segunda-feira, janeiro 12, 2026

Veículos elétricos entram no radar do crime e impõem novo desafio à logística eletrificada

A logística eletrificada no Brasil já nasce cercada de obstáculos conhecidos pelos gestores de frotas: custo elevado dos veículos, necessidade de infraestrutura de recarga, incertezas regulatórias e desafios operacionais no dia a dia. Agora, um novo fator passa a pressionar esse modelo: o avanço dos roubos e furtos de veículos eletrificados, que começam a chamar a atenção das quadrilhas especializadas em crime patrimonial.

Embora ainda sejam minoria nas ruas, os carros elétricos e híbridos já entraram de vez no radar do crime organizado. Em São Paulo, principal mercado automotivo do país e polo logístico nacional, os registros de roubos e furtos desse tipo de veículo dobraram em apenas um ano. Entre janeiro e outubro de 2025, as ocorrências saltaram de 44 para 88 casos, conforme boletins de ocorrência registrados pela Polícia Civil de São Paulo. Em números absolutos, o volume ainda é pequeno quando comparado ao total da frota circulante, mas o ritmo de crescimento acende um sinal de alerta.

O dado se torna ainda mais relevante quando comparado à expansão do mercado. No mesmo período, as vendas de veículos elétricos e híbridos no estado cresceram cerca de 70%, enquanto os crimes avançaram 100%. Ou seja, o interesse criminoso cresce em ritmo superior ao da própria eletrificação da frota. O modelo mais visado é o Corolla Cross híbrido, um dos eletrificados mais vendidos do país, com forte presença também em frotas corporativas e operações de mobilidade.

Por que os eletrificados se tornaram alvos?

Há razões econômicas e operacionais por trás desse movimento. A principal delas está no valor agregado dos componentes. A bateria, sozinha, pode representar até 40% do preço total do veículo no mercado paralelo. Trata-se de um ativo de alto valor, difícil rastreabilidade e com demanda crescente, seja para reposição, reaproveitamento como bateria estacionária ou desmanche pelos valores das matérias-prima.

Outro ponto crítico é a escassez global de peças. Componentes eletrônicos, módulos de controle e itens específicos da arquitetura elétrica seguem com oferta limitada, o que encarece o mercado de reposição e aumenta o apetite do crime organizado. Para as quadrilhas, o eletrificado passa a oferecer margens mais altas do que veículos convencionais.

Há também uma vulnerabilidade tecnológica. Muitos sistemas de rastreamento e antifurto disponíveis no mercado brasileiro foram desenvolvidos para veículos a combustão e não dialogam plenamente com a arquitetura elétrica. Em alguns casos, a desconexão da bateria de alta tensão ou a manipulação do sistema elétrico compromete o funcionamento de rastreadores tradicionais, reduzindo as chances de recuperação.

A “nova logística” do crime

Talvez o aspecto mais preocupante para gestores de frotas seja o surgimento de uma verdadeira “logística do crime” adaptada aos veículos elétricos. Diferentemente dos modelos a combustão, esses veículos não precisam passar por postos de abastecimento, locais tradicionalmente monitorados. Com ligações clandestinas de energia (“gatos”) e pontos improvisados de recarga, os veículos roubados conseguem permanecer escondidos por mais tempo, dificultando ações policiais e ampliando o ciclo do crime.

Esse novo modus operandi exige uma revisão profunda das estratégias de segurança patrimonial nas operações logísticas. O risco deixa de estar apenas no trajeto ou na carga e passa a incluir o próprio ativo veicular, agora mais valioso e mais complexo.

Impacto direto para gestores de frotas

Para quem opera ou planeja operar frotas eletrificadas, o avanço desse tipo de crime representa mais uma variável na equação do custo total de propriedade (TCO). Seguros tendem a ficar mais caros, exigências de gerenciamento de risco se tornam mais rígidas e investimentos adicionais em tecnologia de proteção passam a ser inevitáveis.

O momento é sensível porque o mercado segue aquecido. Em 2025, quase 224 mil veículos elétricos foram vendidos no Brasil, alta de 26% em relação a 2024. No momento, este volume representa mais de 98% de veículos de passeios e um volume ainda muito pequeno de veículos comerciais leves eletrificados. Mas, a tendência é de crescimento contínuo, impulsionada por metas ambientais, políticas de descarbonização e pressão de grandes embarcadores por operações mais sustentáveis.

Segurança como pilar da eletrificação

Diante desse cenário, a eletrificação da logística deixa de ser apenas um debate ambiental ou econômico e passa a ser também uma questão de segurança. Gestores de frotas precisam avaliar soluções de rastreamento específicas para veículos elétricos, integração com telemetria avançada, monitoramento de baterias e protocolos de resposta rápida em caso de sinistro.

A transição energética no transporte não pode ignorar a gestão de risco. Se, por um lado, os veículos elétricos representam eficiência, redução de emissões e inovação, por outro, já exigem uma abordagem mais robusta de proteção patrimonial. Para o crime organizado, eles já não são novidade. Para o setor logístico, acende um alerta.

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Marcos Villela Hochreiter
Marcos Villela Hochreiterhttps://www.frotanews.com.br
Atuo como jornalista no setor da mobilidade desde 1989 em diversas redações. Também nas áreas de comunicação da Fiat e da TV Globo, e depois como editor da revista Transporte Mundial por 22 anos, e diretor de redação de núcleo da Motor Press Brasil. Desde 2018, represento o Brasil no grupo do International Truck of the Year (IToY), associação de jornalistas de transporte rodoviário de 34 países. Desde 2021, também atuo como colaborador na Fabet (Fundação Adolpho Bósio de Educação no Transporte, entidade educacional sem fins lucrativos). Em 2023, fundei a plataforma de notícias de transporte e logística Frota News, com objetivo de focar nos temas que desafiam as soluções para gestão de frotas.
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