A Globo, que na minha avaliação durante muito tempo foi conivente com o poder e muitas vezes preferiu promover a narrativa do governo a confrontá-lo, está agora experimentando na própria pele aquilo que tantos jornalistas já vinham denunciando: as consequências de decisões que interferem no debate público e na liberdade de imprensa. O cancelamento do debate presidencial desta quinta-feira, após decisões judiciais que alteraram as regras previamente estabelecidas pela emissora, deveria servir de alerta para toda a imprensa brasileira. Eu desejo, sim, que a Globo tenha liberdade para fazer jornalismo, mas também desejo que ela compreenda que liberdade de imprensa não pode ser seletiva: não pode ser defendida apenas quando somos nós os atingidos. Porque quando aceitamos a censura contra o outro, ajudamos a construir o ambiente em que, amanhã, ela poderá chegar até nós.
Este domingo não é apenas mais um domingo de eleição. É um momento em que o brasileiro precisa compreender a responsabilidade que carrega diante da urna. E, diante do que estamos vivendo no país, não podemos ser omissos. Não podemos nos calar perante aquilo que entendemos como um avanço preocupante do poder sobre a liberdade de expressão e de imprensa. Nos últimos anos, vimos decisões do STF envolvendo redes sociais, jornalistas, veículos de comunicação e manifestações políticas que provocaram um intenso debate sobre os limites da atuação do Judiciário. O bloqueio do X em 2024, as restrições impostas a Jair Bolsonaro em 2025 e a suspensão do Rumble no Brasil são exemplos concretos de decisões que precisam ser discutidas pela sociedade, independentemente de quem seja beneficiado ou prejudicado por elas.
Também não podemos ignorar o caso envolvendo o Banco Master e as informações relacionadas ao ministro Alexandre de Moraes. O próprio STF confirmou que existem petições e documentos em análise envolvendo o episódio. Reportagens revelaram ainda um contrato de R$ 131 milhões entre o banco e o escritório de sua esposa. A existência do contrato, evidentemente, não prova qualquer irregularidade do ministro, mas um caso dessa dimensão precisa ser esclarecido com absoluta transparência. Autoridades públicas não podem estar acima do questionamento.
E essa discussão não termina em Brasília. Ela chega à economia real, às empresas e ao setor de transporte. A dívida bruta do Governo Geral chegou a 82,5% do PIB, ou R$ 10,9 trilhões, em julho de 2026. Em 12 meses, os juros nominais do setor público alcançaram R$ 1,15 trilhão. O Banco Central também projeta crescimento de apenas 1,8% para a economia neste ano. São números que exigem responsabilidade fiscal e planejamento de longo prazo.
No transporte, a situação é igualmente preocupante. A Pesquisa CNT de Rodovias mostrou que, em 2024, 26,6% das rodovias avaliadas estavam em condições ruins ou péssimas. A CNT estimou que as condições inadequadas do pavimento elevavam, em média, 32,5% os custos operacionais do transporte rodoviário.
Isso significa diesel, pneus, manutenção, tempo perdido, risco e frete mais caro. Significa que o caminhoneiro e o transportador continuam pagando uma conta que não deveria existir em um país que pretende ser competitivo. Nós não podemos permanecer indiferentes diante disso. Minha posição crítica em relação ao governo Luiz Inácio Lula da Silva é pública. Considero que existem razões econômicas e institucionais suficientes para questionar profundamente os rumos do país. Mas justamente por defender o jornalismo, não acredito que opinião deva substituir fato. A crítica precisa estar acompanhada de números, documentos e informações verificáveis.
Não podemos ser imprensa de governo, de oposição ou de tribunal. Precisamos ser imprensa. Neste domingo, portanto, não seja omisso. Não vote no automático. Compare propostas, históricos e posições. Olhe para a economia, para a infraestrutura, para a liberdade de expressão e para a relação entre os Poderes. Porque democracia não significa concordar com quem governa. Significa ter liberdade para questionar quem governa. E quando a imprensa deixa de questionar o poder, quem perde não é apenas o jornalista. Quem perde é o cidadão.
Vamos publicar receita de bolo?
O publisher da Frota News, Marcos Villela, afirma esperar que os veículos de comunicação nunca mais tenham de recorrer ao expediente das “receitas de bolo” para preencher espaços deixados pela censura. Durante o período da ditadura militar no Brasil, reportagens, artigos e análises frequentemente eram vetados pelos órgãos de controle antes da publicação. Sem poder divulgar o conteúdo original, alguns jornais e revistas passaram a substituir os textos censurados por receitas de bolo, poemas ou outros conteúdos aparentemente desconexos.
A estratégia tinha um duplo objetivo: preencher o espaço gráfico já reservado na página e, ao mesmo tempo, sinalizar aos leitores que uma informação havia sido suprimida. Com o passar do tempo, a população passou a reconhecer esses sinais. Quando uma receita de bolo surgia em meio às páginas de política, economia ou assuntos nacionais, ficava evidente que o texto originalmente preparado para aquele espaço havia sido censurado.
Para Marcos Villela, a lembrança desse período deve servir como alerta permanente sobre a importância da liberdade de imprensa e do direito da sociedade de receber informação plural, independente e livre de qualquer forma de censura.
Comunicado das entidades do setor de jornalismo
A Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (ABERT), a Associação Nacional de Editores de Revistas (ANER) e a Associação Nacional de Jornais (ANJ) se solidarizam com a TV Globo e manifestam profunda indignação com a intervenção judicial nas regras previamente definidas que levou ao cancelamento do último debate presidencial do primeiro turno.
As entidades entendem que a interferência não se trata apenas de uma imposição de obrigações, sem previsões em lei, contra uma emissora privada. É, sobretudo, uma agressão à liberdade de imprensa ao forçar a condução do debate em desrespeito a regras acordadas há meses entre a emissora e os partidos.
Infelizmente, os excessos judiciais atropelaram o direito de os cidadãos terem acesso às propostas dos candidatos que, conforme prevê a lei eleitoral, já tinham sido convidados e se dispuseram a participar do debate.
01/10/2026
ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE EMISSORAS DE RÁDIO E TELEVISÃO (ABERT). ASSOCIAÇÃO NACIONAL DE EDITORES DE REVISTAS (ANER).
ASSOCIAÇÃO NACIONAL DE JORNAIS (ANJ).


