Educação financeira ganha relevância diante da pressão sobre empresas brasileiras

Inadimplência empresarial atinge 9,2 milhões de CNPJs, enquanto recuperação judicial avança e transporte e logística já somam 557 empresas nessa condição; cenário reforça necessidade de planejamento financeiro e gestão de riscos

O ambiente financeiro das empresas brasileiras entrou em uma zona de maior pressão. Em julho de 2026, 9,2 milhões de CNPJs estavam inadimplentes, segundo a Serasa Experian, alta de 14,8% em 12 meses. O conjunto acumulava 67,2 milhões de dívidas, que somavam R$ 238,6 bilhões. Em média, cada empresa negativada tinha 7,3 contas em atraso.

O movimento não se limita ao crédito bancário. De acordo com a Serasa Experian, 75,7% das dívidas inadimplidas estavam fora de bancos e financeiras, envolvendo compromissos com fornecedores, concessionárias de serviços e outros agentes da própria operação empresarial. Para a economista-chefe da companhia, Camila Abdelmalack, a distribuição das pendências mostra que o aperto financeiro alcança diferentes etapas do funcionamento das empresas.

Ao mesmo tempo, a recuperação judicial ganhou dimensão relevante. Em 2025, foram registrados 977 processos de recuperação judicial, maior volume anual desde 2016, enquanto 2.466 CNPJs estiveram envolvidos nesses processos, crescimento de 13% e recorde da série histórica da Serasa Experian. No mesmo ano, entretanto, os pedidos de falência recuaram 19%, para 698 CNPJs.

A diferença entre esses indicadores é importante. Recuperação judicial não significa falência. Trata-se de um mecanismo de reorganização financeira utilizado por empresas que buscam renegociar obrigações e preservar a atividade econômica. O aumento dos processos, portanto, sinaliza uma maior necessidade de reestruturação, e não necessariamente o encerramento das operações.

Crédito mais caro amplia a pressão sobre o caixa

O custo do dinheiro permanece entre os principais componentes desse cenário. Dados do Banco Central mostram que o estoque de crédito do Sistema Financeiro Nacional chegou a R$ 7,4 trilhões em julho de 2026, mas o crédito às pessoas jurídicas recuou 0,7% no mês. Nas operações de crédito livre destinadas às empresas, o estoque caiu 1,9% em julho.

A taxa média de juros das novas operações de crédito alcançou 32,1% ao ano. No crédito livre, chegou a 47,7% ao ano. Para as pessoas jurídicas, especificamente, a taxa média do crédito livre atingiu 25,4% ao ano, avanço de 0,4 ponto percentual em 12 meses. A inadimplência das empresas nessa modalidade chegou a 4,2%, alta de 0,5 ponto percentual em um ano.

Em setembro, o Banco Central reduziu a Selic em 0,25 ponto percentual, para 13,75% ao ano. Embora represente uma redução em relação ao ciclo anterior, o patamar ainda mantém o custo de capital em nível elevado para empresas que dependem de crédito para financiar capital de giro, ativos ou expansão.

Nesse ambiente, a capacidade de projetar fluxo de caixa, dimensionar endividamento e avaliar o custo efetivo de uma operação passa a ter impacto direto sobre decisões que vão muito além do departamento financeiro.

Transporte e logística sentem a pressão

Para o transporte e a logística, a discussão ganha uma camada adicional de complexidade. A atividade depende de capital intensivo e reúne despesas recorrentes como aquisição e financiamento de veículos, combustível, pneus, manutenção, mão de obra, seguros e capital de giro.

A própria Agência Nacional de Transportes Terrestres atualizou, em julho, os coeficientes dos pisos mínimos do transporte rodoviário de cargas considerando uma variação acumulada de 3,54% do IPCA entre dezembro de 2025 e maio de 2026 e um preço de referência de R$ 6,97 para o litro do diesel S10.

A agência também destaca que a estrutura de custos do transporte envolve combustível, pneus, manutenção, mão de obra, alimentação e pernoites, entre outros componentes.

Os dados de recuperação judicial mostram que o setor já sente os efeitos desse ambiente. No segundo trimestre de 2026, 557 empresas de transporte e logística estavam em recuperação judicial, segundo o Monitor RGF-BIZDOC. O número corresponde a 6,2 empresas em recuperação judicial para cada mil empresas ativas do setor, que reunia 89.372 companhias no recorte analisado.

