segunda-feira, janeiro 12, 2026

Da periferia ao centro: como caminhões e ônibus passaram a fazer parte dos programas Mover e Move Brasil

Durante anos, a política industrial automotiva brasileira foi pensada a partir de um eixo quase exclusivo: o carro de passeio. Programas como Inovar-Auto e Rota 2030 moldaram decisões de investimento, critérios de eficiência e incentivos fiscais com foco predominante nos veículos leves. Caminhões e ônibus nunca ficaram formalmente de fora, mas operaram como coadjuvantes — um “puxadinho” dentro de políticas desenhadas para outra realidade produtiva. O amadurecimento do programa Mover, no entanto, marca uma inflexão relevante: os pesados deixaram a periferia e passaram ao centro da estratégia industrial e ambiental do País.

Neste artigo, temos duas boas notícias para os leitores da Frota News: A Volkswagen Caminhões e Ônibus (VWCO) anuncia que toda a rede de concessionárias já oferece créditos do programa Move Brasil — mais detalhes adiante —, e a Eletra foi habilitada para o Programa Mover. São dois programas distintos, no entanto, com nomes parecidos e ambos de interesse do setor de transporte de carga e de passageiros. Por isso, vamos explicar o que é o Mover e o que é o Move Brasil.

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No Inovar-Auto (2012–2017), o objetivo central era elevar o conteúdo local e estimular a produção no Brasil. Para fabricantes de caminhões e ônibus, historicamente obrigados a altos índices de nacionalização para acessar linhas do Finame/BNDES, o programa pouco alterou o cenário competitivo.

Já no Rota 2030 (2018–2023), embora houvesse metas de eficiência energética, os mecanismos de crédito para P&D e inovação foram concebidos, na prática, a partir de tecnologias típicas dos automóveis. Para o segmento de pesados, cumprir os requisitos e capturar benefícios fiscais exigia adaptações complexas e, muitas vezes, pouco aderentes à lógica do transporte de carga e passageiros.

O que é o Mover

A virada ocorre com o Mover (Mobilidade Verde e Inovação). O programa reposiciona os veículos pesados como protagonistas por uma razão objetiva: são eles também fazem parte das emissões do setor de transportes e, ao mesmo tempo, oferecem as rotas tecnológicas mais viáveis para a descarbonização no contexto brasileiro.

Ao adotar a métrica “do poço à roda”, o Mover passa a considerar o ciclo energético — da produção do combustível ao uso final — favorecendo soluções como biodiesel, biometano, HVO e eletrificação, áreas em que caminhões e ônibus têm papel central.

Na prática, três mudanças estruturais explicam por que o setor de pesados, desta vez, foi efetivamente incluído.

A primeira é o chamado IPI Verde, com um sistema de bônus e malus (penalidade para quem ficar abaixo do esperado) baseado em critérios específicos para carga e transporte coletivo, e não apenas adaptados dos carros de passeio.

A segunda é o incentivo à exportação de tecnologia desenvolvida no Brasil, ponto sensível para a indústria de ônibus, que já atua como fornecedora global de soluções sob medida.

A terceira é a ampliação do escopo do programa, que passa a abranger máquinas autopropulsadas e a dialogar diretamente com o setor de logística, criando um ecossistema industrial mais integrado.

Volkswagen Caminhões e Ônibus no Move Brasil

Esse novo desenho começa a se materializar em iniciativas concretas. A visita do vice-presidente e ministro do MDIC, Geraldo Alckmin, à concessionária Nasa Caminhões e Ônibus, em Brasília, ao lado do presidente da Volkswagen Caminhões e Ônibus (VWCO), Roberto Cortes, para a política do Programa Move Brasil.

No encontro, foi apresentado o Programa BNDES Renovação de Frota (Move Brasil), que busca acelerar a retirada de caminhões com mais de 20 anos de uso das estradas, combinando eficiência operacional, redução de emissões e acesso ao crédito.

O foco declarado em transportadores autônomos e pequenos empresários, com possibilidade de financiamento de veículos novos ou seminovos e condições diferenciadas para modelos a biometano ou elétricos, reforça a conexão entre política industrial, política ambiental e renovação do parque circulante.

O financiamento Move Brasil é para caminhões novos produzidos no Brasil e para seminovos elegíveis (fabricados a partir de 2012). O prazo é de 60 meses com até seis meses de carência, com possibilidade de financiamento integral do bem e taxas de juros mais atrativas que as atualmente praticadas no mercado. A iniciativa também permite condições ainda mais diferenciadas para quem entregar como contrapartida veículos antigos (com mais de 20 anos de fabricação) ou optar por modelos mais eficientes e de menor impacto ambiental.

Eletra habilitada no Programa Mover

Outro sinal relevante vem do segmento de ônibus urbanos. A habilitação da Eletra Industrial no âmbito do Mover, publicada no Diário Oficial no fim de 2025, permite à fabricante acessar créditos financeiros vinculados a investimentos em P&D. Mais do que um movimento pontual, trata-se de um indicativo de como o programa pode fortalecer cadeias produtivas nacionais de alto valor agregado.

Ao longo de três décadas, a empresa construiu competências em eletrificação e agora passa a operar dentro de um arcabouço de política pública que reconhece esse esforço tecnológico. Os impactos não se limitam à planta de São Bernardo do Campo: atingem fornecedores e parceiros industriais em diferentes regiões, ampliando o efeito multiplicador do investimento.

O valor do crédito

Entre 2024 e 2028, o Mover prevê R$ 19,3 bilhões em créditos financeiros em todo o País, condicionados a investimentos em inovação e novos projetos produtivos. Para a indústria de pesados, isso representa uma mudança de patamar. Se antes o desafio era apenas cumprir exigências regulatórias, agora caminhões e ônibus lideram a corrida por novas soluções — motores a gás, biometano, eletrificação de frotas urbanas e, no longuíssimo prazo, hidrogênio.

Ao reposicionar os pesados no centro da política industrial, o Brasil tenta transformar uma vocação histórica — a produção de alimentos e energia renovável — em vantagem competitiva tecnológica. A transição energética no transporte não será feita apenas com carros elétricos. Ela passa, necessariamente, pelos veículos que movem a economia real. E, pela primeira vez em anos, a política industrial parece ter entendido isso.

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Marcos Villela Hochreiter
Marcos Villela Hochreiterhttps://www.frotanews.com.br
Atuo como jornalista no setor da mobilidade desde 1989 em diversas redações. Também nas áreas de comunicação da Fiat e da TV Globo, e depois como editor da revista Transporte Mundial por 22 anos, e diretor de redação de núcleo da Motor Press Brasil. Desde 2018, represento o Brasil no grupo do International Truck of the Year (IToY), associação de jornalistas de transporte rodoviário de 34 países. Desde 2021, também atuo como colaborador na Fabet (Fundação Adolpho Bósio de Educação no Transporte, entidade educacional sem fins lucrativos). Em 2023, fundei a plataforma de notícias de transporte e logística Frota News, com objetivo de focar nos temas que desafiam as soluções para gestão de frotas.
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