Durante anos, a política industrial automotiva brasileira foi pensada a partir de um eixo quase exclusivo: o carro de passeio. Programas como Inovar-Auto e Rota 2030 moldaram decisões de investimento, critérios de eficiência e incentivos fiscais com foco predominante nos veículos leves. Caminhões e ônibus nunca ficaram formalmente de fora, mas operaram como coadjuvantes — um “puxadinho” dentro de políticas desenhadas para outra realidade produtiva. O amadurecimento do programa Mover, no entanto, marca uma inflexão relevante: os pesados deixaram a periferia e passaram ao centro da estratégia industrial e ambiental do País.
Neste artigo, temos duas boas notícias para os leitores da Frota News: A Volkswagen Caminhões e Ônibus (VWCO) anuncia que toda a rede de concessionárias já oferece créditos do programa Move Brasil — mais detalhes adiante —, e a Eletra foi habilitada para o Programa Mover. São dois programas distintos, no entanto, com nomes parecidos e ambos de interesse do setor de transporte de carga e de passageiros. Por isso, vamos explicar o que é o Mover e o que é o Move Brasil.
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No Inovar-Auto (2012–2017), o objetivo central era elevar o conteúdo local e estimular a produção no Brasil. Para fabricantes de caminhões e ônibus, historicamente obrigados a altos índices de nacionalização para acessar linhas do Finame/BNDES, o programa pouco alterou o cenário competitivo.
Já no Rota 2030 (2018–2023), embora houvesse metas de eficiência energética, os mecanismos de crédito para P&D e inovação foram concebidos, na prática, a partir de tecnologias típicas dos automóveis. Para o segmento de pesados, cumprir os requisitos e capturar benefícios fiscais exigia adaptações complexas e, muitas vezes, pouco aderentes à lógica do transporte de carga e passageiros.
O que é o Mover
A virada ocorre com o Mover (Mobilidade Verde e Inovação). O programa reposiciona os veículos pesados como protagonistas por uma razão objetiva: são eles também fazem parte das emissões do setor de transportes e, ao mesmo tempo, oferecem as rotas tecnológicas mais viáveis para a descarbonização no contexto brasileiro.
Ao adotar a métrica “do poço à roda”, o Mover passa a considerar o ciclo energético — da produção do combustível ao uso final — favorecendo soluções como biodiesel, biometano, HVO e eletrificação, áreas em que caminhões e ônibus têm papel central.
Na prática, três mudanças estruturais explicam por que o setor de pesados, desta vez, foi efetivamente incluído.
A primeira é o chamado IPI Verde, com um sistema de bônus e malus (penalidade para quem ficar abaixo do esperado) baseado em critérios específicos para carga e transporte coletivo, e não apenas adaptados dos carros de passeio.
A segunda é o incentivo à exportação de tecnologia desenvolvida no Brasil, ponto sensível para a indústria de ônibus, que já atua como fornecedora global de soluções sob medida.
A terceira é a ampliação do escopo do programa, que passa a abranger máquinas autopropulsadas e a dialogar diretamente com o setor de logística, criando um ecossistema industrial mais integrado.
Volkswagen Caminhões e Ônibus no Move Brasil
Esse novo desenho começa a se materializar em iniciativas concretas. A visita do vice-presidente e ministro do MDIC, Geraldo Alckmin, à concessionária Nasa Caminhões e Ônibus, em Brasília, ao lado do presidente da Volkswagen Caminhões e Ônibus (VWCO), Roberto Cortes, para a política do Programa Move Brasil.
No encontro, foi apresentado o Programa BNDES Renovação de Frota (Move Brasil), que busca acelerar a retirada de caminhões com mais de 20 anos de uso das estradas, combinando eficiência operacional, redução de emissões e acesso ao crédito.
O foco declarado em transportadores autônomos e pequenos empresários, com possibilidade de financiamento de veículos novos ou seminovos e condições diferenciadas para modelos a biometano ou elétricos, reforça a conexão entre política industrial, política ambiental e renovação do parque circulante.
O financiamento Move Brasil é para caminhões novos produzidos no Brasil e para seminovos elegíveis (fabricados a partir de 2012). O prazo é de 60 meses com até seis meses de carência, com possibilidade de financiamento integral do bem e taxas de juros mais atrativas que as atualmente praticadas no mercado. A iniciativa também permite condições ainda mais diferenciadas para quem entregar como contrapartida veículos antigos (com mais de 20 anos de fabricação) ou optar por modelos mais eficientes e de menor impacto ambiental.
Eletra habilitada no Programa Mover
Outro sinal relevante vem do segmento de ônibus urbanos. A habilitação da Eletra Industrial no âmbito do Mover, publicada no Diário Oficial no fim de 2025, permite à fabricante acessar créditos financeiros vinculados a investimentos em P&D. Mais do que um movimento pontual, trata-se de um indicativo de como o programa pode fortalecer cadeias produtivas nacionais de alto valor agregado.
Ao longo de três décadas, a empresa construiu competências em eletrificação e agora passa a operar dentro de um arcabouço de política pública que reconhece esse esforço tecnológico. Os impactos não se limitam à planta de São Bernardo do Campo: atingem fornecedores e parceiros industriais em diferentes regiões, ampliando o efeito multiplicador do investimento.
O valor do crédito
Entre 2024 e 2028, o Mover prevê R$ 19,3 bilhões em créditos financeiros em todo o País, condicionados a investimentos em inovação e novos projetos produtivos. Para a indústria de pesados, isso representa uma mudança de patamar. Se antes o desafio era apenas cumprir exigências regulatórias, agora caminhões e ônibus lideram a corrida por novas soluções — motores a gás, biometano, eletrificação de frotas urbanas e, no longuíssimo prazo, hidrogênio.
Ao reposicionar os pesados no centro da política industrial, o Brasil tenta transformar uma vocação histórica — a produção de alimentos e energia renovável — em vantagem competitiva tecnológica. A transição energética no transporte não será feita apenas com carros elétricos. Ela passa, necessariamente, pelos veículos que movem a economia real. E, pela primeira vez em anos, a política industrial parece ter entendido isso.


