quarta-feira, janeiro 28, 2026

B15 no diesel: avanço sustentável ou risco para o transporte?

Desde 1º de agosto, o diesel vendido em todo o Brasil passou a conter 15% de biodiesel na mistura — o chamado B15. A medida foi aprovada pelo Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) e defendida pelo Governo Federal como estratégica tanto do ponto de vista econômico quanto ambiental. A ideia é clara: reduzir a dependência do petróleo importado, cujos preços sofrem com instabilidades na geopolítica internacional, e ampliar o uso de um combustível produzido internamente, o biodiesel, que emite menos poluentes.

Mas, se no discurso oficial a iniciativa é um passo verde, na prática o Transporte Rodoviário de Cargas (TRC) — responsável por movimentar a economia no país — acende o alerta vermelho. As entidades do setor, como a NTC&Logística e sindicatos regionais, seguem criticando a mudança, apontando custos adicionais e riscos técnicos para frotas já pressionadas por juros altos, defasagem de frete, custos elevados de manutenção, e veículos envelhecidos.

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Histórico: a escalada do biodiesel no Brasil

A mistura de biodiesel ao diesel fóssil foi instituída pela Lei nº 11.097/2005, com o objetivo de diversificar a matriz energética e fomentar a produção agrícola nacional. Desde então, a proporção obrigatória tem crescido gradativamente:

  • 2008: 2% (B2)
  • 2010: 5% (B5)
  • 2017: 8% (B8)
  • 2021: 12% (B12)
  • 2023: 14% (B14)
  • 2025: 15% (B15, em vigor desde agosto)

O cronograma prevê chegar a B20 em 2030, consolidando o Brasil como um dos maiores consumidores de biodiesel do mundo. O avanço é defendido pelo governo como parte do compromisso climático brasileiro e de estímulo à indústria nacional, em especial ao setor de oleaginosas, como soja e sebo bovino.

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O contraponto do setor de transportes

O problema é que, na prática, o B15 não tem agradado motoristas e transportadoras. A NTC&Logística, em estudo divulgado em junho, mostrou que a troca de filtros de combustível ficou mais frequente, reduzindo a vida útil de componentes e elevando os custos de manutenção em 7% por veículo. Isso significa um impacto de 0,5% no custo operacional total das empresas — valor expressivo num setor de margens já apertadas.

O Setcemg (Sindicato das Empresas de Transportes de Cargas e Logística de Minas Gerais) foi mais duro: classificou a decisão como “política e não técnica”. O argumento é que os impactos práticos foram ignorados, sobretudo para frotas antigas, mais suscetíveis a falhas como:

  • Formação de borra em tanques e dutos, especialmente com biodiesel de origem animal.
  • Entupimento de filtros e aumento da frequência de trocas (de 30 mil km para até 10 mil km).
  • Oxidação acelerada e corrosão de componentes metálicos.
  • Perda de potência e maior consumo de combustível, conforme apontam estudos da Universidade de Brasília.
  • Absorção de água, que favorece fungos e bactérias no tanque.

Voz do setor: cautela e adaptação

Para Marcel Zorzin, CEO da Zorzin Logística e presidente do SETRANS-ABC, a decisão é compreensível, mas perigosa:

Entendemos a intenção do Governo em reduzir a dependência de importações e buscar maior estabilidade nos preços internos. No entanto, qualquer alteração no percentual de mistura exige atenção quanto à sua aplicabilidade no transporte rodoviário de cargas. Mudanças como essa impactam diretamente a operação, especialmente na manutenção dos veículos e no desempenho dos motores.”

Na prática, empresas têm buscado alternativas para reduzir riscos. Zorzin explica que a transportadora adota bactericidas nos tanques, reforça os protocolos de monitoramento do combustível e intensifica o treinamento das equipes de manutenção. O objetivo é evitar paradas inesperadas e garantir a disponibilidade da frota.

Impactos econômicos e ambientais

O governo defende que a elevação do biodiesel na mistura traz ganhos ambientais relevantes. A cada 1% de biodiesel adicionado, a emissão de gases de efeito estufa cai, em média, 3%. Além disso, fortalece a indústria agrícola e gera empregos em regiões produtoras de soja, principal matéria-prima do biocombustível.

No entanto, o efeito econômico no TRC preocupa. Considerando a frota nacional de cerca de 3 milhões de caminhões em circulação, um acréscimo médio de 7% nos custos de manutenção pode representar bilhões de reais por ano em gastos adicionais. Para um setor que já enfrenta fretes defasados e alto custo do diesel, o risco é de repasse direto para o preço final dos produtos transportados — ou seja, inflação.

Monitoramento e qualidade: o papel da ANP

Ciente das críticas, a Agência Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) iniciou o Programa de Monitoramento da Qualidade do Biodiesel (PMQBio), com coletas em bases de distribuição e produtores em todo o país. O objetivo é identificar falhas e melhorar continuamente o produto.

A ANP também atualizou a Resolução nº 920/2023, que regula as especificações do biodiesel. A mudança inclui um método mais moderno para medir a contaminação total do combustível, buscando padronizar resultados e dar mais confiabilidade às análises laboratoriais.

O futuro do B15 e o dilema do setor

O aumento da mistura de biodiesel no diesel é parte de um projeto de longo prazo que visa sustentabilidade, segurança energética e fortalecimento da indústria nacional. No papel, a meta de chegar ao B20 até 2030 alinha o Brasil às agendas climáticas globais.

Mas, no chão de fábrica — ou melhor, nas estradas —, os desafios são concretos: custos, quebras mecânicas e falta de planejamento para adaptação das frotas. Sem diálogo mais próximo entre governo, fabricantes e transportadoras, há o risco de que uma medida concebida como avanço ambiental se transforme em um peso econômico para o setor que move a economia.

O B15 é uma encruzilhada. De um lado, o discurso oficial de sustentabilidade e independência energética. Do outro, o receio de quem depende do diesel para manter o país rodando. Se o governo não acompanhar de perto os efeitos reais da mudança, pode acabar colocando o caminhão da sustentabilidade na contramão da competitividade.

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Marcos Villela Hochreiter
Marcos Villela Hochreiterhttps://www.frotanews.com.br
Atuo como jornalista no setor da mobilidade desde 1989 em diversas redações. Também nas áreas de comunicação da Fiat e da TV Globo, e depois como editor da revista Transporte Mundial por 22 anos, e diretor de redação de núcleo da Motor Press Brasil. Desde 2018, represento o Brasil no grupo do International Truck of the Year (IToY), associação de jornalistas de transporte rodoviário de 34 países. Desde 2021, também atuo como colaborador na Fabet (Fundação Adolpho Bósio de Educação no Transporte, entidade educacional sem fins lucrativos). Em 2023, fundei a plataforma de notícias de transporte e logística Frota News, com objetivo de focar nos temas que desafiam as soluções para gestão de frotas.
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