Quando criança, pude explorar o mundo que me cercava de muitas maneiras: pulando corda, jogando vôlei, brincando de boneca, lendo livros e tomando banho de chuva. Não me faltaram opções e oportunidades de expandir a imaginação e vivenciar experiências que ficaram marcadas em mim. O mundo lá fora parecia inesgotável em suas muitas possibilidades, e o ar livre era como um convite contínuo para a minha mente fértil.
Infelizmente, hoje, as crianças parecem absortas em uma realidade artificial, projetada em telas que mais as aprisionam do que as libertam. Cercadas por muros cada vez mais altos, aparelhos eletrônicos e brinquedos tecnológicos, vivem cada vez menos uma infância plena.
E então surge uma pergunta: ainda é possível viver uma infância como a que conhecíamos em pleno século XXI?
Onde a imaginação floresce
Anthony Esolen fala-nos que uma das maneiras de destruir a imaginação do seu filho é privá-lo do contato com o ar livre. Para ele, o perigo do ar livre é o próprio ar livre, exatamente por ele ser a fonte de todo deslumbramento.
A natureza, diferentemente dos jogos, desenhos e filmes, não entrega nada pronto às crianças: um graveto pode virar uma espada ou uma colher; uma árvore pode se transformar em uma torre de vigia; um empilhamento de pedras pode se transformar em uma muralha a ser derrubada pelo bravo guerreiro.
Tantas são as opções oferecidas pelo campo e até mesmo pelas cidades que toda uma infância não seria capaz de esgotá-las. Afinal, o mundo real oferece um entretenimento muito mais instigante e tangível do que qualquer explosão de gráficos coloridos em uma tela. E é justamente por isso que as crianças precisam imaginar.
Ao se deparar com um brinquedo eletrônico, por exemplo, a criança vê-se conduzida a “explorar” um conteúdo que foi cuidadosamente projetado para mantê-la conectada. Nesse mundo artificial e previsível das telas, as crianças ficam cada vez mais distantes da experiência concreta da infância: criar, imaginar e explorar, trio de palavras que melhor expressa o aflorar da infância.
Pés descalços
Em O Menino Descalço, poema escrito por John Greenleaf Whittier, vemos uma descrição perfeita do que era a infância, ou do que deveria ser. Ele abençoa o menino que, com o rosto bronzeado e os pés descalços, desfruta de uma riqueza que nem mesmo um homem rico é capaz de possuir: o mundo.
Whittier fala-nos do menino que ele já foi e que talvez você também, caro leitor, já tenha sido: um príncipe herdeiro de um império de aventuras e descobertas, experimentando a liberdade de tocar a terra com os pés descalços.
Essa infância livre, espontânea e profundamente ligada ao natural costumava ser a realidade de muitos de nós, e nem faz tanto tempo assim. As abelhas, as flores, os pássaros e as tocas dos animais eram campos de descoberta e conhecimento, fontes supremas de maravilhamento.
O menino descrito nesse poema não está apenas a observar uma paisagem bonita; ele pertence ao mundo. E a natureza não é um cenário para a infância: é a própria infância.
Esse mundo está ao alcance dos olhos, dos ouvidos, dos pés e das mãos. Mas, afinal, ainda existem essas coisas para apreciar?
Os pés que serão calçados
Esse mundo ainda está aqui, embora esquecido. A luz do sol ainda brilha, vívida e imponente, e o ócio da contemplação continua sendo o alicerce da cultura.
As abelhas, as flores e o movimento das estações continuam sendo o alto-falante do Criador para uma vida vivida em meio à compulsão e ao ruído. O Criador ainda sussurra no desabrochar de uma flor e no cantar de um pássaro.
E nós devemos ensinar às crianças sobre o tamanho da riqueza que elas possuem. Os pés descalços, muito mais do que uma característica física, são uma espécie de liberdade e pertencimento à terra que elas desfrutam.
Portanto, não ousemos colocá-las na cela da prisão das obrigações e convenções, pois os pés que hoje correm descalços um dia serão calçados para o trabalho.


