo, com a projeção de atingir mais de 100 pórticos operacionais até o fim de 2027.

“Estamos vivendo a ‘era de ouro’ das concessões rodoviárias no Brasil. Enquanto a Europa vive uma saturação da oferta de infraestrutura e reestatização por falta de espaço para expansão, o Brasil possui uma demanda gigantesca a ser atendida. Somente no âmbito federal, o Ministério dos Transportes projeta R$ 400 bilhões contratados (CAPEX e OPEX). Quando somamos os leilões estaduais em São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Mato Grosso do Sul, chegamos a uma projeção de R$ 500 bilhões até 2026/2027. Isso significa injetar cerca de 100 bilhões de dólares nas ruas brasileiras nos próximos 30 anos, com forte concentração nos primeiros 8 anos.”

Esses recursos serão destinados à duplicação, sinalização, recuperação estrutural (CAPEX) e conservação contínua (OPEX) nos principais corredores logísticos do país — como as BRs 116, 135, 381, 222, 050, 163 e o lote rodoviário do Paraná. O executivo alerta que, embora as obras gerem transtornos temporários ao tráfego no curto prazo, o resultado será a requalificação definitiva da malha nacional.

Infraestrutura de apoio: PPDs e conectividade 4G/IoT nas estradas

Para atender às exigências da Lei do Motorista e elevar o padrão da telemetria de frotas, duas pautas essenciais foram abordadas:

  1. Pontos de Parada e Descanso (PPDs): Os novos contratos de concessão já nascem com a obrigação de construir PPDs estruturados, oferecendo ao caminhoneiro um ambiente digno para refeição, banho, lavagem de roupa e descanso seguro. Para os contratos antigos, a ANTT autorizou as concessionárias a elaborarem projetos para inclusão dessas estruturas mediante revisões tarifárias ou aditivos contratuais quinquenais.
  2. Telecomunicações e sinal contínuo: Um dos maiores custos adicionais do transportador decorre da falta de sinal de celular nas estradas, obrigando as frotas a contratarem sistemas redundantes via satélite. A ANTT e o Ministério dos Transportes estabeleceram a obrigatoriedade de cobertura mínima 4G em todas as novas concessões e autorizaram investimentos em antenas nos contratos vigentes. Além disso, o Ministério dos Transportes anunciará em breve uma portaria conjunta com a Anatel para resolver o entrave de roaming entre as operadoras.

Não é um sonho distante; em um curto espaço de tempo, 100% das rodovias concedidas estarão conectadas. Isso abrirá uma caixa de Pandora tecnológica para as transportadoras, viabilizando telemetria em tempo real sem represamento de memória, Internet das Coisas (IoT), comunicação Veículo-para-Tudo (V2X) e um cinturão de segurança viária e pública sem precedentes nas estradas brasileiras“, conclui Barcelos.

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Marcos Villela Hochreiter
Marcos Villela Hochreiterhttps://www.frotanews.com.br
Atuo como jornalista no setor da mobilidade desde 1989 em diversas redações. Também nas áreas de comunicação da Fiat e da TV Globo, e depois como editor da revista Transporte Mundial por 22 anos, e diretor de redação de núcleo da Motor Press Brasil. Desde 2018, represento o Brasil no grupo do International Truck of the Year (IToY), associação de jornalistas de transporte rodoviário de 34 países. Desde 2021, também atuo como colaborador na Fabet (Fundação Adolpho Bósio de Educação no Transporte, entidade educacional sem fins lucrativos). Em 2023, fundei a plataforma de notícias de transporte e logística Frota News, com objetivo de focar nos temas que desafiam as soluções para gestão de frotas.
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