quarta-feira, janeiro 28, 2026

Muito discurso, pouca frota: a eletrificação dos caminhões não sai do papel na Europa e nem no Brasil

A transição energética no transporte rodoviário de cargas é frequentemente tratada como uma corrida global rumo à eletrificação. Mas, quando se observa a frota real em circulação — e não apenas as vitrines de lançamentos ou percentuais de vendas — o cenário revela diferenças estruturais profundas entre Europa e Brasil. Dados recentes da ACEA, Anfavea e Fenabrave mostram que, apesar do discurso avançado, os caminhões movidos a energia elétrica ainda são estatisticamente irrelevantes em ambos os mercados. O que muda é o ponto de partida, o ritmo e, sobretudo, a estratégia adotada por gestores de frotas

A União Europeia possui hoje cerca de 6,2 milhões de caminhões médios e pesados em circulação. Esse contingente cresceu apenas 0,9% no último ano, isso em um mercado maduro e cauteloso. O dado mais preocupante, porém, é o envelhecimento persistente da frota: a idade média chegou a 14 anos em 2024 e 2025, patamar histórico para o bloco. É nós, no Brasil, achando que idade média de frota alta era coisa de país subdesenvolvido.

Na prática, isso significa que uma parcela relevante desses veículos ainda opera sob normas Euro 4 ou início Euro 5. Em termos operacionais, são caminhões que:

  • consomem 15% a 20% mais combustível do que um Euro 6 moderno;
  • emitem níveis significativamente maiores de NOx e material particulado;
  • elevam custos de manutenção e riscos ambientais e de segurança.

Apesar da pressão regulatória e das metas de neutralidade climática, a eletrificação da frota total é mínima. Caminhões elétricos representam apenas 0,3% da frota em uso, embora já respondam por 2,3% das vendas novas em 2024. Em números absolutos, ao final de 2024, a Europa contava com cerca de 15 mil caminhões elétricos a bateria (BEV) e apenas 170 unidades movidas a hidrogênio. Tudo isso distribuído em 27 países da União Europeia, totalizando mais de 450 milhões de habitantes. Neste ritmo, a renovação total da frota de caminhões a diesel por elétricos não ocorrerá nas próximas quatro ou cinco décadas.

Para a ACEA, esse descompasso revela uma realidade incômoda: trocar rapidamente caminhões antigos por modelos Euro 6 a diesel pode gerar um impacto ambiental imediato maior do que a simples venda de elétricos, dada a baixa escala atual da tecnologia zero emissão. No Brasil, a Anfavea apresentou estudos que corroraboram com a ACEA.

Infraestrutura e custos: os verdadeiros freios da eletrificação pesada

O maior entrave europeu está fora do veículo, como disse Christian Levin, CEO da Scania, presidente do Conselho Executivo do TRATON Group e do Conselho de Veículos Comerciais da ACEA (associação dos fabricantes) em entrevista publicada com exclusividade no Brasil pela Frota News:

Para que um caminhão elétrico de 40 toneladas seja viável no transporte de longa distância, é necessário recarregar durante a pausa obrigatória do motorista: 45 minutos após 4,5 horas de direção. Isso exige carregadores de ultra-alta potência, de custo altíssimo.

Hoje, existem apenas 1.100 pontos públicos acima de 350 kW em toda a União Europeia adequados para caminhões. A estimativa da ACEA indica necessidade de 50 mil carregadores públicos até 2030. No Brasil, os projetos mais otimistas projetam 1 mil carregadores públicos para caminhões até 2030.

O problema escala rapidamente quando se olha para a rede elétrica. Um hub rodoviário com vários caminhões carregando simultaneamente demanda potência equivalente à de uma pequena cidade. O custo estimado para reforçar as redes elétricas europeias é de 600 bilhões de euros até 2030 (equivalente  a R$ 3,2 trilhões), dinheiro indisponível no Brasil para melhorar a nossa rede elétrica nem em cinco décadas. Além disso, o setor de recarga de caminhões vai disputar energia elétrica com a onde de construção da data centers no Brasil.

Somam-se a isso, os custos dos veículos: um caminhão elétrico novo custa em torno de 300 mil euros, cerca de três vezes o valor de um modelo a diesel. Em conversão direta para real, custaria R$ 1,6 milhão. No entanto, com a carga tributária e o custo Brasil, este o mesmo modelo custaria entre R$ 2 e 3 milhões.

