Cortes do Villela #353 | Daimler Truck: aposta no segundo semestre e o paradoxo do mercado de ônibus na América Latina

Seleção do Cortes do Villela de hoje: A Daimler Truck AG revisa suas projeções para cima no segundo semestre impulsionada pela América Norte; a disputa esquenta no mercado de consórcios de pesados; o Grupo EPR assume a Rodovia Régis Bittencourt com o desafio de entregar investimentos estruturais; a ApexBrasil financia a participação de fabricantes brasileiros na feira YugAgro para renovar a frota agrícola russa; e a restrição a divulgação dos dados do setor de caminhões.

A revisão para cima das projeções da Daimler Truck AG para 2026 — prevendo receita de 43 bilhões a 47 bilhões de euros (cerca de R$ 251,5 bilhões a R$ 274,8 bilhões, na cotação atual) e vendas de até 370 mil unidades — revela a aposta da multinacional em um segundo semestre robusto, alavancada pelo desempenho na América do Norte. Como destaca Karin Rådström CEO da companhia, os resultados fortes da operação norte-americana e a redução nos impactos tarifários sustentam essa elevação do guidance.

Sob a ótica do mercado brasileiro, o cenário expõe um paradoxo: enquanto a divisão Daimler Buses GmbH manteve rentabilidade sólida (ROS ajustado de 9,6% e receita de 1,55 bilhão de euros / R$ 9,06 bilhões), a América Latina e o México registraram queda nas vendas unitárias, perda compensada por reajustes de preço e efeitos cambiais. No consolidado, o lucro líquido do grupo saltou 374% no trimestre, atingindo 1,5 bilhão de euros (R$ 8,77 bilhões).

Essa robustez operacional é respaldada pela política de retorno ao acionista: a CFO Eva Scherer confirmou que a forte posição de liquidez garantirá o lançamento imediato da segunda etapa do programa de recompra de ações — de até € 1,1 bilhão (R$ 6,43 bilhões) —, mostrando que a disciplina financeira e os ganhos de margem no exterior continuam blindando a empresa contra a volatilidade pontual dos mercados emergentes.

Setor de transportes aquecido no consórcio com taxas que já foram de 5,5%

A disputa no mercado de consórcios de pesados segue acirrada. Dados da Associação Brasileira das Administradoras de Consórcios (ABAC) mostram que, nos primeiros seis meses de 2026, o segmento de veículos pesados, que reúne ônibus, caminhões, tratores, implementos rodoviários e agrícolas, disponibilizou mais de R$ 12 bilhões em créditos, o que aponta 12,7% a mais em relação ao mesmo período de 2025.

E na Lat.Bus, de um lado, a Ademicon opera no modelo white label (Consortium as a Service) administrando com exclusividade o Consórcio IVECO, com taxas de administração praticadas a partir de 15%.

Do outro lado, o Consórcio Maggi vem ampliando sua presença no setor. Na feira, a Volkswagen Caminhões e Ônibus anunciou que a parceira passa a atender também o segmento de ônibus da montadora, inaugurando o primeiro grupo da marca exclusivo para o setor. Paralelamente, o Consórcio Maggi mantém sua tradicional parceria com o SETCESP, oferecendo condições diferenciadas para os transportadores associados renovarem e ampliarem suas frotas.

Enquanto no passado os grupos exclusivos da entidade contaram com taxas agressivas na casa dos 5,5%, as tabelas para as novas cotas de pesados da Maggi atualmente giram entre 8% e 15% totais, a depender do prazo e da composição do grupo. A contratação para os filiados segue disponível diretamente pelos canais do sindicato.

A régua alta da Régis Bittencourt

O desconto agressivo de 22,53% oferecido pela Grupo EPR Participações para arrematar os 383 quilômetros da Rodovia Régis Bittencourt (BR-116) atende ao apelo político de modicidade tarifária, mas coloca a nova concessão sob o olhar atento do setor produtivo. Com a promessa de investir R$ 7,2 bilhões até 2041 — verba essencial para financiar 69 quilômetros de duplicações e obras operacionais —, a viabilidade do projeto dependerá da velocidade em destravar gargalos históricos, como a geometria travada da Serra do Cafezal, a escassez de terceiras faixas e a falta de pátios de descanso seguros no Vale do Ribeira.

Para o transporte rodoviário de cargas, elo que sustenta o fluxo logístico entre o Paraná e São Paulo, o grande xadrez da concessão não está na assinatura do contrato, mas na execução física do cronograma. Como destacou Luiz Gustavo Peres Nery, vice-presidente do Setcepar, prejuízos com consumo de combustível, perda de janelas de entrega e roubos de carga exigem respostas além do recapeamento asfáltico trivial. O recado das transportadoras à Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) e ao Tribunal de Contas da União (TCU) é o seguinte: a fiscalização precisa de métricas públicas e rigorosas para evitar que a promessa de um pedágio mais barato se desdobre na velha novela de obras atrasadas.

