A entrevista concedida por Christian Levin, CEO da Scania, à CNN Brasil extrapola o noticiário econômico doméstico ao colocar o Brasil no centro da estratégia global da fabricante sueca. Ao afirmar que o País se tornou o maior mercado mundial da marca em volume e que a China funciona como uma “escola” para o desenvolvimento industrial e tecnológico, o executivo reposiciona o debate sobre a geografia da indústria de veículos comerciais.
A leitura apressada pode sugerir que 2024 marca a primeira vez em que o Brasil lidera o ranking global da companhia em vendas de caminhões. Mas os dados históricos mostram que essa liderança não é inédita — é recorrente. Relatórios da própria empresa indicam que o Brasil já ocupava a primeira posição em 2013 e voltou ao topo em ciclos de alta, como em 2018. O que ocorre agora não é uma estreia, mas — mais uma vez — tendo o País como principal mercado da marca.
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Em 2024, segundo Levin, a Scania entregou quase 20 mil caminhões no Brasil. Considerando que o grupo superou 100 mil veículos globalmente no mesmo período, o mercado brasileiro respondeu por algo próximo de 20% do volume mundial. Porém, houve uma retração, esperada em 2025, o que é esclarecido no artigo abaixo:
São Bernardo: o coração industrial na América Latina
O protagonismo brasileiro não se limita às vendas. A fábrica da Scania em São Bernardo do Campo (SP) é peça-chave no sistema global de produção da companhia. Sede da operação latino-americana, a unidade é a única fora da Europa capaz de produzir o produto completo: caminhões, ônibus, motores, eixos e transmissões.
A planta atua como hub industrial e exportador. Produz para o mercado interno — principal consumidor — e abastece países como Argentina, Chile e México, integrando componentes de outras operações regionais, como Tucumán, na Argentina, que envia a maior parte de suas transmissões para o Brasil.
Em 2024, a unidade atingiu a marca histórica de meio milhão de caminhões produzidos desde 1957. Em picos recentes, as exportações representaram até 60% da produção, com embarques realizados principalmente pelo Porto de Santos. No sistema global da Scania, São Bernardo é o segundo maior polo industrial do grupo, atrás apenas da matriz sueca.
Com 214 mil m² de área produtiva, a planta reúne operações de solda, pintura, montagem de cabines, usinagem de motores e montagem final. A capacidade anual de produção de motores chegou a 40 mil unidades em 2024, com cerca de 25% destinados à exportação. Ao todo, o complexo brasileiro exporta para 52 países, incluindo destinos na África do Sul, Oriente Médio, Índia e Europa — inclusive motores Euro 6 para o próprio continente europeu em momentos de saturação das fábricas locais.
Ambiente desafiador, confiança estrutural
O desempenho ocorre em um cenário macroeconômico desafiador, marcado por juros elevados e incertezas externas. Ainda assim, a empresa mantém confiança no horizonte de longo prazo do mercado brasileiro — sinal relevante para grandes transportadoras e operadores logísticos que planejam renovações e expansões de frota com visão plurianual.
Ao comentar temas como o acordo Mercosul–União Europeia e programas de incentivo à descarbonização, Levin também sugere que o Brasil pode ampliar sua competitividade como plataforma exportadora, caso avance em integração comercial e modernização regulatória.
China: escola tecnológica e novo polo produtivo
Se o Brasil lidera em volume e maturidade industrial, a China surge na estratégia da Scania como vetor de aprendizado e aceleração tecnológica. Em 2025, a companhia inaugurou em Rugao seu terceiro hub industrial global, com investimento estimado em 2 bilhões de euros e capacidade licenciada para até 50 mil veículos por ano.
O complexo chinês inclui centros de pesquisa e desenvolvimento com foco em eletrificação, conectividade e soluções digitais — áreas em que o ecossistema industrial local avança em ritmo acelerado. Ao classificar o país asiático como “escola”, Levin reconhece que o ambiente competitivo chinês funciona como laboratório de inovação. O que se desenvolve ali pode ser adaptado e escalado para outros mercados estratégicos, inclusive o brasileiro.
Dois pilares fora da Europa
Historicamente associada à Suécia e ao eixo europeu, a Scania estrutura agora sua geografia industrial sobre dois pilares fora do continente: Brasil e China. O primeiro como maior mercado e hub consolidado; o segundo como laboratório tecnológico e novo polo produtivo.
Para investidores, a estratégia sinaliza diversificação geográfica e redução da dependência exclusiva da Europa. Para clientes-frota, indica acesso a tecnologias desenvolvidas em ambientes de alta competitividade industrial. Para governos, reforça a importância de políticas que preservem competitividade e atratividade de investimentos.
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