Quem está formando o profissional que vai cuidar dos veículos comerciais do futuro? No passado, a formação do profissional que trabalhava com caminhões e ônibus acontecia, em grande parte, dentro da própria oficina. O conhecimento era transmitido de profissional para profissional, muitas vezes começando como ajudante e passando por todas as etapas da profissão. Mas, diante da transformação tecnológica, fica uma pergunta cada vez mais importante: quem está formando o profissional que vai cuidar desses veículos?
Era assim que muitos dos grandes profissionais que conhecemos foram formados.
O conhecimento vinha da experiência.
O mecânico mais experiente ensinava o mais jovem. O chefe de oficina acompanhava o trabalho. O profissional aprendia a ouvir um motor, identificar um ruído diferente, interpretar uma fumaça, perceber uma vibração e entender, muitas vezes pelo comportamento do veículo, onde poderia estar o problema.
Esse modelo tinha suas limitações, mas produziu uma geração de profissionais com uma característica muito importante: experiência prática.
Hoje, porém, o cenário mudou.
Os veículos comerciais do futuro estão cada vez mais tecnológicos. Caminhões e ônibus incorporam sistemas eletrônicos, módulos de controle, sensores, redes de comunicação, telemetria, sistemas de pós-tratamento de emissões, transmissões automatizadas e diversas outras tecnologias.
E surge uma pergunta que precisamos fazer:
Quem está formando o profissional que vai cuidar dos veículos comerciais do futuro?
O conhecimento também mudou
O profissional que entrará em uma oficina daqui a alguns anos encontrará um veículo muito diferente daquele que existia quando muitos dos atuais profissionais começaram suas carreiras.
Não basta mais conhecer apenas o funcionamento mecânico.
É necessário compreender como os diferentes sistemas se comunicam.
Um caminhão moderno pode apresentar um código de falha relacionado a determinado componente, mas o código nem sempre significa que aquele componente precisa ser substituído.
Pode existir um problema de alimentação elétrica.
Um aterramento inadequado.
Uma falha de comunicação.
Um sinal fora do padrão.
Ou até mesmo uma condição provocada por outro sistema.
O diagnóstico passou a exigir raciocínio.
E isso muda completamente a forma como precisamos preparar os profissionais.
Não basta ter equipamento
Hoje encontramos nas oficinas equipamentos de diagnóstico cada vez mais sofisticados.
Scanners, interfaces, osciloscópios e softwares conseguem acessar uma quantidade enorme de informações.
Mas existe uma diferença fundamental entre ter uma ferramenta e saber utilizá-la.
O equipamento pode mostrar um parâmetro.
Pode apresentar um código.
Pode registrar um sinal.
Pode disponibilizar informações da rede CAN ou J1939.
Mas quem vai interpretar aquilo?
O equipamento não substitui o conhecimento.
Ele amplia a capacidade do profissional.
Por isso, quando falamos em formar um profissional, não deveríamos pensar apenas em ensinar a operar uma máquina ou seguir um procedimento.
Precisamos ensinar a pensar.
- Ensinar a medir.
- Ensinar a comparar.
- Ensinar a questionar.
E, principalmente, ensinar a procurar a causa da falha em vez de simplesmente substituir peças.
Onde estão os novos profissionais?
Existe outro desafio que considero ainda mais importante.
O setor possui profissionais com décadas de experiência. Pessoas que aprenderam na prática e acumularam conhecimentos que muitas vezes não estão nos manuais dos fabricantes.
São conhecimentos adquiridos em situações reais.
- Na estrada.
- Na oficina.
- Durante uma madrugada tentando resolver uma falha.
- Em um caminhão que precisava voltar para a operação.
- Em uma situação em que o diagnóstico convencional não funcionou e foi necessário pensar diferente.
Esse conhecimento tem um enorme valor.
Mas precisamos fazer uma pergunta:
Estamos conseguindo transferir esse conhecimento para a próxima geração?
A experiência precisa encontrar a tecnologia.
O profissional que possui 20 ou 30 anos de oficina tem muito a ensinar.
O jovem que está chegando ao mercado também traz novos conhecimentos, principalmente relacionados à tecnologia, ferramentas digitais, eletrônica e informação.
Precisamos aproximar essas duas gerações.
A tecnologia não elimina a experiência
Existe uma percepção de que, quanto mais tecnológico fica o veículo, menos importante será a experiência do profissional.
Eu penso exatamente o contrário.
Quanto mais complexos forem os sistemas, maior será a importância de quem sabe interpretar o que está acontecendo.
- Um scanner pode mostrar uma falha.
- Um osciloscópio pode mostrar um sinal.
- Uma interface pode capturar dados da rede CAN.
- Um sistema de telemetria pode apresentar centenas de informações.
Mas alguém precisa transformar esses dados em conhecimento.
E depois transformar conhecimento em diagnóstico.
A tecnologia fornece informação.
O profissional fornece interpretação.
O profissional do futuro precisa reunir conhecimentos diferentes
Quando falamos sobre formar um profissional para os veículos comerciais do futuro, não significa abandonar aquilo que já aprendemos.