Por que ônibus avançam mais rápido que caminhões

A comparação entre segmentos ajuda a entender o desafio:

Veículo Elétricos na frota total Elétricos nas vendas 2024
Caminhões 0,3% 2,3%
Vans 1,3% 6,1%
Ônibus 3,2% 18,5%

 

Nos ônibus, o modelo de negócio faz toda a diferença. Recursos públicos dos contribuintes, rotas fixas, retorno diário à garagem e carregamento noturno em garagens privadas eliminam a dependência da infraestrutura pública. Não por acaso, 40% dos ônibus urbanos novos vendidos em 2024 na Europa já eram BEV, em linha com o mandato europeu de 90% até 2030. Para caminhões que cruzam fronteiras e operam em horários variáveis, o desafio é de outra ordem de grandeza.

  • Saiba mais: A Frota News conta com uma seção dedicada ao tema descarbonização das frotas com mais de 200 artigos publicados: Frota Sustentável

Brasil: números pequenos e com mais desafios

No Brasil, a eletrificação dos caminhões ainda é embrionária, mas apresenta características mais desafiadoras. Segundo a Anfavea, em 2025 foram emplacados 410 caminhões elétricos e 845 ônibus elétricos. Em um mercado dominado historicamente pelo diesel, esses números ainda são marginais.

Um dado estratégico chama a atenção: apenas 86 dos 410 caminhões elétricos foram fabricados no Brasil, todos da Volkswagen Caminhões e Ônibus (e-Delivery). Os outros 324 foram importados da China, evidenciando a forte dependência da importação de fabricantes asiáticos para a transição energética brasileira.

O detalhamento da Fenabrave reforça esse quadro. No acumulado de 2025, foram 368 caminhões elétricos emplacados, com concentração em poucas marcas:

Posição Fabricante Quantidade Participação
JAC 164 44,57%
VW Truck & Bus 86 23,37%
Foton 34 9,24%
Nanjing 28 7,61%
Tesla (picape com PBT de caminhão) 23 6,25%
Sany Caminhões 13 3,53%
Mercedes-Benz do Brasil 7 1,90%
Demais 13 3,53%

 

Diferentemente da Europa, o Brasil ainda enfrenta uma frota gigantesca mais envelhecida sob padrões ambientais rígidos como o Euro 0, 1 2, 3 e 5. O Proconve P8 (equivalente ao Euro 6) é relativamente recente, e a renovação da frota ocorre em um ritmo lento.

Duas realidades, um mesmo dilema para o gestor de frota

A comparação entre Brasil e Europa deixa uma mensagem para gestores de frotas, transporte e logística: não existe transição energética sem matemática operacional.

Na Europa, o dilema está entre investir bilhões em infraestrutura elétrica ou acelerar a renovação da frota diesel para padrões mais limpos no curto prazo. No Brasil, o desafio é evitar uma eletrificação puramente oportunista, dependente de importações, sem escala industrial local e sem infraestrutura adequada.

Em ambos os mercados, os caminhões elétricos ainda são exceção, não regra. A experiência europeia mostra que metas ambiciosas sem frota renovada e rede elétrica robusta criam um hiato perigoso entre discurso e realidade.

Já o Brasil tem a oportunidade de aprender com esse cenário, adotando uma estratégia mais pragmática: combinar eficiência energética, biocombustíveis — como biodiesel, biometano e HVO — renovação tecnológica e eletrificação onde o modelo de negócio realmente fecha a conta.

Para o gestor de frota, a pergunta-chave não é “quando o diesel vai acabar”, mas qual tecnologia reduz custo, risco regulatório e emissões agora, sem comprometer a operação. E, nesse ponto, tanto Europa quanto Brasil ainda estão longe da linha de chegada.

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Marcos Villela Hochreiter
Marcos Villela Hochreiterhttps://www.frotanews.com.br
Atuo como jornalista no setor da mobilidade desde 1989 em diversas redações. Também nas áreas de comunicação da Fiat e da TV Globo, e depois como editor da revista Transporte Mundial por 22 anos, e diretor de redação de núcleo da Motor Press Brasil. Desde 2018, represento o Brasil no grupo do International Truck of the Year (IToY), associação de jornalistas de transporte rodoviário de 34 países. Desde 2021, também atuo como colaborador na Fabet (Fundação Adolpho Bósio de Educação no Transporte, entidade educacional sem fins lucrativos). Em 2023, fundei a plataforma de notícias de transporte e logística Frota News, com objetivo de focar nos temas que desafiam as soluções para gestão de frotas.
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