sábado, maio 25, 2024

A Iveco Brasil versus Iveco Bus Europa: entenda as razões para tantas diferenças

Um dos ensinamentos em comunicação: se você não se explica, você dá asas para a imaginação, e pior, para os concorrentes. Entre vizinhos, familiares e amigos, essa teoria é conhecida como fofoca. No meio corporativo e político, é preciso ter uma boa gestão da comunicação. Queira as empresas ou não, as pessoas vão falar delas. Então, vamos fazer o exercício de imaginar, com dados e fatos para não ser apenas fofoca, das razões de a Iveco Bus ter um portfólio de ônibus modernos na Europa e no Brasil ultrapassados.

O mercado brasileiro de transporte de passageiros caminha para uma grande evolução. Os chineses estão aqui para provar isso. Mais por iniciativas dos empresários do setor do que por políticas públicas. Se existissem políticas públicas, a virada de chave estaria mais avançada. O Brasil tem os maiores fabricantes de ônibus do mundo, mas, no setor urbano, dois são dominantes (Mercedes-Benz e Volkswagen), e no rodoviário, três são dominantes (Mercedes-Benz, Volvo e Scania). A Iveco não está nessas contas e, quem sabe, queira entrar. No discurso dizem que sim, na realidade, não encontramos nada. O  jornalismo tem esta obrigação: comparar o discurso com a vida real.

A burocracia e ineficiência da gestão pública são os maiores impedimentos da evolução do transporte público de passageiros, principalmente, o urbano. Sempre que tenho oportunidade, converso com os motoristas, pois conversar com a alta direção das empresas é quase cotidiano. O jornalista precisa transitar em todos os ambientes, e por isso, eu ando de ônibus, de caminhão e demais modais.

Em uma ocasião, em Belo Horizonte, eu perguntei a um motorista por qual motivo havia, praticamente, só ônibus com motor dianteiro em BH. O motorista respondeu: “é porque a Mercedes-Benz Caminhões e Ônibus não fabricava ônibus com motor traseiro”. Logo, podemos concluir que também temos o problema da “ausência” de conhecimento. Isso me fez lembrar da Volvo do Brasil, que só fabricava ônibus com motor traseiro e crítica ao ônibus com motor dianteiro por razões óbvias. Porém, para atender o mercado brasileiro, quase chorando e pedindo Perdão, a Volvo lançou um modelo com motor dianteiro.

Já fiz comparativos entre muitas capitais no mundo, e cada uma tem o seu defeito, e no Brasil, as cidades conseguem ter a maioria dos defeitos, considerando o conhecimento e as tecnologias disponíveis. A tecnologia está disponível e entidades de educação no transporte, como a Fabet e Sest Senat também. Educar é uma escolha. Não educar tem consequências graves. Portanto, não é por falta de ferramentas para melhorar o transporte, é por outros problemas, que vamos chamar de escolhas políticas.

Citarei dois exemplos: em São Paulo, preciso sacar dinheiro em caixa eletrônico, pagar a taxa de saque (R$ 7,90, mais cara do que a passagem R$ 4,40) para pagar a passagem de ônibus ou metrô (não é prático ter o Bilhete Único como nos países que conheço), por isso ainda não tenho o Bilhete Único. É muito burocrático para fazer, mas estou tentando ainda.

Em BH, eu pago com o meu celular por meio do aplicativo BH Bus ou o cartão magnético BH Bus que você compra em várias esquinas, mas ando em ônibus com chassi de caminhão, transmissão manual, suspensão mecânica como nos caminhões, motor dianteiro (gerando surdez no ouvido direito dos motoristas e gastando mais energia para o torque chegar nas rodas traseiras), entre outros problemas.

Este tipo de veículo foi revolucionário em 1826, quando o ônibus foi criado em Nandes, na França. Em 2024 não faz mais sentido, mas é melhor do que andar 20 quilômetros com Havaianas e, por isso, os passageiros são inertes. 

Nem vou dizer como são os ônibus intermunicipais da Região Metropolitana de BH, pois o nível baixa muito.

Ônibus urbano versus rodoviário

O transporte rodoviário de passageiros tem a sorte de não estar sujeito as legislações de mais de 5.700 municípios, APENAS 27 Unidades da Federação e da ANTT no transporte rodoviário. Sim, os transportadores que atuam no Brasil inteiro precisam contratar consultorias para ter pessoas que acordam na madrugada para ler os diários oficiais dessas 27 províncias, contadores para fazer os ajustes, advogados para interpretar as novas regras e processar o Estado. Algumas décadas depois, esses processos viram “precatórios”, e a geração atual não sabe o que é precatórios. Em poucas palavras, precatórios são punição dos erros do servidor público, entre outras razões, por erros no passado. O nome disso também é “Custo Brasil”.

É difícil compreender por que empresas como Mercedes-Benz Caminhões e Ônibus, Volkswagen Caminhões e Ônibus, Scania Brasil, Volvo Buses e Iveco Brasil mantém o interesse de fabricar e vender ônibus no Brasil. Pelo ponto de vista empresarial mais prático da vida, vender sem ter muitos problemas, seria melhor ser como a Havaianas EAA – a Alpargatas Brand, que é muito mais feliz vendendo chinelo, precursor do pneu. As Havaianas atendem a mobilidade das pessoas que utilizam os próprios pés para ir de um ponto ao outro em pequenas distâncias. Há relatos de grandes distâncias.

Mercedes-Benz Caminhões e Ônibus, Volkswagen Caminhões e Ônibus, Volvo Buses, Scania Brasil e Iveco Brasil são corajosas em insistir neste segmento, como fornecedoras de chassis de ônibus. Todas essas fabricantes têm no portfólio ônibus modernos, com suspensão a ar, transmissão automática, sistemas de segurança semiautônomos etc. A decisão de comprar o ruim ou o bom é política. No mundo todo! Nós só precisamos melhorar as nossas decisões políticas.