Operação Rússia: ApexBrasil financia 90% para máquinas brasileiras renovarem frota soviética

O setor de equipamentos agrícolas brasileiro ganha um atalho para abocanhar uma fatia das importações russas de maquinário — mercado que movimenta mais de US$ 1,2 bilhão. De 17 a 20 de novembro, Krasnodar sedia a 33ª YugAgro, com a ApexBrasil e o ITE Group garantindo até 90% de subsídio para a exposição de fabricantes nacionais.

O cenário em números e fatos:

  • Frota sucateada:Mais de 50% dos tratores e colheitadeiras em operação na Rússia têm mais de dez anos de uso, criando uma demanda urgente por peças, renovação e tecnologia.
  • Acesso direto: Segundo Dmitry Zavgorodniy, CEO do ITE Group, a feira é a ponte decisiva para conectar soluções brasileiras a grandes distribuidores e agroholdings locais — com tração estendida pelo ecossistema digital YugAgro Connect.
  • Audiente qualificada:O evento atrai mais de 19,7 mil compradores internacionais de 40 países.

Transparência para leves, sigilo para pesados

A divulgado dos dados de Pesados na pesquisa “A Voz do Concessionário” — distribuídos pela Fenabrave apenas às associações de marca (como ABRACAM, ASSODAF e representantes de Volvo, Scania, Iveco e VW) — expõe dúvidas da relação entre montadoras e distribuidores. A preservação desses indicadores contrasta diretamente com a visibilidade dada ao segmento de automóveis. Por que a Fenabrave divulga o resultado da pesquisa A Voz do Concessionáriono segmento de automóveis e esconde os resultados no segmento de caminhões? É só uma pergunta que já foi enviada para assessoria de imprensa da Fenabrave.

 


Cortes do Villela #352: A CEVA Logistics reduz a rotatividade ouvindo as demandas operacionais dos motoristas, enquanto a Braspress Transportes Urgentes realiza um mutirão de empregos em Guarulhos para atender à alta demanda do transporte fracionado. Em Foz do Iguaçu, o setor discute a aplicação da DUIMP no transporte rodoviário para simplificar processos de importação, e o reconhecimento da Scania Brasil no Rio Grande do Sul reafirma o peso do suporte de pós-venda na preferência dos transportadores. Por fim, a falta de divulgação dos dados do segmento de pesados pela Fenabrave suscita questionamentos sobre a transparência na relação entre montadoras e concessionárias.

Cortes do Villela #351: Com o início da corrida eleitoral de 2026, a FETCESP abre agenda de reuniões com presidenciáveis e tem o ex-governador Ronaldo Caiado como primeiro convidado. A Transportadora Sulista nomeou Ronaldo Lemes como novo CEO para impulsionar a metas de crescimento da empresa. A Volkswagen Camiones y Buses México aplicou bônus no Constellation 18.260 manual, reduzindo seu valor e tornando o modelo R$ 69 mil mais barato que no Brasil. A indústria de implementos rodoviários atingiu 15.173 emplacamentos em julho de 2026, registrando o melhor mês do ano apesar de acumular queda no ano.

Cortes do Villela #350 traz os seguintes destaques: A produção de biometano no Brasil cresceu 75% em 2025 e será pauta do 13º Fórum do Biogás em agosto. A Localiza Seminovos Caminhões inaugurou sua primeira unidade na região Sul, localizada em Maringá (PR). A Santos Brasil abriu 39 vagas para seu Programa de Estágio 2026 em diversas localidades. A 99Entrega lançou a campanha institucional “No ritmo que seu negócio pede” com foco nas PMEs. A FedEx reciclou 4,2 toneladas de uniformes no Brasil para a produção e doação de 5 mil cobertores.

Para as edições anteriores: Coluna Cortes do Villela no LinkedIn

Cortes do Villela é a minha coluna diária com os recortes mais relevantes do dia sobre transporte, logística, mobilidade, energia e indústria. Notícias rápidas, análises técnicas e bastidores do setor — sempre com precisão jornalística, curadoria rigorosa e foco no impacto real para quem opera, decide e movimenta o mercado. Uma seleção direta ao ponto, feita por quem acompanha o setor há décadas e sabe exatamente o que importa.

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Marcos Villela Hochreiter
Marcos Villela Hochreiterhttps://www.frotanews.com.br
Atuo como jornalista no setor da mobilidade desde 1989 em diversas redações. Também nas áreas de comunicação da Fiat e da TV Globo, e depois como editor da revista Transporte Mundial por 22 anos, e diretor de redação de núcleo da Motor Press Brasil. Desde 2018, represento o Brasil no grupo do International Truck of the Year (IToY), associação de jornalistas de transporte rodoviário de 34 países. Desde 2021, também atuo como colaborador na Fabet (Fundação Adolpho Bósio de Educação no Transporte, entidade educacional sem fins lucrativos). Em 2023, fundei a plataforma de notícias de transporte e logística Frota News, com objetivo de focar nos temas que desafiam as soluções para gestão de frotas.
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