O novo consumidor de carros: menos fiel à marca, mais exigente com valor

A disputa pelo novo consumidor: por que as marcas tradicionais já não têm vantagem garantida

O consumidor de automóveis em 2026 é mais informado, menos fiel às marcas e significativamente mais exigente na percepção de valor. A decisão de compra deixou de estar concentrada apenas no preço do veículo e passou a considerar um conjunto mais amplo de fatores, que envolve custo de utilização, tecnologia embarcada, conectividade, eficiência energética, segurança e adequação à rotina.

Essa transformação é confirmada por pesquisas recentes sobre o comportamento do consumidor. A McKinsey Mobility Consumer Pulse 2026, realizada com mais de 20 mil consumidores em cinco dos principais mercados globais, revela que a pressão financeira está influenciando diretamente as decisões de compra. Parte dos consumidores pretende adiar a aquisição de um novo veículo ou considerar categorias menores para se manter dentro do orçamento. Ao mesmo tempo, permanecem elevadas as expectativas em relação à qualidade, à tecnologia e ao valor entregue.

A pesquisa também revela uma mudança importante na relação entre consumidor e marca. Cerca de 28% dos entrevistados afirmam que provavelmente trocarão de fabricante na próxima compra. É um indicador relevante de que a tradição e a imagem da marca, embora ainda tenham importância, já não são suficientes para garantir a fidelidade do consumidor. Tecnologia, segurança, eficiência e relação custo-benefício passaram a ter um peso crescente na decisão.

Esse comportamento encontra respaldo também no Global Automotive Consumer Study 2025, da Deloitte, realizado com mais de 30 mil consumidores em 30 países. O levantamento aponta o crescimento da intenção de mudança de marca e confirma que a eletrificação está sendo avaliada de forma cada vez mais pragmática pelo consumidor.

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O interesse por veículos elétricos existe, mas a decisão continua diretamente relacionada a fatores objetivos, como preço, autonomia e infraestrutura de recarga. Nesse cenário, os veículos híbridos ganham relevância por representarem, para muitos consumidores, uma solução intermediária entre eficiência energética, redução do consumo de combustível e menor dependência da infraestrutura de carregamento.

A jornada de compra também mudou. Antes mesmo de chegar à concessionária, o consumidor pesquisa, compara versões, acompanha avaliações, assiste a vídeos e busca referências em canais digitais. A McKinsey identifica uma jornada cada vez mais omnicanal, na qual os ambientes digital e físico deixam de competir entre si e passam a fazer parte de um mesmo processo de decisão.

Consumidor

Outro aspecto relevante é a crescente disposição para considerar novos fabricantes. À medida que tecnologia, conectividade, sistemas avançados de assistência ao motorista e software embarcado passam a ter maior importância, novas marcas encontram espaço para competir com fabricantes tradicionais. O consumidor está mais disposto a mudar quando identifica uma proposta superior em termos de equipamentos, inovação, garantia e valor entregue.

Nesse contexto, o automóvel deixa de ser avaliado exclusivamente como um bem de consumo ou símbolo de status. Ele passa a ser analisado como uma plataforma de mobilidade, tecnologia e conveniência. O consumidor quer inovação, mas espera que ela tenha aplicação prática. Quer sustentabilidade, mas avalia seu impacto no orçamento e na rotina. Quer uma marca confiável, mas está disposto a experimentar outra se a proposta de valor for mais convincente.

A grande transformação do mercado está, portanto, na mudança da lógica de escolha. O consumidor não procura necessariamente o carro mais barato e, muitas vezes, tampouco o mais tecnológico. Ele procura aquele que oferece a melhor combinação entre investimento, custo de utilização, tecnologia, eficiência, segurança e experiência.

Em 2026, compreender o consumidor automotivo significa compreender uma mudança fundamental: o valor percebido passou a ser tão importante quanto o produto em si. E será justamente a capacidade das montadoras de entregar essa percepção de valor — e não apenas potência, design ou tradição — que deverá definir os próximos vencedores do mercado.

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Filipi Cândido
Filipi Cândidohttps://www.frotanews.com.br
Jornalista e diretor de inteligência de mercado na Frota News, com mais de 10 anos de atuação na construção e posicionamento de marcas em diferentes setores da economia. Ao longo da trajetória, esteve à frente de operações e estratégias nos segmentos de hotelaria e mercado de luxo, com passagens por grupos como LVMH — atuando em marcas como Dior e Guerlain — além do grupo Percassi e de uma experiência internacional como consultor de tendências para grandes marcas de wellness da China. Essa vivência consolidou uma visão integrada sobre comportamento, experiência e geração de valor. Atualmente, atua no setor automotivo e de veículos pesados, com foco em frotas, mobilidade e logística, liderando a produção de conteúdo e estratégias que conectam inteligência de mercado a oportunidades reais de crescimento. Nos últimos anos, aprofundou sua atuação em sustentabilidade e ESG, acompanhando de perto as transformações da indústria e traduzindo esses movimentos em análises que impactam diretamente o posicionamento e a competitividade das marcas.
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