No caso das encarroçadoras, como a Marcopolo S.A., é compreensível, ao ser o core business delas. No caso das marcas de chassi citadas, elas são gigantes na fabricação de caminhões. Compare os números de vendas de caminhões e de chassi de ônibus em 2023: 108.024 caminhões e 20.435 ônibus, segundo a Anfavea. São dados oficiais do Denatran (Departamento Nacional de Trânsito) e são dados públicos.

Iveco Bus
Fonte: Carta da Anfavea de janeiro de 2024. A terceira coluna de números apresenta os emplacamentos de 2023, e a quinta, de 2022. A última coluna de números apresenta diferença percentual

Podemos analisar o portfólio de todas as marcas no Brasil e na Europa. No entanto, analisaremos uma marca para o texto não ficar muito longo. Veremos a Iveco, por ser gigante na Europa, e a marca que tem o maior contraste no Brasil, pois as demais, tecnologicamente, oferecem soluções mais próximas das europeias, e a Volkswagen é uma fabricante brasileira, tendo os principais acionistas europeus. No Brasil, de forma tímida, a Iveco tem à disposição os seguintes modelos: Micro 10–190, Micro 15–210, chassi 17-280, e acabou. Por isso, ela vendeu 582 chassis de ônibus em 2023 um mercado que comprou 20.435 unidades.

Ou seja, a Iveco Bus tem 2,85% de participação no mercado de ônibus. No site desta empresa, na seção para investidores, a Iveco diz ser líder no mercado de ônibus na Europa. No Brasil, lógico que a conta não fecha. A empresa dá prejuízo neste segmento, e ela precisa decidir se vai ser um fabricante importante ou vai continuar sendo um peso para os acionistas e motivo de piada entre os transportadores. Sim, piada mesmo, pois o motorista de Iveco guarda a chave no bolso por vergonha, enquanto os motoristas de Volvo e Scania têm orgulho de pendurar a chave no pescoço. Quem vai comprar ações da Iveco na bolsa de valores com esses resultados?

Agora, conheceremos um pouco mais da linha da Iveco Buses na Europa. Saiba também que ela conta com outra marca de ônibus, a HEULIEZ BUS.

Há o Crossway Hybrid em três comprimentos: 10,8 metros, 12 metros e 13 metros, nas versões POP e LINE, operando a gás natural e biometano. Esses modelos têm iluminação full LED e os novos sistemas de assistência ao condutor (ADAS). O Crossway Hybrid consegue operar com combustíveis XTL (X-To-Liquid), uma alternativa aos combustíveis tradicionais que minimiza ainda mais a emissão de poluentes. Além disso, a nova caixa de câmbio Voith DIWA NXT trabalha em conjunto com um motor elétrico de recuperação de energia de 35 kW, montado no teto, que captura e reutiliza a energia cinética durante as frenagens e desacelerações.

A Iveco Bus continua a expandir sua linha Crossway para atender a diversas necessidades de transporte intermunicipal. Além do novo modelo híbrido, a linha inclui versões movidas a gás natural (CNG), compatíveis com biometano, e modelos que operam com B100, todos equipados com motores que atendem à norma Euro VI Step E, promovendo uma operação mais limpa e sustentável.

Giorgio Zino, head de Operações Comerciais Iveco Bus na Europa, destacou a importância dessa inovação: “A introdução do modelo híbrido na linha representa um passo significativo para a redução dos custos operacionais e das emissões de CO₂.” A Iveco investiu muito na fábrica de Sete Lagoas (MG), lançou o S-Way para o segmento rodoviário, mas está demorando muito a evoluir.

A Iveco possui modelos para rodar com diversas alternativas de energia renovável, principalmente, movidos a biometano e elétricos. Por que esses modelos não existem no Brasil? O S-Way a gás foi apresentado na Fenatran de 2022. Estamos em abril de 2024. Cadê? A Scania lançou os modelos a gás e eles estão nas ruas, valorizados por importantes embarcadores, como a L’ Oréal, PepsiCo, DHL, entre outros.

A Iveco Bus, para não ter problemas de relacionamento com os políticos, prefere o silêncio ou uma desculpa polida. Mas não convence os jornalistas e gestores de frotas. Nós, jornalistas, podemos dizer algo mais próximo a realidade: “A Iveco não está podendo rasgar dinheiro”. Porém, parece que os chineses estão podendo rasgar dinheiro, pois estão dominando o segmento de ônibus elétrico urbano.

No Brasil, há uma burocracia, entre outros impedimentos, e a falta de políticas de Estado para evolução do transporte de pessoas. O Frota News não cobre a notícia “hard news”, pois só grandes veículos de comunicação, com dezenas de jornalistas, conseguem fazer isso. Pela nossa especialização, fazemos análises das notícias. Esta é a análise sobre a Iveco Bus no mercado brasileiro de ônibus hoje. A Iveco Bus pode ser melhor amanhã, então, faremos uma nova análise.

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Marcos Villela Hochreiter
Marcos Villela Hochreiterhttps://www.frotanews.com.br
Sou jornalista no setor da mobilidade desde 1988, com atuações em jornais, nas áreas de comunicação da Fiat e da TV Globo, como editor da revista Transporte Mundial entre 2002 e maio de 2023, e com experiência em cobertura na área de transporte no Brasil e em cerca de 30 países. Representante do Brasil como membro associado do ITOY (International Truck of the Year), para troca de experiências e conteúdos jornalísticos. Mais, recente começou como colaborador do corpo docente na Fabet (entidade educacional sem fins lucrativos).
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