quarta-feira, fevereiro 18, 2026

Análise sobre custo do combustível, preço e emissões entre Scania G 460 a GNV, biomentano e diesel

Pelos números de emplacamentos divulgados pela Anfavea (associação das montadoras), há uma frota de pouco mais de 2.600 caminhões produzidos originalmente a gás, com estimativa que quase todos são da marca Scania. Além disso, há os modelos de retrofit, a conversão de um caminhão a diesel para gás. No entanto, o objetivo deste artigo é entender o TCO (Total Custo de Propriedade) de um caminhão a gás, tendo como base um dos modelos mais vendidos ultimamente: o Scania G 460.

Levantamento com base em preços médios divulgados pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) em fevereiro de 2026, dados técnicos públicos e fatores oficiais de emissão indica que, em rotas rodoviárias de até 600 km, o modelo a gás pode apresentar custo técnico por quilômetro inferior ao diesel — além de vantagem expressiva em emissões de CO₂, quando abastecido com biometano.

Premissas da comparação

Foram considerados dois cavalos-mecânicos de 460 cv, ambos voltados ao transporte pesado rodoviário. No caso desta análise de TCO não leva as outras variáveis que são comuns entre caminhões a gás e diesel, apenas o combustível:

  • Scania G 460 (diesel, 13 litros); preço FIPE do zero km 6×2: R$ 1.065.745
  • Scania G 460 (GNV/biometano, ciclo Otto); preço FIPE do zero km 6×2: R$ 1.103.447
Preços médios ANP (fev/2026):
  • Diesel S10: ~R$ 6,11/litro
  • GNV: ~R$ 4,36/m³
Consumos adotados (média de campo e literatura técnica):
  • Diesel: 2,8 km/l
  • Gás: 2,7 km/m³
Combustível: vantagem direta do gás

G 460 a diesel

  • 2,8 km/l → 0,357 l/km
  • Custo combustível: ~R$ 2,18/km

G 460 a gás

  • 2,7 km/m³ → 0,37 m³/km
  • Custo combustível: ~R$ 1,61/km

Na fotografia atual de preços, o G 460 apresenta combustível cerca de 26% mais barato por quilômetro, uma diferença aproximada de R$ 0,57/km.

Manutenção: diesel ligeiramente mais barato

Estudos operacionais indicam que caminhões a gás tendem a ter manutenção direta entre 10% e 20% superior, principalmente por itens de ignição (velas e bobinas) e sistemas específicos do combustível gasoso.

Estimativa média:

  • Diesel: ~R$ 0,30/km
  • Gás: ~R$ 0,35/km

Custo técnico total por km

Item 460 Diesel G 460 Gás
Combustível R$ 2,18 R$ 1,61
Manutenção R$ 0,30 R$ 0,35
Total técnico R$ 2,48/km R$ 1,96/km

Mesmo considerando manutenção mais elevada, o modelo a gás mantém uma vantagem próxima de R$ 0,50 por km, o equivalente a cerca de 20% de economia técnica por quilômetro rodado.

Impacto anual na frota

Em uma operação típica de 150 mil km/ano, a diferença pode chegar a:

  • R$ 75 mil por caminhão/ano em favor do gás
  • Economia ainda maior em frotas de alta quilometragem

Em 1.000 km de viagem:

  • Diesel: ~R$ 2.480
  • Gás: ~R$ 1.960

Emissões de CO₂ com gás natural veicular

Fatores oficiais indicam:

  • Diesel: ~2,68 kg CO₂ por litro
  • GNV: ~2,0 kg CO₂ por m³

Com os consumos adotados:

  • 460 Diesel: ~0,96 kg CO₂/km
  • G 460 GNV: ~0,74 kg CO₂/km

Ou seja, o modelo a gás reduz cerca de 20% a 25% das emissões por km apenas com gás natural fóssil.

Biometano muda o jogo

Quando abastecido com biometano, a redução pode chegar a até 90% no conceito poço-à-roda, segundo dados técnicos divulgados pela fabricante.

Nesse cenário, as emissões equivalentes poderiam cair para algo próximo de 0,10 kg CO₂/km, dependendo da metodologia de contabilização.

Para empresas com metas ESG, contratos com embarcadores multinacionais ou necessidade de acesso a financiamentos verdes, esse diferencial passa a ser estratégico — não apenas ambiental, mas comercial.

Autonomia e aplicação prática

O G 460 a gás oferece autonomia aproximada de 650 km com 300 m³ de gás em algumas configurações e outras variáveis, como rota, trânsito, peso transportado por km e, principalmente, comportamento do motorista.

O diesel mantém vantagem estrutural de flexibilidade, com tanques de 700 litros que permitem 700 a 1.000 km dependendo do consumo e das outras variáveis apontadas.

Hoje, o gás é tecnicamente viável em corredores logísticos com rede estruturada de abastecimento. Fora desses eixos, o diesel ainda mantém supremacia operacional.

Reforma tributária e TCO

Com a implementação gradual da reforma tributária e adoção de alíquotas monofásicas para combustíveis, a tendência é reduzir distorções e cumulatividade.

O combustível representa de 40% a 50% do TCO de um caminhão pesado. Assim, mesmo com preço inicial superior, o modelo a gás pode equalizar ou superar o diesel no custo total ao longo do ciclo de vida — especialmente em contratos de alto volume anual.

Além disso, é sabido que embarcadores que exigem o transporte com caminhões a gás ou elétricos pagam de 10% a 15% a mais pelo frete, além de fazer o investimento em infraestrutura, como postos de abastecimento.

O que isso significa para o gestor de frota?

A decisão entre diesel e gás deixou de ser apenas técnica. Passou a envolver: Estrutura de abastecimento, contratos de longo prazo (a Reiter Log é um exemplo de conquistas de novos contratos), metas ambientais, exigências de embarcadores e política de crédito e financiamento.

Hoje, na média nacional de preços da ANP, o G 460 a gás mostra vantagem técnica por quilômetro e redução relevante de emissões.

Para o transportador que roda acima de 120 mil km/ano em corredores estruturados, o gás — especialmente com biometano — deixa de ser alternativa experimental e passa a ser uma decisão estratégica de competitividade, como é o caso da recente operação iniciada pela Natura (com Coopercarga e Reiter Log), PepsiCo, L’Oréal, Ambev, Suzano, entre outras.

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Marcos Villela Hochreiter
Marcos Villela Hochreiterhttps://www.frotanews.com.br
Atuo como jornalista no setor da mobilidade desde 1989 em diversas redações. Também nas áreas de comunicação da Fiat e da TV Globo, e depois como editor da revista Transporte Mundial por 22 anos, e diretor de redação de núcleo da Motor Press Brasil. Desde 2018, represento o Brasil no grupo do International Truck of the Year (IToY), associação de jornalistas de transporte rodoviário de 34 países. Desde 2021, também atuo como colaborador na Fabet (Fundação Adolpho Bósio de Educação no Transporte, entidade educacional sem fins lucrativos). Em 2023, fundei a plataforma de notícias de transporte e logística Frota News, com objetivo de focar nos temas que desafiam as soluções para gestão de frotas.
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