Em comparação com o segundo trimestre de 2025, a quantidade de empresas de transporte e logística em recuperação judicial cresceu 24%, segundo levantamento da RGF citado pela Folha. O setor apareceu entre aqueles com maior expansão no período, atrás do agronegócio.

O dado ajuda a dimensionar um problema que não se resume à capacidade de gerar receita. Em operações de transporte, uma empresa pode apresentar faturamento crescente e, ainda assim, enfrentar dificuldades para honrar compromissos quando prazo de recebimento, custo financeiro, combustível, manutenção e parcelas de financiamento deixam de estar adequadamente sincronizados.

Planejamento antes do investimento

É nesse ponto que educação financeira deixa de ser apenas uma ferramenta de organização pessoal e passa a integrar a estratégia empresarial.

A discussão sobre investimentos costuma concentrar-se no volume de capital necessário para adquirir novos ativos, ampliar uma operação ou incorporar tecnologia. A questão financeira, porém, começa antes: qual é a capacidade de endividamento da empresa? Qual será o impacto da parcela sobre o fluxo de caixa? Qual é o prazo de retorno do investimento? Quanto capital de giro será necessário durante a expansão? E qual é a margem de segurança diante de uma eventual redução de receita ou aumento de custos?

Em um setor como o transporte, essas perguntas ganham peso porque boa parte das decisões envolve ativos de alto valor e compromissos financeiros de médio e longo prazo.

A necessidade de planejamento também não pode ser dissociada do ambiente macroeconômico. Juros, condições de crédito, inflação, custos de insumos e mudanças regulatórias interferem diretamente nas condições em que uma empresa toma decisões. A responsabilidade pela saúde financeira, portanto, não está isolada dentro de cada CNPJ: ela resulta da combinação entre gestão, estrutura de capital e condições econômicas nas quais a atividade está inserida.

Uma nova agenda para a Frota News

É justamente nesse contexto que a Frota News passa a ampliar sua cobertura com uma nova editoria dedicada à Educação Financeira, trazendo para o debate empresarial temas relacionados a planejamento, gestão de recursos, crédito, investimentos, riscos e sustentabilidade financeira.

A proposta é aproximar conceitos financeiros da realidade de quem toma decisões dentro das empresas, especialmente em segmentos nos quais capital e operação estão diretamente relacionados, como transporte, logística, mobilidade e infraestrutura.

A iniciativa reúne Andréa Magalhanis, Manoel Massa e outros profissionais especializados para discutir, em linguagem acessível, mas com profundidade técnica, como empresas podem interpretar melhor seus indicadores financeiros e tomar decisões diante de diferentes ciclos econômicos.

Mais do que estimular investimentos, a nova editoria parte de uma premissa: investir faz parte do crescimento; planejar é o que permite sustentá-lo.

Em um ambiente no qual milhões de empresas convivem com algum nível de inadimplência e milhares recorrem à recuperação judicial para reorganizar suas obrigações, educação financeira passa a ser também uma ferramenta de prevenção, análise de risco e continuidade empresarial.

Para o transporte e a logística, onde decisões de capital podem determinar a capacidade de manter uma frota operando, atender contratos e financiar a próxima etapa de crescimento, essa discussão ganha uma dimensão ainda maior.

 

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Filipi Cândido
Filipi Cândidohttps://www.frotanews.com.br
Jornalista e diretor de inteligência de mercado na Frota News, com mais de 10 anos de atuação na construção e posicionamento de marcas em diferentes setores da economia. Ao longo da trajetória, esteve à frente de operações e estratégias nos segmentos de hotelaria e mercado de luxo, com passagens por grupos como LVMH — atuando em marcas como Dior e Guerlain — além do grupo Percassi e de uma experiência internacional como consultor de tendências para grandes marcas de wellness da China. Essa vivência consolidou uma visão integrada sobre comportamento, experiência e geração de valor. Atualmente, atua no setor automotivo e de veículos pesados, com foco em frotas, mobilidade e logística, liderando a produção de conteúdo e estratégias que conectam inteligência de mercado a oportunidades reais de crescimento. Nos últimos anos, aprofundou sua atuação em sustentabilidade e ESG, acompanhando de perto as transformações da indústria e traduzindo esses movimentos em análises que impactam diretamente o posicionamento e a competitividade das marcas.
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