quarta-feira, fevereiro 18, 2026

De São Bernardo à China: como o Brasil lidera a estratégia global da Scania

A entrevista concedida por Christian Levin, CEO da Scania, à CNN Brasil extrapola o noticiário econômico doméstico ao colocar o Brasil no centro da estratégia global da fabricante sueca. Ao afirmar que o País se tornou o maior mercado mundial da marca em volume e que a China funciona como uma “escola” para o desenvolvimento industrial e tecnológico, o executivo reposiciona o debate sobre a geografia da indústria de veículos comerciais.

A leitura apressada pode sugerir que 2024 marca a primeira vez em que o Brasil lidera o ranking global da companhia em vendas de caminhões. Mas os dados históricos mostram que essa liderança não é inédita — é recorrente. Relatórios da própria empresa indicam que o Brasil já ocupava a primeira posição em 2013 e voltou ao topo em ciclos de alta, como em 2018. O que ocorre agora não é uma estreia, mas — mais uma vez — tendo o País como principal mercado da marca.

Em 2024, segundo Levin, a Scania entregou quase 20 mil caminhões no Brasil. Considerando que o grupo superou 100 mil veículos globalmente no mesmo período, o mercado brasileiro respondeu por algo próximo de 20% do volume mundial. Porém, houve uma retração, esperada em 2025, o que é esclarecido no artigo abaixo:

São Bernardo: o coração industrial na América Latina

O protagonismo brasileiro não se limita às vendas. A fábrica da Scania em São Bernardo do Campo (SP) é peça-chave no sistema global de produção da companhia. Sede da operação latino-americana, a unidade é a única fora da Europa capaz de produzir o produto completo: caminhões, ônibus, motores, eixos e transmissões.

A planta atua como hub industrial e exportador. Produz para o mercado interno — principal consumidor — e abastece países como Argentina, Chile e México, integrando componentes de outras operações regionais, como Tucumán, na Argentina, que envia a maior parte de suas transmissões para o Brasil.

Em 2024, a unidade atingiu a marca histórica de meio milhão de caminhões produzidos desde 1957. Em picos recentes, as exportações representaram até 60% da produção, com embarques realizados principalmente pelo Porto de Santos. No sistema global da Scania, São Bernardo é o segundo maior polo industrial do grupo, atrás apenas da matriz sueca.

Com 214 mil m² de área produtiva, a planta reúne operações de solda, pintura, montagem de cabines, usinagem de motores e montagem final. A capacidade anual de produção de motores chegou a 40 mil unidades em 2024, com cerca de 25% destinados à exportação. Ao todo, o complexo brasileiro exporta para 52 países, incluindo destinos na África do Sul, Oriente Médio, Índia e Europa — inclusive motores Euro 6 para o próprio continente europeu em momentos de saturação das fábricas locais.

Ambiente desafiador, confiança estrutural

O desempenho ocorre em um cenário macroeconômico desafiador, marcado por juros elevados e incertezas externas. Ainda assim, a empresa mantém confiança no horizonte de longo prazo do mercado brasileiro — sinal relevante para grandes transportadoras e operadores logísticos que planejam renovações e expansões de frota com visão plurianual.

Ao comentar temas como o acordo Mercosul–União Europeia e programas de incentivo à descarbonização, Levin também sugere que o Brasil pode ampliar sua competitividade como plataforma exportadora, caso avance em integração comercial e modernização regulatória.

China: escola tecnológica e novo polo produtivo

Se o Brasil lidera em volume e maturidade industrial, a China surge na estratégia da Scania como vetor de aprendizado e aceleração tecnológica. Em 2025, a companhia inaugurou em Rugao seu terceiro hub industrial global, com investimento estimado em 2 bilhões de euros e capacidade licenciada para até 50 mil veículos por ano.

O complexo chinês inclui centros de pesquisa e desenvolvimento com foco em eletrificação, conectividade e soluções digitais — áreas em que o ecossistema industrial local avança em ritmo acelerado. Ao classificar o país asiático como “escola”, Levin reconhece que o ambiente competitivo chinês funciona como laboratório de inovação. O que se desenvolve ali pode ser adaptado e escalado para outros mercados estratégicos, inclusive o brasileiro.

Dois pilares fora da Europa

Historicamente associada à Suécia e ao eixo europeu, a Scania estrutura agora sua geografia industrial sobre dois pilares fora do continente: Brasil e China. O primeiro como maior mercado e hub consolidado; o segundo como laboratório tecnológico e novo polo produtivo.

Para investidores, a estratégia sinaliza diversificação geográfica e redução da dependência exclusiva da Europa. Para clientes-frota, indica acesso a tecnologias desenvolvidas em ambientes de alta competitividade industrial. Para governos, reforça a importância de políticas que preservem competitividade e atratividade de investimentos.

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Marcos Villela Hochreiter
Marcos Villela Hochreiterhttps://www.frotanews.com.br
Atuo como jornalista no setor da mobilidade desde 1989 em diversas redações. Também nas áreas de comunicação da Fiat e da TV Globo, e depois como editor da revista Transporte Mundial por 22 anos, e diretor de redação de núcleo da Motor Press Brasil. Desde 2018, represento o Brasil no grupo do International Truck of the Year (IToY), associação de jornalistas de transporte rodoviário de 34 países. Desde 2021, também atuo como colaborador na Fabet (Fundação Adolpho Bósio de Educação no Transporte, entidade educacional sem fins lucrativos). Em 2023, fundei a plataforma de notícias de transporte e logística Frota News, com objetivo de focar nos temas que desafiam as soluções para gestão de frotas.
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