A desaceleração econômica no México e na América Latina acendeu o sinal de alerta na divisão Daimler Buses — responsável por marcas consagradas como Mercedes-Benz, Setra e BharatBenz —, obrigando o grupo a revisar para baixo suas projeções globais
Enquanto a divisão de caminhões na América do Norte se consolida como o grande motor de crescimento da Daimler Truck em 2026, o cenário ao sul da fronteira norte-americana tomou o rumo oposto. Em seu mais recente balanço preliminar do segundo trimestre, a companhia apontou a fraqueza persistente nos mercados do México e da América Latina como o principal gargalo para a Daimler Buses.
Como reflexo direto da deterioração na demanda regional, a fabricante cortou suas estimativas de vendas globais de ônibus para o acumulado do ano. A projeção anterior, que previa entregas entre 25 mil e 30 mil unidades, foi rebaixada para uma faixa de 20 mil a 25 mil unidades — uma redução de 5 mil veículos no teto da meta.
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Portfólio sob pressão na região
O impacto mais direto na América Latina recai sobre a Mercedes-Benz do Brasil, líder histórica no segmento de chassis de ônibus na região, responsável por cerca de 40% das vendas globais de ônibus do grupo, e fortemente afetada pela menor demanda nos fluxos urbano e rodoviário, além da transição para ônibus elétricos, segmento com cinco vezes mais competitidores.
No Brasil, considerado o principal mercado global para o segmento de passageiros da Daimler Buses, a Mercedes-Benz sentiu o impacto da retração geral, mas conseguiu expandir sua liderança. No primeiro semestre de 2026, as vendas totais de ônibus no país recuaram 11,6%, caindo de 11.635 para 10.288 unidades. A marca alemã, no entanto, registrou uma queda mais branda, de 5,4%, com 4.222 licenciamentos contra 4.461 no mesmo período de 2025. O desempenho defensivo permitiu à fabricante ampliar seu market share para 41%, ante os 38,3% registrados um ano antes.

Além da Mercedes-Benz, o portfólio da divisão abriga marcas consagradas para diferentes perfis de mercado. É o caso da Setra, grife premium do grupo voltada ao segmento de turismo e transporte de longa distância na Europa, e da BharatBenz, operação estratégica focada no desenvolvimento de veículos comerciais para a Índia e outros mercados emergentes.
O braço de passageiros da Daimler conta ainda com marcas regionais altamente especializadas e com a sua linha de eletrificação. O portfólio inclui a Thomas Built Buses, tradicional líder no segmento de ônibus escolares nos Estados Unidos, além da família eCitaro, responsável por liderar a transição para a mobilidade zero emissões no transporte público europeu.
A relevância do mercado brasileiro para a divisão de passageiros da multinacional alemã fica evidente com os números consolidados do ano passado: em 2025, a Mercedes-Benz do Brasil respondeu por 38,5% de todas as vendas globais da Daimler Buses. Das 26.991 unidades comercializadas pelo grupo no mundo ao longo do ano passado, 10.382 chassis saíram das linhas de montagem brasileiras para abastecer o transporte urbano, rodoviário e de fretamento no país.
Diagnóstico macroeconômico
O esfriamento do mercado reflete um ambiente macroeconômico altamente adverso em diversos países da América Latina, onde entraves econômicos e burocráticos vêm estrangulando a renovação de frotas e travando os investimentos no transporte coletivo. Um dos principais gargalos é a manutenção de taxas de juros em patamares elevados por toda a região — mesmo com as taxas mais favoráveis do BNDES —, o que encareceu de forma severa as linhas de crédito para operadores privados de mobilidade e forçou o adiamento de novas encomendas de veículos.
A esse cenário soma-se o peso do calendário político e fiscal da região. O ciclo de eleições na América Latina e no México impôs um freio previsto em lei às compras públicas e aos projetos de infraestrutura. Diante do congelamento de novas licitações, das restrições legais impostas pela legislação eleitoral para o empenho de verbas e do aperto rigoroso nos orçamentos municipais e estaduais, o ritmo de modernização dos sistemas de ônibus urbanos e intermunicipais foi reduzido.
Essa retração na Daimler Buses expõe um forte contraste de desempenho dentro do próprio grupo Daimler Truck. Enquanto a operação de caminhões na América do Norte vive um momento de forte otimismo — impulsionada pela elevação da sua projeção de margem de retorno (ROS) para a faixa de até 11% —, a divisão de ônibus terá de focar no ganho de eficiência operacional para sustentar seus níveis de rentabilidade, que fecharam o segundo trimestre em 9,6%, mesmo operando sob um volume de vendas visivelmente menor.
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