Marca que produziu mais de 1 milhão de caminhões no Brasil até 2019 segue ativa no exterior via Ford Otosan e projeta 2026 como ano de transição para o transporte pesado
A história da Ford Caminhões no Brasil terminou oficialmente em 2019, quando a montadora encerrou a produção de veículos comerciais na América do Sul e fechou a fábrica de São Bernardo do Campo (SP), após 62 anos de atuação e mais de 1 milhão de caminhões produzidos no País.
Mas, ao contrário do que muitos ainda imaginam, a marca não desapareceu do mapa global dos pesados. Ela segue viva e em expansão internacional por meio da Ford Trucks, operação licenciada da Ford Motor Company conduzida pela Ford Otosan, joint venture com a Koç Holding, hoje responsável pela atuação da marca em mercados da Europa, Oriente Médio, África, Rússia e países da CEI: Comunidade dos Estados Independentes, bloco formado por vários países que integravam a antiga União Soviética. Ela foi criada em 1991, após o fim da URSS.
É justamente esse novo capítulo da marca que ajuda a responder uma pergunta recorrente entre transportadores e entusiastas do setor: afinal, como está hoje a Ford Trucks? A resposta vem de uma entrevista concedida por Emrah Duman, vice-presidente da Ford Trucks, ao jornalista Milan Olšanský, editor da revista Magazine Transport, da República Tcheca, e integrante do júri do International Truck of the Year.
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Em um momento em que o transporte pesado vive a pressão simultânea da descarbonização, da digitalização e do aumento de custos operacionais, o executivo disse que a Ford Trucks aposta em uma estratégia pragmática: fortalecer sua expansão europeia, manter o diesel como tecnologia dominante no curto prazo e preparar a chegada de caminhões elétricos para aplicações específicas.
Europa é prioridade; mercados globais seguem sustentando volume
Segundo Duman, o último ano foi marcado por um ambiente “extremamente desafiador e volátil”, com instabilidade na cadeia de suprimentos, elevação de custos e regras ambientais cada vez mais rígidas, sobretudo no mercado europeu. Ainda assim, a companhia afirma ter mantido a continuidade da produção graças a uma operação flexível e forte coordenação entre engenharia, manufatura e rede comercial.
No campo das vendas, o comportamento dos mercados foi bastante distinto. Na Europa, a pressão regulatória sobre emissões, segurança e eficiência energética vem acelerando a transformação do portfólio. Já fora do continente, em regiões puxadas por obras de infraestrutura e expansão logística, a demanda continua ancorada em atributos tradicionais, como robustez, confiabilidade e menor custo total de propriedade (TCO).
Produzir fora da União Europeia pode ter vantagem
Ao ser questionado sobre o fato de a Ford Trucks operar fora da União Europeia, Duman reconheceu que isso pode, sim, representar uma vantagem competitiva. Na avaliação dele, estar fora do bloco oferece mais flexibilidade operacional, agilidade na tomada de decisão e maior liberdade no planejamento de produção e engenharia.
Mas há uma condição inegociável: cumprir integralmente os padrões europeus. O executivo destacou que a empresa segue alinhada às exigências da UE em emissões, segurança e desempenho, incluindo métricas como o VECTO, ferramenta central para medição e comparação de consumo e emissões de CO₂ em caminhões pesados no mercado europeu.
Diesel ainda reinará — e a Ford Trucks não esconde isso
Um dos pontos mais relevantes da entrevista é o reconhecimento explícito de que, apesar de toda a narrativa em torno da eletrificação, o diesel continua e continuará sendo a solução predominante para o transporte pesado. Duman foi direto: em operações de longa distância, com infraestrutura ainda limitada e forte pressão sobre custos, o diesel segue sendo a alternativa mais viável para a maioria dos clientes.
Essa leitura é particularmente importante porque contrasta com discursos mais agressivos adotados por parte da indústria. Para a Ford Trucks, a eletrificação não deve ser tratada como uma solução única e imediata, mas como um processo gradual e orientado por aplicação. O foco, portanto, está menos em “substituir o diesel a qualquer custo” e mais em identificar onde as novas tecnologias fazem sentido técnico e econômico.
BEV cresce em nichos; hidrogênio ainda é promessa de longo prazo
Na visão da Ford Trucks, os caminhões elétricos a bateria (BEV) já despertam um interesse mais concreto por parte dos clientes, especialmente em operações urbanas, distribuição regional e logística de última milha. São rotas previsíveis, com retorno à base, possibilidade de recarga noturna e menor exigência de autonomia — exatamente o tipo de operação que mais favorece a viabilidade do elétrico.
Já os caminhões a célula de combustível (FCEV), movidos a hidrogênio, ainda estão em estágio mais exploratório. Duman reconhece o potencial dessa tecnologia para longas distâncias, mas aponta barreiras conhecidas: infraestrutura de abastecimento incipiente, disponibilidade energética e custo total de propriedade ainda elevado.