A mecânica continuará sendo fundamental.
Quem não entende o funcionamento físico de um sistema dificilmente conseguirá interpretar corretamente todos os seus sinais eletrônicos.
O que está acontecendo é uma evolução tecnológica da profissão.
O profissional precisará conhecer mecânica, mas também eletrônica.
- Precisará entender sensores e atuadores.
- Precisará conhecer redes CAN e J1939.
- Precisará saber utilizar um osciloscópio.
- Precisará compreender sistemas de controle de emissões.
- Precisará interpretar dados.
E, cada vez mais, terá contato com ferramentas baseadas em inteligência artificial.
Não estamos falando necessariamente de transformar todo mecânico em engenheiro de software.
Estamos falando de preparar profissionais capazes de entender o veículo como um sistema.
E as escolas?
Essa transformação também coloca um desafio para as instituições de ensino.
Os cursos técnicos precisam acompanhar a velocidade da indústria.
Não podemos preparar um profissional apenas para o veículo que existia há 15 ou 20 anos.
Mas também não podemos abandonar os fundamentos.
O profissional precisa entender primeiro como o sistema funciona para depois aprender como diagnosticá-lo eletronicamente.
Por isso, teoria e prática precisam caminhar juntas.
- O aluno precisa conhecer o componente.
- Precisa entender seu funcionamento.
- Precisa medir.
- Precisa testar.
- Precisa interpretar uma falha.
- E precisa aprender a utilizar corretamente as ferramentas disponíveis.
A formação precisa estar cada vez mais próxima da realidade encontrada nas oficinas e nas empresas de transporte.
As empresas também precisam participar
A responsabilidade não é somente das escolas.
Montadoras, fabricantes de componentes, distribuidores, concessionárias, transportadoras e oficinas também têm um papel importante.
Treinamentos técnicos, programas de aprendizagem, capacitação interna e acompanhamento dos profissionais mais experientes podem contribuir muito para preparar essa nova geração.
E existe algo que considero fundamental: criar uma cultura de transmissão de conhecimento.
O profissional experiente não pode guardar todo o conhecimento para si.
A empresa também não pode depender eternamente de uma única pessoa que conhece determinado sistema ou assunto.
É necessário criar mecanismos para que o conhecimento circule.
Porque quando um profissional experiente se aposenta ou deixa a empresa, não deveriam desaparecer junto com ele décadas de conhecimento.

O futuro já chegou
Talvez o maior erro seja acreditar que ainda temos muito tempo para preparar essa nova geração.
Os veículos comerciais do futuro já estão nas ruas.
Caminhões e ônibus cada vez mais conectados estão circulando diariamente.
A quantidade de informações geradas pelos veículos comerciais do futuro cresce.
Os sistemas ficam mais integrados.
Os diagnósticos ficam mais dependentes de dados.
E a manutenção acompanha essa transformação.
Um veículo parado representa custo para uma empresa.
Um diagnóstico errado pode aumentar esse custo.
E um profissional despreparado pode gastar horas tentando encontrar uma falha que poderia ser identificada de maneira muito mais rápida com conhecimento, método e as ferramentas corretas.
Quem está formando esse profissional?
Talvez essa seja a pergunta mais importante deste artigo.
Quem está formando o profissional que vai cuidar dos veículos comerciais do futuro?
- A escola tem uma responsabilidade.
- A indústria tem outra.
- As empresas também.
- Os profissionais experientes têm um papel fundamental.
- E o próprio profissional precisa assumir a responsabilidade pela sua atualização.
Não existe mais uma formação que termina quando o aluno recebe um certificado.
- A tecnologia continuará mudando.
- Os veículos comerciais do futuro continuarão evoluindo.
- Novos sistemas serão desenvolvidos.
- Novos equipamentos de diagnóstico aparecerão.
- E novos conhecimentos serão necessários.
Por isso, a formação precisa ser contínua.

O caminhão pode mudar. O conhecimento também precisa mudar.
A indústria continuará produzindo veículos comerciais do futuro mais eficientes, seguros, conectados e tecnológicos.
Isso é positivo para o transporte e para toda a sociedade.
Mas precisamos olhar para o outro lado dessa evolução.
- Quem vai fazer a manutenção?
- Quem vai interpretar os dados?
- Quem vai diagnosticar uma falha na rede?
- Quem vai entender o comportamento de um sensor?
- Quem vai identificar se o problema está no componente ou no sistema que o alimenta?
- Quem vai ensinar o próximo profissional?
Essas perguntas precisam fazer parte da discussão do setor.
Porque não basta desenvolver veículos comerciais do futuro.
Precisamos formar pessoas capazes de cuidar deles.
E talvez esse seja um dos maiores desafios que o setor que cuida de veículos comerciais do futuro terá pela frente: garantir que a velocidade da evolução tecnológica dos veículos comerciais do futuro seja acompanhada pela velocidade da formação de quem trabalha com eles.
Os veículos comerciais do futuro já estão sendo produzidos.
A pergunta é:
Estamos formando hoje o profissional que estará preparado para cuidar deles amanhã?
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