Acelerado pela apresentação de novos veículos elétricos na Lat.Bus, o segmento de ônibus urbanos no Brasil vive momento com disputas diretas entre grandes fabricantes instaladas no país
O pré-lançamento do ônibus elétrico Mercedes-Benz eCity gerou interpretações apressadas do público, que enxergou no veículo uma reação emergencial da montadora ao avanço das fabricantes chinesas no mercado brasileiro. Contudo, essa análise não reflete a dinâmica atual do setor de transporte coletivo. A mobilização de marcas orientadas à eletromobilidade no Brasil concentrou seu maior impacto no varejo automotivo, e não nas frotas de passageiros.
No cenário real da mobilidade urbana brasileira, a Mercedes-Benz do Brasil direciona suas estratégias para concorrentes com sólida presença local. A disputa pelo fornecimento de ônibus elétricos envolve adversários já estruturados no país, como Volkswagen, BYD Brasil e Eletra, empresas que vêm conquistando espaço por meio de linhas de produtos alinhadas às demandas dos operadores e forte planejamento estratégico.
A movimentação da concorrência ficou ainda mais evidente na última edição da Lat.Bus, evento em que a Volkswagen apresentou ao mercado dois novos modelos de chassis para ônibus elétricos. Além da tecnologia de baterias, a marca concorrente mantém engavetadas alternativas voltadas à transição energética com uso de biodiesel puro e biogás.
Nesse contexto competitivo, o lançamento do eCity surge como a primeira resposta direta da Mercedes-Benz para contornar a ofensiva da sua principal rival, a Volkswagen, e consolidar sua participação no transporte sustentável. Novas soluções operacionais e tecnológicas da marca alemã continuam mantidas em reserva e devem ser apresentadas ao mercado ao longo dos próximos meses.
Modelo chega com promessa de preço até 30% menor, autonomia de 150 km e estratégia para reduzir o payback dos elétricos, hoje até três vezes mais caros que um ônibus a diesel
O chassi de ônibus elétrico eCity é uma proposta da Mercedes-Benz do Brasil para enfrentar o maior desafio da eletromobilidade urbana: o custo. Em um mercado onde um ônibus elétrico pode custar até três vezes mais que um similar a diesel, a marca aposta em uma equação que combina preço reduzido, produção local e uso de uma plataforma já consolidada — o chassi OF — para tentar ampliar a base de operadores capazes de migrar para a tecnologia.
Walter Barbosa, vice-presidente de Vendas, Marketing e Peças & Serviços Ônibus da Mercedes-Benz do Brasil, reconhece que a disputa de mercado se intensifica. “Cerca de cinco, seis anos atrás, a gente tinha quatro, cinco concorrentes. Hoje tem mais de dez. E daqui a dez, 15 anos vai ter uns 30 concorrentes”, afirma. A estratégia da Mercedes-Benz, portanto, não é apenas tecnológica, mas econômica.
Ao partir do chassi OF — responsável por cerca de 5 mil unidades vendidas por ano — a fabricante reduz custos industriais e aproveita uma cadeia produtiva já madura. O resultado é um modelo elétrico com preço estimado entre 20% e 30% abaixo dos veículos atualmente disponíveis. Dessa forma, estima-se que o eCity custe pouco mais de R$ 2 milhões, bem menos do que os R$ 3 milhões dos modelos elétricos atuais.
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Em um cenário onde o investimento inicial é a principal barreira à eletrificação, essa diferença pode alterar a dinâmica de decisão dos operadores, especialmente em cidades pequenas e médias, que não dispõem de corredores exclusivos ou infraestrutura robusta.
Ferramenta vai calcular autonomia
A autonomia média de 150 quilômetros por carga, aliada à recarga em até duas horas e à estratégia de “recarga de oportunidade”, reforça o foco em operações pulverizadas, com rotas curtas e intervalos frequentes. A ferramenta eBus Go!, desenvolvida para calcular a autonomia necessária de cada linha, adiciona previsibilidade a um tipo de operação que costuma ser mais sensível a variações de custo e desempenho.
Barbosa estima que o eCity possa alcançar payback em cerca de seis anos — um salto relevante diante dos modelos elétricos atuais, cujo retorno pode ultrapassar dez anos. A diferença decorre não apenas do preço menor, mas da possibilidade de aplicar o veículo em operações que hoje permanecem no diesel por falta de viabilidade financeira.
A carroceria, desenvolvida pela Caio e entregue já integrada ao chassi, simplifica o processo de aquisição e reduz etapas que, em muitos municípios, representam entraves burocráticos ou logísticos. A previsão é que o modelo chegue ao mercado em meados de 2027, com expectativa inicial de cerca de 100 unidades no primeiro ano.
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