A mensagem do executivo é de cautela, mas não de resistência. Há interesse crescente dos clientes por alternativas ao diesel, porém a adoção seguirá um ritmo desigual, dependendo da maturidade do ecossistema em cada região.
Primeiros elétricos chegam no próximo ano, com Europa na dianteira
A Ford Trucks confirmou que prepara a introdução de seus modelos elétricos com produção prevista para o próximo ano. Embora o executivo não tenha detalhado modelos ou especificações, confirmou que a Europa será o primeiro grande palco para a expansão dos pesados elétricos da marca, justamente por reunir o pacote mais favorável: pressão regulatória, infraestrutura em amadurecimento e aplicações urbanas e regionais mais adequadas ao BEV.
Construção civil: eletrificação virá, mas em ritmo mais lento
Um dos trechos mais realistas da entrevista envolve o transporte voltado à construção civil — segmento estratégico para a Ford Trucks, mas também um dos mais difíceis de eletrificar. Duman citou o alto consumo de energia, a variabilidade das cargas, o uso fora de estrada e a falta de infraestrutura nos canteiros como fatores que tornam a transição mais lenta.
Isso não significa que o segmento esteja fora do radar. Projetos urbanos específicos, com distâncias curtas e exigências ambientais mais duras, podem funcionar como porta de entrada. Ainda assim, a leitura é conservadora: no curto prazo, a eletrificação na construção deve avançar de forma pontual, coexistindo com soluções convencionais mais eficientes.
Autonomia avança por ADAS, não por revolução imediata
No tema condução autônoma, a Ford Trucks também adota um discurso de pragmatismo. Para Duman, a transformação virá de forma gradual e, no curto e médio prazo, o avanço estará concentrado em sistemas avançados de assistência ao motorista (ADAS), com foco em segurança, eficiência e suporte operacional.
A condução totalmente autônoma em caminhões pesados ainda esbarra em obstáculos significativos: regulação, responsabilidade legal, infraestrutura e comprovação robusta de confiabilidade. Por isso, a empresa não projeta uma ruptura no portfólio no horizonte imediato. A prioridade é entregar tecnologias escaláveis, úteis e economicamente justificáveis.
O maior gargalo não é o caminhão — é o ecossistema
Talvez a frase mais importante da entrevista para o momento atual do setor seja esta: o maior obstáculo à eletrificação não é a tecnologia do veículo, mas o ecossistema ao redor dele. Duman aponta que a infraestrutura de recarga e abastecimento ainda é insuficiente em muitas regiões, o que inviabiliza uma adoção em larga escala.
Além disso, pesam fatores como autonomia real, impacto sobre a capacidade de carga, padrões de uso e, principalmente, competitividade do custo total de propriedade ao longo do ciclo de vida. Em síntese, a eletrificação só ganhará tração quando tecnologia, infraestrutura, regulação e modelo econômico evoluírem de forma sincronizada.
2026 será um ano de transição, diz a Ford Trucks
Olhando para 2026, a Ford Trucks projeta um cenário de transição e consolidação. A demanda, segundo o executivo, seguirá fortemente ligada às condições macroeconômicas e aos investimentos em infraestrutura, enquanto o diesel continuará predominante, porém mais eficiente e limpo.
Os BEVs devem ganhar espaço em aplicações específicas e bem definidas, sem provocar uma virada abrupta no mercado. Nesse ambiente, fabricantes com portfólio amplo, capacidade de adaptação e leitura precisa das necessidades regionais terão vantagem competitiva.
Para este ano, a estratégia da Ford Trucks está concentrada em três frentes: ampliar a presença em mercados estratégicos, reforçar a rede de concessionários e serviços e avançar no plano de zero emissões, com investimentos em eletrificação, digitalização e sistemas avançados de assistência ao motorista.
O que essa entrevista revela sobre a nova Ford Trucks
A entrevista de Emrah Duman mostra uma Ford Trucks distante do tom promocional que costuma cercar a transição energética e mais próxima de uma visão industrial pragmática. A marca, que muitos brasileiros associam apenas ao encerramento melancólico da operação local em 2019, hoje se posiciona como um player global de caminhões pesados em expansão, com ambição clara na Europa e uma estratégia de descarbonização sem radicalismos.
Na prática, a empresa aposta em uma tese cada vez mais forte no transporte pesado: o futuro será eletrificado, sim — mas por etapas, por missão e por viabilidade econômica. Até lá, o diesel continuará sendo protagonista.
Para quem acompanhou a trajetória da Ford Caminhões no Brasil, a marca continua simbólica. A produção nacional ficou no passado, mas a marca segue escrevendo novos capítulos no exterior — agora menos como uma herança industrial brasileira e mais como uma operação global orientada por eficiência, conformidade regulatória e transição tecnológica realista.
Entrevista concedida a: Milan Olšanský, membro do ITOY – República Tcheca e Eslováquia.
Edição e informações sobre o Brasil por Marcos Villela, membro representante do Brasil no ITOY.
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